Congada 13 de maio: quarenta anos de história, tradição e fé

Ceiça Ferreira
Mais uma vez os tambores das congadas se unem para louvar Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia, revelando a força dessa tradição que já existe há mais de sessenta anos em Goiânia, resiste as transformações do tempo e é passada as novas gerações com beleza, ritmo e alegria.
E assim, fundada há quarenta anos por Onofre Costa dos Santos é que a Congada Irmandade 13 de maio festeja a fé e a devoção aos santos católicos, e expressa a capacidade de resistência da cultura afro brasileira em mais uma festa que reúne filhos e amigos no Jardim Liberdade, onde desde o dia 28 de abril estão sendo realizadas novenas, e neste sábado (07 de maio), a partir das 18 horas terá um dos seus momentos mais importantes, a procissão e o levantamento do mastro e bandeira dessa irmandade.
No domingo, na Igreja Matriz de Campinas, a congada 13 de maio se reúne com outros grupos de Goiânia e também de outras cidades, e sob o ritmo da caixa de congo fazem, renovam essa tradição cultural e religiosa, que toma as ruas da capital nesse grande espetáculo de música, cores e dança, por meio da qual congadeiros e congadeiras superam as dificuldades e exprimem com orgulho seus valores e sua fé.
Ao entoar seus cantos alegres, mostrar sua colorida e rica indumentária, os reis, rainhas, princesas, capitães, caixeiros e caixeiras, todas essas pessoas que fazem a congada celebram nesse rito sua história, e mantém viva a cultura afro brasileira, pois foi pelo ritmo e por essa maneira peculiar de lidar com o sagrado,  na qual a festa tem um lugar central é que a história de nossos ancestrais atravessou o atlântico. E mesmo tornados escravos, esses povos guerreiros foram capazes  de reconstruir sua cultura e religiosidade, na qual os tambores criam os laços entre presente e passado, entres deuses e mortais, entre  vivos e antepassados,  e assim cultivaram essa memória coletiva de origem africana, aqui reinventada de corpo, alma, beleza e mistérios, por todos esses homens e mulheres negras.

Tudo isso só é possível, graças ao trabalho dos anciãos, que passam aos mais novos seus princípios e sua sabedoria de vida. Por tal razão, é que a Congada 13 de Maio reverencia novamente os negros griôs congadeiros. A palavra “griô”, que deriva do francês “griot” refere-se aos contadores de histórias da África Ocidental, homens que usando a força da palavra mantinham a memória e a História de seu povo. Aqui no Brasil, também nossos mestres da cultura afro brasileira são griôs, pois pela oralidade preservam e ao mesmo tempo transmitem por meio da experiência, os valores dessa cosmovisão de matriz africana, visto que nessas comunidades tradicionais o aprendizado pressupõe a vivência, o convívio com esses mais velhos, dos quais se ouve, e com os quais se aprende fazendo, por tal razão é que pensador malinês Amadou Hampatê Bâ afirma que a tradição oral é a grande escola da vida, pois fundada na iniciação e na experiência, ela conduz o homem à totalidade. Por isso, na tradição africana a fala é considerada um dom de Deus.
E é através dessa reconstituição constante do rito, dessa festa realizada a cada ano que essa memória se reafirma, pois não se trata de meramente recordar o passado, mas de trazê-lo para o presente, vivenciá-lo e fazê-lo vivo e pulsante, como destaca um dos cantos da congada que diz:
“13 de maio é um dia muito bonito”
“A congada se reúne para festejá São Benedito“
“Vem a rainha com a bandeira na mão, rezá para Santa Isabel que deu a libertação”;
“13 de maio é um dia muito bonito”
“A congada se reúne para festejá São Benedito“
“Á meia noite a festa vai terminando, eles beijam a bandeira, pra voltar no outro ano…”

Dessa forma, os mestres congadeiros e outros mestres griôs são depositários do saber, do patrimônio cultural material e imaterial que é a tradição afro brasileira, tão repleta de sons, cores, movimentos, valores e ritos, com a qual  nossos antepassados  recriaram laços simbólicos de parentesco com as origens africanas; e mesmo em um ambiente adverso foram capazes de reconstituir sua humanidade, sua alegria de viver. E é esse mesmo patrimônio que hoje resiste às condições de desigualdade que ainda predominam sobre a população negra no Brasil, mesmo 123 anos após a abolição da escravatura, e se mostra forte, digno de orgulho de um povo que cotidianamente tem que a enfrentar a dor, o racismo e a invisibilidade, e só consegue isso porque demonstra uma capacidade extraordinária de criar, de ressignificar, de se manter vivo.
Histórico
A história da Congada Irmandade 13 de maio começa quando seu Onofre Costa dos Santos tinha 10 anos e saiu da casa de sua mãe, na cidade de Nova Aurora (GO) em busca de melhores condições de vida. Passados alguns anos sem contato com a família, sua mãe faz uma promessa para Nossa Senhora do Rosário pedindo a volta do filho.
Seu Onofre sentiu saudades e voltou para Nova Aurora, e ao encontrar a mãe, muito feliz com seu retorno, ela avisa que ele teria que dançar Congado, como pagamento da promessa feita à Nossa Senhora. Assim, em devoção à santa, seu Onofre começou tocando cavaquinho, passou a tocador de caixa de congo e anos depois tornou-se Capitão de um terno, nome dado a grupo de congada.
Juntamente com sua esposa Dona Maria de Lourdes Sousa Santos e os filhos ainda pequenos, fundou em 08 de maio de 1971, a Congada Irmandade 13 de maio. No mesmo dia, nasceu mais uma filha do casal, Valéria Eurípedes Sousa dos Santos, atualmente a presidente da congada, essa grande família que une filhos, netos e vários parentes e amigos pela continuidade dessa tradição religiosa e importante manifestação cultural afro brasileira.
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Festa da Congada Irmandade 13 de maio
Local: Rua VMA-03 qd. 53 lt.14 – Jardim Liberdade, Goiânia- Goiás
Contato: Valéria da Congada (Presidente da Irmandade)
(62) 9988-7858/ (62) 3593-0732 
Programação
29/04 a 07/05 – Realização das Novenas
07/05 – Procissão de Levantamento do Mastro e Bandeira e última novena
08/05 – Apresentação das Congadas na Igreja Matriz de Campinas

Fotos: Mário Souza e Dalton Paula
Referência bibliográfica:
BÂ, Amadou Hampaté. “A tradição viva”. In: História Geral da África I. Metodologia e Pré-história da África. Trad.: Beatriz Turquetti et alii. São Paulo: Ática, 1982, p.181-218.

Fonte: Colofé

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