50 anos de Sabotage: Projeto celebra rapper ‘a frente do tempo e fora da curva’

Com direção musical assinada por Tejo Damasceno e Zegon, o projeto surgiu de uma ideia de Tamires Rocha e Wanderson dos Santos, filhos do rapper

Um dos maiores nomes no hip hop nacional, Sabotage — como era conhecido Mauro Mateus dos Santos — completaria 50 anos no ano passado. Coincidentemente no mesmo ano em que o gênero ao qual ele dedicou sua breve carreira também completou meio século de existência.

Inesquecível, Sabotage provavelmente seria um dos artistas mais ativos se estivesse vivo nos dias de hoje — pelo menos é o que pensam os filhos. Tamires Rocha e Wanderson dos Santos, ou Tami e Sabotinha, são os idealizadores do projeto Sabotage 50 (2024). Lançado em abril, o álbum traz releituras de nove faixas do artista nas vozes de outros músicos.

Em entrevista a Rolling Stone Brasil eles contam que a ideia de fazer o projeto não é recente. “Sempre tivemos a ideia trazer a velha escola e misturar com a nova. O Sabotage influenciou esses artistas que estão no CD. São artistas que são fãs dele,” conta Tami.

Os irmãos acompanharam o desenvolvimento do álbum, apesar de não estarem nos estúdios. Todo o processo passou por eles, que se mostram orgulhosos da construção do disco. Sabotinha fala emocionado das mensagens de fãs e dos compartilhamentos da obra pelos admiradores. “Ele não está aqui mais para fazer som, mas nós estamos mantendo o legado com os fãs.”

Foto: @brunogordiho

Para os filhos, levar adiante o trabalho do pai é uma responsabilidade. Mas eles entendem que  os fãs têm um papel fundamental nesse movimento. Ouvindo e falando sobre o trabalho e a importância dele para o hip hop brasileiro.

“Manter o legado do Sabotage é manter ele vivo e tudo aquilo que ele fazia e plantou,” conta Tami. Os irmãos têm um contato relativamente próximo com os fãs do pai, especialmente pelas redes sociais. Mas sempre que podem, se fazem presentes em escolas, faculdades e palestras para falar sobre o rapper. 

Para entregar um projeto à altura do rapper, os dois chamaram duas pessoas que conheciam Sabotage, como artista e pessoalmente. Tejo Damasceno e Zé Gonzales, o Zegon — que trabalharam juntos em outras obras do artista — assinam a direção musical. “Eles tiveram essa ideia e me convidaram,” relembra Tejo que trouxe o parceiro por um motivo especial.

Eu já tinha feito o disco póstumo intitulado Sabotage (2016) que é um de inéditas,com o [DanielGanjaman e o Rick Amabis, que eram do Instituto comigo e dessa vez eu mudei para o  porque ele foi o princípio de tudo na nossa vida com o Sabotage

Em 1999, Zegon foi convidado por Mano Brown para produzir Rap É Compromisso (2000), primeiro álbum do rapper. À época ele chamou Tejo e Ganjaman para atuarem com ele no projeto. Portanto, nada mais justo que a primeira pessoa envolvida no universo do Sabotage estivesse incluída no novo disco.

Zegon relembra o convite com carinho. Para ele, voltar ao universo de Sabotage sempre é especial. “É difícil explicar, mas é muito louco, porque sentimos muito a presença, principalmente ouvindo a voz em a cappella,” explica. Desde o começo, durante a produção do primeiro álbum do rapper, todos em volta sabiam que se tratava de algo muito especial.

A liberdade que o Sabotage tinha como MC, sem nenhuma barreira era muito ‘ do rap nacional da época.

O amigo relembra do rapper como um amante da música. “Ele era livre. Não pesquisava música, eu acho, mas ele curtia coisas esquisitas e diferentes,” diz Zegon. Eclético, o artista chegou a acompanhar  na produção de uma faixa do Sepultura.

