“como mulher negra, o título ‘Morena’ intencionalmente dilui minha visível identidade racial.”

Embora algumas expressões do racismo antinegro brasileiro sejam impossíveis de esconder, essas agressões abertas eram familiares para mim como uma mulher negra estadunidense que mora no exterior. Minhas experiências mais confusas com o racismo cotidiano no Brasil foram terrivelmente sutis. Embora pretendam se referir amigavelmente a mim como indivíduo, tais declarações e ações reforçam estruturas opressivas racistas, classistas, sexistas e imperialistas que impactam negativamente a comunidade negra globalmente.

Enquanto morava no Brasil, escolhi residir em áreas metropolitanas, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Brasília. O que posso dizer? Eu amo viver na cidade e cada local tem suas próprias características e distinção. Avenida Paulista em SP, Botafogo no RJ, Rio Vermelho na Bahia e outros bairros turísticos que costumam receber estrangeiros eram os lugares onde novos conhecidos me convidaram para sair. Devido ao meu status de estrangeira e origem dos Estados Unidos, presumia-se que eu me sentiria mais confortável nesses territórios, embora esses lugares tendessem a ser ricos e brancos. O ar nesses locais era desconfortavelmente denso com o elitismo racista. Apesar da atmosfera, ocasionalmente alguém puxava conversa comigo enquanto estava sentada em um café, jantando em um restaurante ou folheando obras em uma livraria.

Ao revelar minha nacionalidade, os novos conhecidos sempre davam um apelido para sinalizar proximidade, como muitos brasileiros fazem. O nome mais comum era “morena”. Minha relação com a raça no Brasil foi complicada devido ao meu status de estrangeira dos EUA. Como mulher negra, o título “morena” intencionalmente dilui minha visível identidade racial. O termo é usado como um amortecedor de distância da escuridão para não me ofender. Em contraste, meus amigos negros brasileiros carinhosamente se referiam a mim como “nega” e isso parecia um abraço completo. A distinção “morena” é aparentemente inócua em sua intenção. No meu caso, ela assume uma orientação de classe alta e um status elevado. A mensagem implícita é o seguinte: vejo claramente que você é negra, mas como uma negra americana educada e chique, você é diferente e melhor do que esses outros negros depravados. Veja bem, isso é uma referência à mesma comunidade negra brasileira que me acolheu. Não importa o quão benigno ou charmoso possa parecer superficialmente, isso é racismo antinegro.

Na intersecção do desprezo racial e de gênero e as vantagens da nacionalidade dos EUA e do status de classe percebido, minha experiência com o racismo antinegro brasileiro assumiu uma forma bem específica. A aceitação provisória que experimentei nos espaços brancos brasileiros foi um privilégio especial não concedido à maioria dos negros brasileiros. Para alguns estrangeiros negros, essa aprovação condicional pode ser tentadora, mas eu tenho uma profunda empatia com a situação do povo negro brasileiro, da qual fui testemunha diariamente. Também entendo muito bem a fragilidade dos privilégios concedidos pela branquitude. Independentemente do passaporte que possuo e da certa proximidade que a branquitude me oferece, eu sabia que isso poderia ser revogado a qualquer momento. Eu estava apenas a um passo de um comentário desfavorável ou discordância para ser rebaixada ao meu lugar inferior legítimo.

Eu me vejo como membra da comunidade negra e meu parentesco está fortemente alinhado com essa identidade diaspórica e transnacional. Qualquer convite à bajulação que oprime obliquamente outros negros, eu rejeito. Eu não quero um lugar naquela mesa.

 

A campanha “13 de Maio: Comemorar o quê?” é uma iniciativa de colaboração entre US Network for Democracy in Brazil, Geledés Instituto da Mulher Negra e Afro-Brazilian Alliance (ABA) e tem como objetivo reafirmar a data da abolição da escravatura no Brasil como Dia Nacional de Luta contra o Racismo, como demarcado pelo movimento negro, já que a Lei Áurea não garantiu o pleno acesso aos direitos e à igualdade para a população negra – a qual vem enfrentando profundas desigualdades desde então.

Jaira J. Harrington é PhD em Ciências Políticas pela Universidade de Chicago e Professora Assistente de Black Studies na University de Illinois. Sua pesquisa sobre trabalho doméstico no Brasil dá centralidade ao impacto político da organização de mulheres negras marginalizadas em luta por seus direitos frente às dificuldades que parecem intransponíveis.

 

 

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