Brasil envelhece sem estabelecer parâmetros para combater desigualdade

Censo 2022 mostra recorde histórico no número de pessoas centenárias

Li semana passada, aqui na Folha, a divulgação dos dados do Censo Demográfico 2022, levantado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) informando que o Brasil já contabiliza 37.814 pessoas centenárias.

Para uma nação com 203,1 milhões de habitantes, este número é muito representativo. Além do mais, dada a nossa grande desigualdade, pela forte concentração de renda na mão de poucos, em geral concentrados nas regiões Sul e Sudeste, e, sobretudo, pela situação da precariedade dos serviços ofertados à velhice, é um feito a chegada de uma pessoa aos três dígitos de existência.

O combate à desigualdade deve ser o primeiro parâmetro para se pensar em um Brasil de cidadãos e cidadãs centenariamente saudáveis.

Ao tomar conhecimento de casos arrolados nos números do Censo 2022, fiquei bastante tocado com a história de dona Maria Cardoso de Oliveira, nascida em 1919, em Mato Verde, norte de Minas Gerais, e hoje moradora de Promissão, no Noroeste paulista –ela fará 104 anos no próximo dia 4 de novembro e já prepara sua festinha, regada a vinho, junto de sua numerosa família, composta de filhos, netos, bisnetos e tataranetos.

Envelhecer no Brasil representa um desafio enorme –ainda mais para pessoas negras, como é o caso de dona Maria Cardoso. Ela trabalhou na roça, casou aos 18 anos, teve cinco filhos e após ultrapassar a marca dos cem anos deu uma rasteira na velhice e virou “influencer de vinho” de uma grande empresa do setor.

Eu pertenço a uma família de pessoas centenárias. Meu avô Modesto viveu até os 112 anos e duas de minhas avós –ambas chamadas Maria– faleceram com 88 e 104 anos de idade. Oxalá que eu chegue ao menos perto.

No ano de 1988 –data que marcou o centenário da Abolição da Escravatura—, fui escalado pelo jornal Maioria Falante, editado pelo Movimento Negro do Rio de Janeiro, para entrevistar pessoas negras centenárias, que viveram no período da escravidão.

A tarefa foi desafiadora, não só pelo fato de localizar pessoas negras, com ou acima de cem anos, estigmatizadas pela escravidão ou não, mas trazê-las para o cenário contemporâneo com suas histórias e dores.

Após muita luta e pesquisas, encontrei três pessoas centenárias que sussurraram e contaram histórias sobre as agruras do período escravista brasileiro: Raimundo Gomes dos Santos, conhecido por Chapéu de Couro, Manoel Deodoro Maciel e Maria do Carmo Gerônimo.

O primeiro deles, Raimundo, nasceu na região de Diamantina, em Minas Gerais, em 23 de setembro de 1860, e viveu em São Paulo, quando deu entrevista coletiva, da qual participei. Na ocasião, falou que seu segredo de longevidade era simples: ficar longe dos vícios, dormir cedo e comer de tudo. Viveu milagrosamente até os 134 anos e –pasmem!– , antes de ser internado pela segunda vez na sua longa vida, na cidade de Presidente Epitácio, roçava o próprio quintal e media forças com quem se aproximasse dele, além de exibir seus músculos para repórteres. O seu registro de nascimento tinha algo a atestar sua idade: a carta de alforria lavrada em pergaminho pelo seu antigo senhor e dono, a qual ele usava como espécie de carteira de identidade.

Já Manoel Deodoro Maciel encontrei em casa na Fazenda dos Mineiros, região de São Gonçalo, área metropolitana do Rio de Janeiro. Foi divertido estar com ele, e o seu tutor, um ex-chefe que cuidava carinhosamente do idoso. Apesar dos seus 120 anos (nasceu no dia 8 de janeiro de 1868, antes da Lei do Ventre Livre, que é de 1871), ainda trabalhava, vendendo verduras na feira local. Chegou a me dizer que se lembrava do dia da abolição da escravatura e, contraditoriamente, ora achava que os negros de hoje sofrem igual ao período da princesa Isabel, ora que naqueles tempos tudo era melhor, pois se “tinha casa e comida”.

Dispondo de ótima memória, contou que saiu de Minas após 1888 e viveu cerca de 30 anos nas ruas, até chegar à antiga capital federal. Gostava de pinga e sobre dinheiro então declarou “gosto e adoro”. Tanto que tivemos que pagar pelo seu depoimento.

Com Maria do Carmo Gerônimo, nascida em Carmo de Minas, em 1871, filha de Sabrina, africana de Angola, e, como a mãe, propriedade de Luiz José Monteiro de Noronha, a situação foi inusitada.

Doida para conhecer o mar, pela mão do então prefeito Cesar Maia, foi levada à praia de Copacabana, bastante poluída, bebeu água salgada em copo de plástico e assistiu missa rezada pelo papa João Paulo 2º.

A Folha registrou a visita na edição de maio de 1995. Na ocasião, sempre cercada de jornalistas, um dos quais me incluo, Maria do Carmo disse que achou o mar “bonito”. Além de ter sido escravizada até os 17 anos, disse ter trabalhado por 60 anos como empregada doméstica na casa de José Armelim Bernardo de Guimarães, quando passou a cuidar dos 13 filhos do historiador. Ele é neto do romancista Bernardo de Guimarães, autor do livro “A Escrava Isaura”, publicado em 1875, quatro anos depois do seu nascimento da senhora centenária. Faleceu aos 129 anos, em 2000, considerada a mulher mais velha do mundo pelo Guinness Book brasileiro.

O ex-ministro da Saúde Adib Jatene, que conheceu Maria do Carmo, considerava que uma pessoa, segundo a medicina, podia viver até os 125 anos. Mas o Brasil é o Brasil, Raimundo e do Carmo podem dizer melhor para nós.

De acordo com o Censo 2022, divulgado no último dia 27, o país envelhece aceleradamente há décadas. Dados revelados mostram que a população saltou para 57,4%, em comparação a 2010 –o maior crescimento histórico verificado desde o Censo de 1872.

Segundos os pesquisadores Neir Antunes Paes e Juliana Barbosa Medeiros, que estudam com dados do semiárido brasileiro, desde 1960 o número de centenários tem dobrado de tamanho no país. E o reflexo é geral. Em 2013, haviam 441 mil centenários no mundo. Para 2050, a projeção é ter 3,7 milhões.

No Brasil esse contingente populacional em 1950 era de 9.689, passando a 11.990 em 2000, até atingir os 37.814 no recenseamento agora divulgado –aumento de 77% apenas nos últimos nove anos.

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