Como as escolas de samba nos ensinam sobre ancestralidade

Artigo produzido por Redação de Geledés

Pesquisadores veem criação de escolas de samba como ato político de populações negras; e explicam como ocupação da branquitude têm ameaçado a preservação da manifestação cultural

Desde que foram criadas, escolas de samba têm sido espaços de ensino e aprendizado. Carregam no nome a sua missão: ser escola. Ensinam sobre afeto, aquilombamento, cultura negra, estética, política, ativismo. Basta prestar atenção para aprender também sobre ancestralidade. 

“Se formos buscar as estratégias que estão por trás das histórias das escolas de samba e dos outros grupos de sociabilidade negra, tem muito a ver com a questão do cuidado, do afeto, do aquilombamento”, afirma Tadeu Kaçula sociólogo, sambista e autor do livro Casa Verde: uma pequena África paulistana. 

Tadeu Kaçula / Arquivo Pessoal

Num contexto de pós-abolição e um projeto de nação que rejeitava a presença das populações negras, surgem iniciativas de socialização e resistência desses povos, algumas delas em torno do samba. “Tivemos a genialidade de homens e mulheres, famílias inteiras que perpetuaram sua existência a partir da transmissão [de conhecimento] para os grupos mais jovens”, afirma 

É nesse cenário, no ano de 1914, que é fundado o primeiro grupo carnavalesco negro da cidade de São Paulo: Grupo Carnavalesco da Barra Funda, posteriormente nomeado de Grupo Carnavalesco Camisa Verde. Fundado por Dionísio Barbosa, filho de escravizados, o grupo foi pioneiro em intervenções carnavalescas e periféricas na capital paulista. 

“Ali já uma tentativa de disputar a cidade e de não obedecer essa ordem escravocrata, de supremacia branca. (…) O grupo veio para aquilombar e perpetuar o que foi deixado de herança a partir dos povos das diásporas africanas”, pontua Kaçula. 

É no ano de 1935 que surge de fato a primeira escola de samba em São Paulo; seu nome faz jus ao título de pioneira: Escola de Samba Primeira de São Paulo. Foi fundada no bairro de Perdizes. Anos depois, em 1937, quando teve início a fase ditatorial do governo de Getúlio Vargas, veio ao mundo a escola Lavapés. Criada pela sambista Madrinha Eunice, no bairro da Liberdade, a escola segue em atividade até hoje. 

Dentro desse contexto, podemos entender que a criação das escolas de samba é em si um ato político. “Formar a escola de samba já é uma resistência de ato político. A possibilidade de pensar negros que se organizaram socialmente, coletivamente a partir do pensamento que precisavam ressignificar e mostrar os seus valores. Então, a escola de samba já nasce como um ato político, ela não se dissocia em todo o seu processo histórico”, pontua Cláudia Alexandre, jornalista, doutora em Ciência das Religiões e pesquisadora das escolas de samba paulistanas.

Claudia Alexandre// Foto: Danilo Lima

Assim como não é possível dissociar política de samba, o mesmo vale para a religiosidade, segundo Claudia. “É um grande terreiro a céu aberto. (…) Quanto mais negra a organização carnavalesca, mais você vai ver essa relação com a ancestralidade, mais você vai ver  experiências comuns, históricas e culturais negras sendo manifestadas na forma de conduzir essas agremiações”. 

Desde a forma como a agremiação é gerida até os enredos escolhidos para desfilar no carnaval, é possível ver a união entre estética e política dentro dessa manifestação cultural. O canto, a dança, as letras, o ritmo dos instrumentos; tudo se junta e vira um espetáculo que cria imaginários de vida para a população negra, cria possibilidades de futuro e faz referências ao passado. 

Tadeu Kaçula,

Ele explica: “a população que se organiza em torno das escolas de samba, está fazendo um movimento importante de preservação da memória, da cultura, da oralidade, de disputar esse espaço e também tem a escola de samba como um lugar que vai projetar para grande massa a história da população negra que os livros não contam, que a mídia hegemônica não conta”. 

Para quem acha que o samba deve ser enquadrado na caixinha de “entretenimento”, o pesquisador trás o argumento: “o samba, cosmologicamente falando, não é um gênero musical, mas um conjunto de fatores que implicam no samba ser um lugar também de identidade, de filosofia, de disputa de narrativas”. 

