segunda-feira, novembro 28, 2022
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Danny Glover: De Hollywood para o Xambá

Como num filme de situações improváveis e interessantes, o ator norte-americano Danny Glover visitou o terreiro Nação Xambá, na periferia de Olinda. Foi na noite da última sexta-feira, onde pode conhecer a história do local, um dos poucos quilombos urbanos do país.

Danny Glover chegou ao Xambá por volta das 20h, ao lado de sua esposa Eliane Cavalleiro, que é presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros. Recém-casados, Glover e Cavalleiro foram recebidos pelo babalorixá Adeildo Paraíso da Silva (Ivo de Xambá) e a yalorixá Maria de Lourdes da Silva, a Tia Lourdes. Antes de entrar na casa, fez reverências de respeito e adentrou o terreiro, onde ouviu toques para Iansã e Oxum. Na sequência, subiu para o primeiro andar, onde visitou um memorial de cultura negra, com ênfase para a história do local. Logo após, por cerca de uma hora, Glover falou sobre a importância do engajamento social para comunidades negras.De férias em Pernambuco, onde passou a última semana, ele discretamente quebrou o anonimato para prestigiar o encontro promovido por lideranças negras da cidade. Após atuar em Hollywood por décadas, o famoso ator facilmente reconhecido como parceiro de Mel Gibson em Máquina mortífera e Maverick foi recebido com sobriedade por cerca de 60 artistas e representantes da cultura negra da cidade.

“É importante motivar instituições como esta. Quando Dona Biu fundou esta casa, ela sabia que existe algo superior para procurar. Lembrando ela, podemos descobrir novas maneiras de ser uma comunidade”, disse Glover. Embaixador do Unicef, sua carreira inclui papéis que remetem a preocupação social. Nesse sentido, seu personagem mais emblemático é o de Albert, em A cor púrpura (1985), de Steven Spielberg. Ainda nos anos 80, interpretou Mandela para a TV e no ano passado encarnou um presidente humanista no blockbuster 2012. Não participou da festa do Oscar na noite de domingo, mas enviou uma carta convocando seus colegas atores a boicotar roupas da Hugo Boss, que ameaça fecharfábrica nos EUA para investir em unidades na Europa Oriental.

Na mesa onde falou, Glover recebeu presentes e lembranças: CDs dos rappers Zé Brown e Tiger, parceiros no Faces do Subúrbio; o DVD Cine Favela, do projeto Pé no Chão, do qual participa o DJ Big; o livro Baobás de Ipojuca, da escritora Inaldete Pinheiro; o CD do Grupo Korin Orishá, regido pelo professor José Amaro, do departamento de música da UFPE. Representando a prefeitura do Recife, Lindivaldo Júnior preparou um kit que incluiu CDs do carnaval e produtos do Núcleo de Cultura Afro-Brasileira.

“Foi algo exclusivo, um ator de filmes internacionais num centro de representação espiritual negra, ouvir nossa música, experimentar da nossa comida. Pela história que o centro tem, essa visita dele vai passar de geração em geração. Seria bom que outros como ele pudessem vir”, disse Zé Brown. Percussionista da Nação Zumbi, Gilmar Bolla 8 também estava lá. “Esse é um momento especial para a comunidade negra. E para ele também, que vai lembrar da visita pelo material que recebeu aqui”.

Vera Baroni, da Sociedade das Mulheres Negras de Pernambuco, entregou ao ator uma resolução publicada no Diário Oficial, em que um site mantido por igreja evangélica foi punido por discriminação religiosa. De formação cristã, Glover ganhou uma guia de Xangô, “pela luta”, nas palavras de Ivo de Xambá. “A visita de um ator como ele é um incentivo para que se abram portas internacionais num recorte que não diz respeito apenas à religião, mas ao lugar do negro na sociedade”, disse Ivo.

Determinada a extrair o máximo do encontro, Inaldete Pinheiro provocou discussão sobre o fato de negros ricos dos EUA agirem como mobilizadores dos pobres, enquanto no Brasil passam pelo processo de “embranquecimento”. Formado em economia, Glover repassou episódios importantes para a afirmação negra nos EUA e questionou o sentido de palavras como liberdade, independência e autonomia. “Na América do Sul há 150 milhões de afrodesendentes e 97% vivem na pobreza, a maioria no Brasil. Vejo que a luta do povo americano acontece aqui também, para que os negros tenham vida melhor. Em alguns países, talvez por motivos políticos esses sonhos não se realizem, mas ao menos o desejo de liberdade está na alma do povo. Precisamos passar essa resistência para as novas gerações”.


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