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Com mulheres negras à frente, coletivos de comunicação buscam novas narrativas sobre comunidades do Rio

Elas vêm arregaçando as mangas e mostrando seu próprio ponto de vista sobre esses territórios

Por Kamille Viola, do O Globo

Carla Siccos, do CDD Acontece Foto: Luciola Villela

Em 2014, a ONG Observatório de Favelas divulgou a pesquisa Direito à Comunicação e Justiça Racial, que mapeou 118 veículos de comunicação alternativa, comunitária ou popular. É provável que hoje esse número seja ainda maior. Cansados do pouco espaço na grande mídia para suas comunidades, sempre associadas a estereótipos como violência e sujeira, moradores de favelas vêm arregaçando as mangas e mostrando seu próprio ponto de vista sobre esses lugares. Em muitos deles, são mulheres negras que estão à frente.

Os assuntos abordados vão de atividades que acontecem lá dentro a serviços úteis, passando por histórias de moradores, como conta Beatriz Calado, do Fala Roça.

Beatriz Calado, do Fala Roça Foto: Divulgação

— Lá, por exemplo, falamos de cultura, acesso a direitos básicos, cotidiano da favela e das personalidades que aqui vivem e suas histórias. Muitas já viralizaram, como a do morador que distribuía café para motoristas de ônibus em troca de carona para levar o filho dele em uma escola em São Conrado ou, mais recentemente, a de um morador que decidiu ajudar um menino e sua família após vê-lo mexendo em uma lixeira da Rocinha — conta. Criado em 2012, o jornal tem edição impressa com 5 mil exemplares, a página falaroca.com e tem 12 mil seguidores no Instagram.

Foi graças ao CDD Acontece, criado em 2011 na Cidade de Deus, que, há alguns anos, a Comlurb chamou a comunidade para conversar sobre a questão do lixo. A empresa acabou implantando os ‘laranjões’, contêineres para depósito de dejetos na favela.

— Esse momento fez a gente perceber a força que a mídia comunitária tem. Que a gente pode tentar, de alguma forma, ajudar na melhora do nosso território. Eu costumo dizer que o CDD Acontece é o meu grito de cidadania — define a criadora, Carla Siccos. O informativo funciona nas redes sociais: são 120 mil curtidas no Facebook, 16 mil no Instagram e lista de transmissão do WhatsApp com mais de 8 mil pessoas, além de um aplicativo próprio com 10 mil usuários.

A falta de espaço para reclamações dos moradores faz com que eles tenham ânsia em divulgar os problemas. Mas os veículos procuram ter um olhar mais amplo sobre o lugar.

— Cabe à gente, pelo menos aqui, levar também uma narrativa positiva. A gente postou, por exemplo, a história da Luana, que é lutadora de jiu-jitsu, tem 10 anos e em tudo de que ela participa é campeã. Colocamos que ela ia aparecer num canal de TV. Foi um post que muita gente compartilhou — comenta Ana Muza Cipriano, do PPG Informativo, sobre as comunidades do Pavão-Pavãozinho e Cantagalo. Nascido em 2014, o veículo tem 16 mil seguidores no Facebook e mais de 4 mil no Instagram.

Carla Siccos conta que as pautas que não têm espaço na grande mídia são as que mais rendem compartilhamentos nas redes.

Carla Siccos, do CDD Acontece Foto: Luciola Villela / Luciola Villela

— Por exemplo: em novembro, teve um festival de luta livre e no-gi, jiu-jítsu sem quimono. A gente fez uma publicação falando das pessoas que participaram desses eventos, que três atletas da nossa comunidade foram medalhistas no no-gi. A equipe da Cidade de Deus, Team CDD, foi a 12ª colocada do Brasil na luta livre no campeonato, acho que entre 40 times. Pode parecer besteira, mas em 24 de junho, a gente tinha feito uma publicação divulgando a formação dessa equipe, uma oportunidade gratuita para jovens da comunidade. E ela já foi a 12ª colocada no Brasil. É esse tipo de publicação que tem mais repercussão aqui dentro. As crianças começam a querer fazer esporte para aparecer no CDD Acontece, como se fosse para aparecer na Globo. É muito gratificante — comemora.

Marcela Lisboa, da Agência Naya, agência de publicidade focada nas classes C e D, observa que os coletivos das favelas apresentam um viés humanizado do território:

Marcela Lisboa, da Agência Naya Foto: Arquivo Pessoal

— O importante é essa promoção de um outro olhar sobre o lugar, mais afetivo, que talvez consiga reconhecer as potencialidades criativas do espaço. E humanizar, também, tanto o território como as pessoas ali. Porque eu vejo que a gente acaba com frequência virando número, “mais um Silva”, digamos assim. Nós, dos coletivos, acabamos entrando nesse lugar de reconhecer as pessoas como sujeitos, protagonistas de suas histórias — reflete.