Branquitude ameaça manutenção das tradições negras do samba 

Os desfiles de escolas de samba acontecem nas ruas paulistas desde a década de 1930, mas a oficialização do carnaval na cidade ocorreu no ano de 1968. A decisão veio do então prefeito José Vicente Faria Lima, que prometeu premiações para troféus para as melhores fantasias e blocos. A escola vencedora do primeiro desfile oficial foi Nenê de Vila Matilde, com enredo sobre Castro Alves, poeta abolicionista. 

“Até então, não havia dinheiro público financiando o carnaval. Quando a prefeitura começa a dar subvenção pública, o carnaval começa a ser organizado, esse dinheiro começa a girar em torno da população preta, que eram 100% das escolas de samba”, pontua Tadeu Kaçula. Mas o dinheiro não permaneceu por muito tempo na mão da população negra, conforme explica o pesquisador, “há um ‘boom’ de fundação de escolas de samba não negras”. 

De lá pra cá, houve uma ocupação de pessoas brancas em posições de decisão nas escolas de samba, e por consequência, com influência sobre o orçamento que gira em torno dessa manifestação. Das 14 agremiações que fazem parte do Grupo Especial de São Paulo atualmente, apenas três tem presidentes negros. A maioria é de homens brancos e não há nenhuma mulher negra nessa posição. 

Somente no carnaval de 2023, houve movimentação de R$ 2,9 bilhões na economia da cidade, segundo dados da prefeitura. Com a forte inserção da branquitude nesse circuito, as personalidades que de fato mantêm viva essa manifestação ficam de fora dessa conta. 

O problema não se restringe à questão econômica, mas à manutenção da tradição das escolas de samba. “Quando a branquitude ocupa espaços ela rompe com fundamentos e tradições, ela rompe com toda aquela cosmologia que foi colocada ali”, explica Tadeu. 

Claudia Alexandre frisa que a questão não está nas pessoas brancas em si, mas na lógica de apagamento gerada pela branquitude. “Enquanto presidentes brancos estiverem liderando seja terreiros, escolas de samba ou qualquer outra manifestação da cultura negra, ele tem que ajudar a defender, preservar e manter o discurso da origem, das raízes e das heranças. Então, não é sobre corpos brancos, é sobre mentalidades racistas liderando as nossas manifestações “, diz. 

A presença de mentalidades racistas nas agremiações ficou evidente quando no Carnaval 2023, o presidente da X-9 Paulistana, mestre Adamastor, protagonizou uma fala racista. Pediu para membros da escola fecharem os punhos e levantarem os braços, numa expressão que representa a resistência negra. Depois, perguntou se sabiam o significado daquilo e completou que não representava “porra nenhuma”. 

Na ocasião, o Observatório de Combate ao Racismo no Carnaval de São Paulo, do qual Claudia faz parte, enviou uma carta de repúdio à Liga das Escolas de Samba, além de cobrar penalizações. 

Claudia Alexandre

Assim como o passado, o futuro do samba (e do Brasil) será preto 

Personalidades e organizações negras do samba tem se movimentado para reagir à ocupação da branquitude no meio. Um exemplo disso foi a realização da primeira edição do Congresso Unisamba, que durante quatro dias, em novembro de 2023, debateu questões sobre presença feminina, mídia e poder econômico nas escolas de samba. 

“Não é fácil, estamos falando de luta antirracista a partir do povo preto, então a gente sabe que vai ter resistência, mas nós já conseguimos dialogar” conta Claudia Alexandre, que foi uma das curadoras do congresso. 

Tadeu Kaçula olha para o futuro com otimismo. Após conversas com outros pesquisadores, chegou a convicção de que “o futuro do Brasil é preto”. “Nós estamos galgando e conseguindo ocupar alguns espaços, e criando cognitivamente as nossas estratégias, a nossa existência e resistências, e criando estratégias importantes de ocupar espaços que são transformadores”, afirma. 

E finaliza: “não vai levar muito tempo para a população preta fazer essa reintegração de posse, para que a gente tenha também condições de administrar muito bem esses bilhões que giram em torno dessas nossa cosmologias culturais e fazer com que de fato daqui pouco tempo a gente consiga antecipar esse futuro do Brasil, que sem sombra de dúvida será preto”. 


Este conteúdo faz parte do projeto de conclusão no Curso de Multimídia, desenvolvido pelo programa de comunicação, de Geledés Instituto da Mulher Negra

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