quarta-feira, novembro 30, 2022
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Crianças negras e a liberdade para sonhar

Maternidade e paternidade estão entre as maiores e mais intensas aventuras que um adulto pode encarar. Ainda na gestação, convivemos com alegrias, dúvidas e preocupações. Exames, preparativos, escolhas de nomes e tantas outras coisas que qualquer mãe e pai irão ter pela frente, não se comparam às perguntas que martelam na mente e no coração, quando se trata de trazer ao mundo uma criança negra… 

Como será a vida do/a nosso/a filho/a? Será melhor que a nossa? Será que ele/a vai passar pelo que passamos? Como garantir uma vida plena apesar do racismo? 

A falta de representatividade em produtos voltados aos cuidados com gestantes e bebês, os índices desiguais de violência obstétrica – muito maiores quando se trata de mães negras – e de mortalidade de nascituros não brancos evidenciam que, ao longo de toda essa nova vida, será preciso lidar com questões raciais. 

Enquanto mães, pais e responsáveis, quando a vida de uma criança negra é interrompida – de forma violenta e intencional ou por descaso de quem deveria prestar atendimento e proteger -, nos sentimos vulneráveis e suscetíveis ao mesmo fim, o que pode tirar nossas forças e até mesmo adoecer.

O ano de 2020 tem nos mostrado que gerar ou adotar uma criança negra é um exercício de resistência e de persistência. Diante de tantas violações a nossas liberdades e de exemplos destrutivos, devemos optar a cada dia por formar seres humanos conscientes do racismo e, ao mesmo tempo, livres para fazer planos e sonhar. 

Para isso, o autocuidado é fundamental. Só conseguiremos transmitir a eles aquilo de que estamos cheios, portanto, preservar nossa saúde física, mental e emocional pode ser lido como um ato de amor a nossos/as filhos/as. Atos simples como descansar, ler, se exercitar, buscar conexão com a espiritualidade, preparar uma refeição de que se gosta tem um efeito positivo para nós e, em consequência, para ele/as. 

Também devemos fiscalizar e, se possível, escolher com atenção o ambiente de ensino, local onde eles/as passarão boa parte da vida. Além de reprimir atos racistas e conscientizar, uma escola antirracista deve estar preocupada em promover a diversidade e inclusão, deve preparar profissionais comprometidos e ter ações que promovam o conhecimento da história de África e da negritude brasileira.  

Nossas crianças, assim como todas as outras, devem assistir desenhos e filmes com temática e representatividade negra e africana. Também é bom ter por regra utilizar profissionais negros: cabelereiro/as, médico/as, personal trainers, advogado/as – estamos por aí e seremos ótimo/as referenciais para o/as pequeno/as. Se a grana é curta, podemos nos valer do ambiente virtual para divertir, ilustrar e ensinar. 

Ainda que o mundo nos diga ao contrário, criaremos meninas e meninos humanos. Não lhes negaremos o direito à esperança, queremos crianças que saibam seu valor e, acima de tudo, o valor de seus afetos. 

Como escreveu Bell Hooks em Vivendo de Amor: “ O poder do amor é possibilitar enxergar o passado com outros olhos, transformar o presente e sonhar com o futuro”. Crianças trazem leveza a nossas vidas e nos permitem a experiência do amor de uma forma incondicional, o que é transformador. 

Elogie o cabelo, os traços, a cor da pele, a personalidade e a inteligência dos/as pequenos/as. Afirmar e valorizar a identidade negra gera empoderamento e orgulho do que somos. Olhe nos olhos do(a) seu/sua filho(a), sinta todo amor e lhe diga que o(a) ama. O amor cura! 

¹Advogada. Mestranda em Direito Político e Econômico (Universidade Presbiteriana Mackenzie). Membro da Comissão de Igualdade Racial da OAB/SP. Membro do coletivo de advogadas Dororidade Jurídica. Colaboradora voluntária do Projeto Incluir Direito da USP. Professora no curso Jornada de formação antirracista (@formacao_antirracista).

²Sociólogo e Antropólogo formado da USP. Pesquisador das relações raciais brasileiras. Cofundador do coletivo Quilombo Novas Histórias. Professor no curso Jornada de formação antirracista e sócio -fundador e palestrante na empresa @formacao_antirracista.

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 
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