quarta-feira, agosto 10, 2022
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De Regina Duarte a Silas Malafaia. O terrorismo político de Serra vive seus últimos dias

A julgar pelas primeiras pesquisas eleitorais no segundo turno, a estratégia adotada pelo candidato José Serra para esta etapa da eleição pode ser considerada equivocada.

Mesmo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tem manifestado seu desacordo com a aliança entre a candidatura de Serra e os setores religiosos mais conservadores.

Serra não se manifesta abertamente em seu programa de tevê sobre o tema das cartilhas de conscientização sobre a homofobia, apelidadas jocosamente de “kit gay”. Porém, líderes religiosos aliados têm disseminado críticas raivosas contra a política pública elaborada pelo Ministério da Educação, quando Fernando Haddad era responsável pela pasta.

O mais afetado dos pastores que desembarcaram na candidatura de Serra é o fundamentalista Silas Malafaia.

serraMalafaia

Vindo do Rio de Janeiro, o pastor desembarcou na cidade de São Paulo disposto a decidir o pleito em favor de seu aliado José Serra.

O cálculo político de Serra foi equivocado.

O candidato imaginou que o eleitorado paulistano, tradicionalmente conservador, iria aderir de pronto à cruzada moralista do pastor.

Certamente, a idéia era tirar o foco das questões relativas a péssima administração da dupla Serra-Kassab nos últimos oito anos.

Ao trazer a questão religiosa para o centro do debate, perde-se a oportunidade de discutir com profundidade e seriedade as questões fundamentais para a cidade de São Paulo.

O obscurantismo religioso coloca à frente de tudo as questões morais e comportamentais, deixando em plano secundário os graves problemas e infinitas possibilidades para esta São Paulo tão sofrida, mas tão querida e repleta de potencialidades.

Mas não foi a primeira vez que Serra utilizou este expediente nas eleições que disputou.

Se pesquisarmos num passado recente, veremos que isso vem sendo rotina nas campanhas do candidato.

Em 2002, quando Serra era o candidato governista contra a candidatura de Lula, nas últimas semanas que antecediam a votação, o tucano lançou mão da atriz Regina Duarte em seu programa de televisão.

A ex-namoradinha do Brasil se converteu em uma espécie de madame do mau agouro, ressentida e amargurada. Foi à tevê dizer que “sentia medo” da eventual eleição de Lula.

O terrorismo da “Viúva Porcina” não teve efeito eleitoral em benefício de Serra. Talvez, tenha até mesmo tido um efeito reverso no resultado do pleito.

Naqueles últimos dias de governo FHC, a cidade de São Paulo tinha um desemprego superior a 20% da população economicamente ativa.

A recessão econômica e o caos na infra-estrutura brasileira (com apagão e tudo) não constrangeram o então candidato que adotou o slogan “Serra é mais emprego” em sua eleição.

Tão logo foi eleito, Lula discursou com a famosa frase: “A esperança venceu o medo”.

Em 1985, quando o candidato à prefeitura de São Paulo era Fernando Henrique Cardoso, a ex-namoradinha pediu aos eleitores que não votassem em Eduardo Suplicy, pois isso significaria ajudar a candidatura de Jânio. Como se eleger FHC fosse um mal menor para São Paulo. Para sustentar sua teoria política, Regina lança mão da Alemanha dos anos 30, dizendo que na ocasião “os democratas se dividiram e Hitler subiu ao poder!”.

“Tudo a ver” com São Paulo dos anos 80.

Naquela mesma eleição, Jânio Quadros superou FHC que na véspera da eleição, atendendo a um pedido da Revista Veja, precipitadamente se sentou na cadeira de prefeito de São Paulo.

Mas ao contrário do que previa Regina Duarte, não foi a votação de Suplicy que elegeu Jânio Quadros.

Fernando Henrique ficou encurralado com as denúncias moralistas de Jânio sobre questões como aborto e a legalização da maconha.

A tacada final de Jânio naquelas eleições foi perguntar ao candidato FHC se ele sabia onde ficava o bairro de Sapopemba, um dos maiores colégios eleitorais de São Paulo.

Passados quase trinta anos, FHC manifestou com clareza sua posição política quanto à legalização da maconha. Agora, falta apenas o ex-presidente responder onde fica Sapopemba.

O duro golpe sofrido em 85 pelos agora peessedebistas, não sensibilizou José Serra. Ao contrário, parece ter oferecido um receituário para as futuras experiências eleitorais dos tucanos.

Em 2004, o divórcio de Marta Suplicy e seu novo relacionamento turbinou uma das campanhas mais cruéis que se tem notícia. Mesmo bem avaliada, a gestão de Marta não foi suficiente para garantir mais um mandato à ex-prefeita.

As últimas eleições presidenciais se transformaram em um “case” a ser estudado pelas próximas gerações.

O reposicionamento do Brasil na geopolítica internacional e o bom momento econômico, com a retomada do crescimento, ofereciam a oportunidade de discutir com alguma profundidade os projetos de desenvolvimento do Brasil para os próximos anos. Ainda que houvesse divergência entre as duas candidaturas, seria possível construir um consenso acerca de algumas questões fundamentais para nosso país.

Mas o tema em ebulição naquele segundo turno foi a discussão obscura sobre o aborto. O discurso religioso – recheado de ressentimento político – converteu este tema num tabu, impedindo que a questão fosse discutida seriamente, tratando o tema sob o ponto de vista da saúde pública.

De certa forma, o erro estratégico de Serra há dois anos se repetiu.

Todo o arsenal de denúncias, adesões, apoios, projetos, propostas e propagandas foram gastos na primeira etapa do pleito.

No segundo turno não há nada de novo.

Resta mais uma vez o discurso moralista e o apoio dos falsos profetas histéricos.

A população pode não ser majoritariamente entendedora de todos os meandros da política. No entanto, consegue captar como ninguém o cinismo e a mentira no discurso de um político.

Talvez isso colabore a compreender os 52% de rejeição nas últimas pesquisas eleitorais.

Serra cai e os votos nulos sobrem. Ou seja, mesmo aqueles que rejeitam a candidatura de Fernando Haddad ou se recusam a votar no Partido dos Trabalhadores, preferem anular o voto a optar pela candidatura de Serra.

O cálculo político de Serra não considerou o fato de que a maior parte de seu eleitorado está na classe média. Embora conservadora, a questão da homofobia é cada vez mais sensível a este eleitorado.

Politicamente, a classe média paulistana pode continuar aderindo ao discurso conservador. Porém, o apreço pelos direitos individuais parece ser algo inexorável nos nossos tempos. Para o eleitorado liberal, as garantias dos indivíduos são mais importantes, inclusive, do que os direitos coletivos de classe.

Nos Estados Unidos, George Bush foi um dos presidentes mais mal avaliados da história daquele país. Mesmo assim, conseguiu governar por dois mandatos e ter apoio político para suas empreitadas trágicas. A cada vez que seu poder político estava em cheque, Bush usava o medo do terror e as ameaças de Osama Bin Laden para concentrar poder e desqualificar seus adversários.

Serra usou e abusou deste recurso.

Por tudo isso e pelos inúmeros inimigos políticos que colecionou ao longo de sua carreira, inclusive entre seus correligionários, Serra sairá da vida política como uma figura menor.

Histórias tenebrosas da truculência política de Serra não faltam. Todo mundo conhece uma.

De Regina Duarte a Silas Malafaia, o terrorismo político de Serra será uma lição para as próximas gerações do que não se deve fazer na política.

A derrota inevitável desta prática pode melhorar o nível das próximas eleições.

 medo

Fonte: Rafal Castilho

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