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Cultura Hip-Hop como ferramenta de afirmação e resistência

Cultura Hip-Hop como ferramenta de afirmação e resistência

Ações comunitárias como o Baile Pelo Certo desempenham um importante papel no contexto da resistência negra e periférica no Recôncavo.

Por Jamile da Silva Novaes para o Portal Geledés 

Em 2011 foi criado o Cineclube Comunitário do Povo – o Cine do Povo – como uma ação permanente do Núcleo de Negras e Negros Estudantes da UFRB (Núcleo Akofena) na comunidade do Viradouro. Assim como outros bairros periféricos da cidade de Cachoeira, o Viradouro é conhecido por ser uma região marginalizada, marcada pelos conflitos gerados política de “guerra às drogas”. Dessa forma, o Cine do Povo se instala estrategicamente, trazendo exibições de cinema e promovendo atividades de formação voltadas para a educação comunitária, Cultura Hip-Hop e cinema.

Após uma pausa de um ano, em 2014 o Cine do Povo retorna às suas atividades por uma demanda da comunidade do Viradouro, e acaba se expandindo, tornando-se uma rede de autodefesa comunitária. “Atualmente o Cineclube é articulado por uma rede ampla de artistas locais, militantes do movimento negro, lideranças comunitárias, educadores populares e apoiadores autônomos”, explica uma das articuladoras.

Em 2016, o Cine do Povo lança mais uma de suas ações comunitárias, o Baile Pelo Certo, que nasce com o objetivo de fortalecer a cena cultural underground do Recôncavo, enquanto funciona como canal de arrecadação de fundos para a realização das ações permanentes do cineclube nas áreas periféricas da cidade.

O evento acontece no espaço Escombros 777, localizado na Rua 7 de Setembro, conhecida popularmente como “Rua do Brega”, por abrigar, há mais de 150 anos, os prostíbulos da cidade. Apesar de estar localizada no centro da cidade, a Rua do Brega carrega um estigma e é constantemente alvo de ações de repressão policial. “Tal criminalização não é um processo novo, seja no contexto da relação do Estado com as populações negras, ou mesmo, do ponto de vista da cidade de cachoeira, que como já documentou historiadores baianos, é conhecida por repressões brutais contra a população negra em áreas urbanas e rurais .”,  contextualiza Fred Aganju, professor de História e um dos articuladores do Cine do Povo.

Realizado de forma paralela a outros eventos que compõem a cena cultural de Cachoeira, o Baile Pelo Certo reúne artistas locais, do interior e da capital baiana, ligados à Cultura Hip-Hop, ao sound system, ragga, reggae e funk, como, Az Piveta das Área, Jahsco M2, Us Pior Da Turma, Dois Ás, Mano Link, Roça Sound, Na Tora Baile System e outros. Um ano após a estreia, já foram realizadas sete edições.

Além de seu cunho cultural, o evento se estabelece como uma ação de afirmação e resistência da população negra e periférica no território do Recôncavo baiano, que se evidencia desde o local de realização – visto que a Rua do Brega é um dos pontos mais marginalizados da cidade -, até no discurso e na atuação política dos grupos e artistas que se apresentam. Jahsco M2, integrante do coletivo M2 (Mente Malokera), conta que sua música é feita “pro gueto, favela, periferia, becos e vielas”

O coletivo M2 também realiza atividades comunitárias na cidade de Cruz das Almas, com foco no acesso à cultura. “Chega fim de semana e o que tem pra gente são os bares. Acabam empurrando a gente para os bares e a gente vê muitos jovens com problemas com álcool, problema com drogas. Então a gente trabalha com projetos sociais. Quando chega o fim de semana a gente leva um pouco de cultura, faz uma roda de rima, tenta atrair a galera que faz poesias e tal. Trabalhamos com oficinas de grafite nas comunidades, oficina de rima. Então é um lance pra unir a comunidade através do movimento Hip-Hop”, explica Jahsco M2.

O Recôncavo Baiano, mais precisamente Cachoeira, é um território marcado pela luta e resistência da população negra. Organizações como a Irmandade da Boa Morte (confraria religiosa composta exclusivamente por mulheres negras, que comprava cartas de alforria para negros escravizados), as comunidades quilombolas e os mais de 80 terreiros de candomblé ativos em Cachoeira e sua vizinha São Félix são importantes referências em termos de estratégias de permanência negra na Diáspora. A Cultura Hip-Hop se apresenta nesse contexto como mais uma ferramenta, frente à realidade da criminalização e genocídio da população negra que vem sendo promovido em âmbito local e nacional. Como afirma um dos organizadores do evento:

O interior da Bahia é uma região quente e encharcada de sangue negro; uma terra hostil onde os negros são caçados, capturados e abatidos como cães e nos últimos anos os índices de homicídios tem aumentado de maneira exponencial no interior da Bahia e atingido de sobremaneira os jovens homens negros. Cachoeira por exemplo, apenas esse ano, já teve contabilizado 19 assassinatos, 16 homens negros e 3 mulheres negras, em ambos os casos, em situações de morte violentas. O Hip-Hop tem muito a dizer sobre essa realidade e, mais que isso, é uma cultura essencialmente organizativa, no sentido que não propõe apenas a denúncia, mas também, soluções reais. No nosso caso, estamos apostando que o Hip-Hop salva vidas, que um mic pode fascinar tanto quanto uma peça (arma) e que um grafite tem mais potência bélica que uma rajada. Como diria Steve Biko ‘estamos por nossa própria conta’ e se é desse jeito, vamos cuidar de nós mesmos; o Povo Preto.”

O Cine do Povo, através de suas ações de caráter comunitário e colaborativo, atua nas zonas periféricas de Cachoeira suprindo necessidades que são negligenciadas pelo Estado, como o acesso à cultura, informação e formação política, aspectos de grande importância para a permanência e emancipação das comunidades negras e periféricas.

 

 

 

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