Participações mais que especiais

Tejo explica que o artista era muito ativo em todo o processo criativo das músicas e, por isso, a seleção de convidados para o disco póstumo foram escolhidos artistas com quem o artista trabalhou, ou tinha algum vínculo de amizade. Já para o álbum de 50 anos, a ideia foi buscar “pessoas que nunca trabalharam com ele, independentemente da geração.” 

Eles também trouxeram amigos de Sabotage que nunca trabalharam com ele. Um exemplo disso são os rappers Kamau — que abre o disco com a faixa “Respeito É Lei” — e Xis, que está na nova versão de “No Brooklin.” “Eles eram amigos dele, o Xis foi citado por mais de uma vez em letras do Sabotage e eles, sim, teriam trabalhado juntos, se ele estivesse vivo,” diz Tejo.

“Algumas pessoas foram convidadas e, com o passar do tempo, foram perdendo a coragem,” revela Zegon. “Devem ter tentado escrever, e pensaram ‘não tenho coragem de mexer.'” Houve também quem tenha negado o convite por considerar o material do artista “sagrado.”

Alguns nomes também ficaram de fora por questões logísticas e de prazo. O álbum foi lançado no dia do aniversário do artista e esse era um fator importante, especialmente para os filhos. “Tivemos que trocar algumas pessoas de uma faixa para outra, deixar uma faixa de fora,” conta Zegon.

Foto: @brunogordiho

Músicos de gerações mais novas também foram considerados e trazidos para o projeto – alguns ainda eram crianças quando o rapper foi morto no ano de 2003. Entre esses nomes temos Rincon SapiênciaDon LSant e N.I.N.A, que estão nas canções “Mun Rá“, “Dama Tereza“, “Rap É Compromisso” e “Respeito É Pra Quem Tem“, respectivamente. 

Outros artistas de outros gêneros também estão no disco. É o caso, por exemplo, de Luedji Luna, que também está em “Dama Tereza.” A cantora foi convidada por Don L que, após receber uma música para integrar o projeto, sentiu que não estava rolando. “Processo normal de criação,” explica Tejo. Em contrapartida, o rapper teve a ideia de fazer uma releitura da canção com roupagem de reggae. 

Essa era uma música que o Sabotage gravou com a gente para o disco do Instituto, comigo, com o Ganja e com o Rick. Era um samba rap e ele [Don L] quis fazer um samba reggae. Ele compôs, e quando acabou, disse que gostaria de uma voz junto. Eu trouxe à tona a Luedji,  faltava essa participação.

A cantora foi a última participação do disco. A convite de Nave, produtor da faixa, “ela gravou aos 45 do segundo tempo,” relembra Tejo. “É bacana lembrar que aconteceu a mesma história com ‘Dama’Tereza‘ na versão original. O álbum do Instituto estava pronto e o Sabotage rimou para mim uma novidade. ‘Olha isso aqui’ e começou a rimar,” conta o diretor artístico.

A partir disso eles decidiram fazer um samba em cima da ideia do rapper. O beat foi feito na hora. Na versão original o coro musical foi feito pela cantora Céu. “Ela ainda não era a cantora Céu, era uma amiga da gente começando a carreira.” E assim nasceu a maior música de Coleção Nacional (2004).

Tejo ressalta também que os artistas convidados para participar de Sabotage 50 tiveram total liberdade para trazer suas identidades para o álbum. “Tanta liberdade que até teve troca de faixa,” conta. Ele e Zegon tiveram o trabalho de unir esse “quebra-cabeça” e deixar o projeto coeso.

“O Djonga escolheu a faixa e disse ‘Eu não quero gravar nada novo,’ ele quis regravar ‘Cantando Pro Santo‘ junto com o [FilipeRet, como se a gente fosse o Chorão e o Sabotage” relembra. Outros artistas trouxeram novas letras, melodias e roupagens, sempre de acordo com o direcionamento dos artistas. 