Essa contranarrativa muitas vezes acompanha também o que de mais novo existe em termos de tecnologia da informação. No ano passado, por exemplo, os coletivos GatoMÍDIA e Papo Reto, com coprodução de Agência Naya, AilurosStudio e Nugrau360º, realizaram os filmes em 360º “Descolonize o olhar”, que acompanha o fotógrafo Bira Carvalho na Maré e foi exibido na ONU, e “A minha vida é aqui”, sobre Lúcia Cabral, a Tia Lúcia, professora e assistente social que se tornou referência para crianças e jovens em sua comunidade ao unir tecnologia e cuidado com o meio ambiente. Já o CDD Acontece foi um dos únicos dois selecionados no Brasil para receber a visita da equipe do WhatsApp, que aconteceu em novembro de 2018, pelo bom uso que faz do aplicativo.

Leia também:dez filmes dirigidos e protagonizados por mulheres para ver em 2020

— Em outubro, eu fui no Festival 3i — Jornalismo Inovador, Inspirador e Independente, que aconteceu lá na Lapa, e, pelo que eu percebi, a inovação está na favela, nos jornalistas da comunidade. (Na grande mídia) está todo mundo sempre fazendo a mesma coisa e com aquele medo de ser mandado embora. E a gente está aqui, se reinventando. A gente se vira nos 30 o tempo inteiro e ainda corre um risco gigantesco. Ninguém fala do risco, mas a gente corre. E nós estamos aqui, informando coisas que acontecem na favela. Isso incomoda tráfico, polícia, todo mundo. Mas a gente está aqui, resistindo — resume.

Nesses espaços, é notável a presença de mulheres negras. Para as entrevistadas, isso não surpreende.

— Não tenho dados, mas dentro das comunidades, a quantidade de mulheres negras é grande, e temos visto cada vez mais a presença das mulheres em diversos setores, ocupando espaços e mostrando que podem realizar o que desejarem. E na comunicação isso também acontece — analisa Beatriz Calado, do Fala Roça. — Eu acho que isso vem também historicamente, porque, desde sempre, a mulher preta teve que se virar para lidar com as adversidades da favela, criar filho sozinha, e, com isso, mostrando que é tão capaz ou mais que os homens de realizar as coisas. E essa nova geração de mulheres jovens, comunicadoras, vem reverenciando esse passado.

Ana Muza, do PPG Informativo, concorda, e conta que foi uma mulher negra que a inspirou a criar seu próprio veículo de comunicação. Trabalhando no Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável (Cieds), ela encontrou Carla Siccos, do CDD Acontece, que lhe mostrou seu trabalho. Em seguida, criou seu jornal, e considera a amiga a madrinha dele.

Ana Muza Cipriano, doPPg Informativo Foto: Arquivo Pessoal

— A gente está cansada de ficar silenciada, por sermos pretas, da favela, mães, eu ainda sou lésbica. Não posso ficar calada, me oprimir. Já que eu não caibo eu nenhum lugar (já fui mandada embora de um trabalho por ser lésbica, já fui mandada embora por ter filhos), então vou fazer o meu — conta ela.

Marcela Lisboa, da Agência Naya, também comemora essa presença, mas demonstra preocupação se olha para o lado e não encontra homens negros em alguns espaços, seja a universidade ou os próprios veículos comunitários.

— Não tem como não dizer que eu acho incrível quando eu vejo essas mulheres que caminham comigo, mesmo de outros coletivos, agências, territórios. É muito importante a gente conseguir se reconhecer dentro desses espaços, porque, acho que é a (socióloga e pensadora do feminismo negro) Patricia Hill Collins que fala que nós somos o outro do outro, a antítese da antítese: não somos nem homens, nem brancos. Mas, especificamente também dentro desse lugar, eu entendo que há uma presença massiva de mulheres porque a gente vive num estado de genocídio. Os jovens negros de favela são as principais vítimas do estado. Entendemos que é importante que esses homens estejam conosco e que, muitas vezes, a partir do momento que nós acessamos esses lugares, somos nós que vamos abrir caminho para que eles também estejam — defende.

Para ela, por mais que os coletivos e jornais de favelas sejam importantes, é fundamental que os grandes veículos também contratem profissionais de comunicação das comunidades.

— Por mais que meu trabalho com a Naya tenha essa preocupação de uma produção de publicidade longe de estereótipos, descolonizada, as nossas maiores formas de comunicação, de disseminação de informação ainda vêm pela grande mídia. Quando a gente ocupa minimamente esses espaços, consegue ser uma formiguinha dessa contrarrativa, não só escrita, mas de uma contravisualidade também — argumenta. — O fato de o Eduardo Carvalho, por exemplo, estar na equipe de roteiro do “Segunda chamada” faz com que a minha mãe, que assiste à novela, seja impactada de uma forma diferente. Ainda que viva lá, ela começa a enxergar a favela de outra forma. Que ela se veja de forma diferente pela mídia gera algo que a gente não consegue nem compreender ainda em termos de autoestima dessas pessoas que moram nesses lugares e não veem mais só a faceta de fora para dentro, sempre como o lugar da sujeira, da violência. A gente está conseguindo produzir outras memórias sobre esse locais. Eu acho isso revolucionário, até.

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