quarta-feira, setembro 22, 2021

Branco, você é racista

Se você é branco/a, mora no Brasil e está lendo esse texto, você é racista. Frantz Fanon nos ensina isso. Você, branco/a, nascido em uma sociedade racista, cresce sendo racista. Esse é o pressuposto do qual devemos partir para refletir sobre as questões raciais em nosso país tendo em conta a branquitude.

O racismo está gravado em nós – e ele é estrutural, institucional e cotidiano

Do lugar que eu e você sabemos que ocupamos na estrutura social, podemos adotar uma postura antirracista. Ser antirracista é uma construção diária e relacional, por ser uma experiência singular, mas que só é possível, assim como o racismo, de se realizar na coletividade. É diante do outro que somos racistas ou antirracistas. Isto não é sinônimo de aderir a campanhas publicitárias de curta duração. Colocar uma tela toda preta no seu Instagram durante um dia não tem necessariamente significado concreto. Pelo contrário: pode servir para me/te tranquilizar a não lidar com o meu/seu racismo, já que, olha só, eu/você postei/postou, várias pessoas viram, ganhei/ganhou alguns likes e pude/pôde seguir adiante com a sensação de “dever cumprido”.

Grada Kilomba escreve, aprofundado uma ideia de Paul Gilroy, sobre os “cinco diferentes mecanismos de defesa do ego pelos quais o sujeito branco passa a fim de ser capaz de ‘ouvir’, isto é, para que possa se tornar consciente de sua própria branquitude e de si próprio(a) como performer do racismo: recusa/ culpa/ vergonha/ reconhecimento/ reparação”. Bebendo da fonte psicanalítica de Kilomba e Fanon, este tampouco é um movimento que nós, brancos, faremos apenas uma vez na vida. Ele é recorrente. Escuta, estudo, análise: existem muitas formas de processar os acontecimentos para que eles não se repitam da mesma maneira.

O racismo está gravado em nós – e ele é estrutural, institucional e cotidiano. Não adianta se esconder atrás da justificativa de que ele existe estruturalmente como se fosse uma entidade que não tem qualquer relação com as suas práticas cotidianas, pois é por meio delas que o racismo se manifesta.

É algo que você deverá fazer por você e, principalmente, pela sociedade, para o resto da vida. Sempre vai haver um comentário, uma atitude sua ou um pensamento que eu/você nem quis revelar, racista. Nunca será, para mim/você, branca/o, um processo completo – tomara que, coletivamente, enquanto humanidade, um dia seja. Querer fazer “o” tweet “lacrador” que receba aplausos sobre uma pauta que eu/você não tenho/tem o protagonismo é mais um sintoma da branquitude. Isto porque o racismo, tal como o conhecemos hoje, tem seu espírito competitivo e hierárquico, tão bem cultivado nas curtidas, entranhado no longo processo de nascimento e construção do capitalismo e do colonialismo.

É saber que você não sabe nada sobre viver a vida como uma pessoa negra. E nem da multiplicidade de experiências que contém. Patricia Hill Collins afirma que “embora o fato de se viver a vida como mulher negra possa produzir certas visões compartilhadas, a variedade de classe, região, idade e orientação sexual que moldam as vidas individuais de mulheres negras têm resultado em diferentes expressões desses temas comuns. Portanto, temas universais que são incluídos nos pontos de vista de mulheres negras podem ser experimentados e expressos de forma distinta por grupos diferentes de mulheres afro-americanas”.

Seus caminhos podem se cruzar em termos de gênero e classe, mas não há equivalências. Abdias Nascimento fala sobre o círculo vicioso de discriminação que foi formado no Brasil: “se os negros vivem nas favelas porque não possuem meios para alugar ou comprar residência nas áreas habitáveis, por suas vez, a falta de dinheiro resulta da discriminação no emprego. E a falta de emprego é por causa de carência de preparo técnico e de instrução adequada, a falta desta aptidão se deve à ausência de recurso financeiro”. No Brasil, cuja economia foi estruturada sobre o regime escravista, a raça estrutura classe. E a dificuldade de parte da esquerda em compreender isso é mais uma demonstração de racismo.

Como eu vi uma imagem que circulou pela internet esses dias, “racista, porém, antifascista”. Ser antifascista, considerando as raízes históricas no anarquismo e no comunismo, deveria significar compreender que o discurso racista de Bolsonaro ecoa fundo em nosso país, um dos mais desiguais do mundo. Ele se elegeu sob a afirmação do racismo e do patriarcado. Então há uma questão que temos que nos colocar que não é apenas qual a melhor tática para tirá-lo do poder, se impeachment no Congresso Nacional ou a cassação da chapa na Justiça em meio à pandemia da covid-19 e a protestos de rua, mas qual é a estratégia que adotaremos a longo prazo. Compor frentes táticas pode ser necessário em determinados momentos históricos, mas isso mão significa estar do mesmo lado nas lutas emancipatórias que diversas figuras que se declararam antifascistas essa semana ou que assinaram aquele manifesto sobre sermos 70%.

É diante desse cenário que ecoa a frase de Sueli Carneiro e que as pessoas brancas progressistas têm tanta dificuldade em entender: “entre esquerda e direita, continuo sendo preta”.

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