Pelo fato do rapper não ter um material vasto — Rap é CompromissoSabotage, a trilha de O Invasor (2001), parcerias com o Instituto e algumas colaborações — a escolha do repertório acabou não sendo o maior dos desafios do projeto. Uma lista feita por Tami e Sabotinha também foi considerada pelos diretores.

“Evitamos músicas que já tinham sido regravadas, eu mesmo produzi a regravação da Karol Conká de ‘Cabeça de Nego,’ o Hariel já tinha feito um trabalho assim,” explica Tejo. O Mc lançou “Monstro Invisível” em 2020. Essas músicas foram sendo eliminadas para trazer algum ineditismo para o projeto.

Sabotage (Foto: DIvulgação)

Há fãs que se incomodam com novas versões de trabalhos do artista. Para eles, os produtores que trabalham com Sabotage desde a primeira gravação ressaltam que as versões originais sempre estarão disponíveis. 

Mas esse tipo de trabalho também tem um papel de levar o nome — e o trabalho — do rapper para novas gerações. “A carreira do Sabotage foi meteórica, a relevância que ele teve não tem o devido reconhecimento. Ele teria feito muito mais coisas. A partir do momento que você junta com novas gerações, as pessoas vão criando a curiosidade de ir conhecer,” reflete Zegon.

Sabotage (Foto: Divulgação)

Sabotage no cinema

A música de Sabotage também ecoou por salas de cinema. Tejo e o rapper já haviam colaborado no primeiro álbum dele e voltaram a se encontrar profissionalmente nos sets de O Invasor, filme estrelado por Paulo Miklos, interpretando a si mesmo. “Na época ele era curioso demais e ele quis se envolver mais e mais no filme. Olhou roteiro, reclamou de diálogos. O Beto Brant viu que ele sabia do que estava falando e reescreveu vários diálogos,” relembra.

Quando ele soube que a trilha seria baseada nas músicas de outros artistas, Sabotage disse que tinha parceiros que poderiam, com ele, criar algo. Ele chamou Tejo e Rick e o trabalho rendeu quatro prêmios somente de trilha sonora, além de se transformar em um álbum com boa tiragem de vendas.

O rapper também atuou em um dos maiores clássicos da dramaturgia nacional, Carandiru: O Filme (2003), adaptação do livro Estação Carandiru (1999), de Dráuzio Varella, dirigida por Héctor Babenco. Sabotinha se lembra do pai contando: “Vou participar de um filme.”

“Muita gente não sabe que ele não só atuou, ele ajudou nos roteiros. Como falar, como se comportar na cadeia,” relembra Tami. Ela conta inclusive que ele ia nos dias de gravação de outros atores como uma espécie de consultor. “Nós acreditamos que se ele estivesse vivo teria produzido de muitos documentários, filmes,” diz. Sabotinha completa com orgulho: “Poderia até ser diretor!”

Não para por aí 

Além do álbum, as comemorações de meio século de Sabotage se estendem para um livro, uma exposição e um filmo, nos quais os filhos do artista estão trabalhando. Previsto para agosto, o livro está sendo feito por eles, com depoimentos de pessoas que conviveram com o artista.

No final do ano uma exposição celebra a vida e obra dele, objetos, manuscritos e itens que pertenceram ao artista e, por fim, um filme. O projeto encerras as comemorações e está previsto para ser lançado no próximo ano.

Para além das datas comemorativas, Tami e Sabotinha atuam hoje no Centro Cultural Sabotage – de onde eles falavam durante a entrevista. O projeto é uma maneira de manter vivo o legado do rapper que, ainda na favela do Boqueirão, iniciou um projeto social.

“Ele falava para os moradores: ‘Quando melhorar para mim, vai melhorar para vocês,'” relembra Tami. Hoje o centro cultural oferece ficinas gratuitas de bateria, breaking, canto, capoeira, cinegrafia, DJ, fotografia, graffiti, MC, Muay Thai, produção musical, violão e teatro. Se depender deles, o nome Sabotage vai ainda mais longe.

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