Do silenciamento ao enfrentamento: Protagonismo de famílias negras no Brasil

Ao longo dos anos, o conceito de família passou por importantes mudanças em seus significados, abandonando muitas visões estigmatizadas que não representavam todas as realidades e colocavam algumas famílias sempre à margem das definições. A recente atualização do verbete no dicionário Houaiss, divulgada em maio de 2016, trouxe um significado mais próximo do que todos já conheciam, explicando família como: “núcleo social de pessoas unidas por laços afetivos, que geralmente compartilham o mesmo espaço e mantém entre si relação solidária”.

Entender as formações familiares é o primeiro ponto de uma grande discussão, pois também aborda contextos políticos, psicológicos e sociais que fazem parte dessa temática. E, no caso das famílias negras que se estabeleceram no Brasil, isso também reflete uma trajetória de lutas e resistências vividas pelo período de escravidão, mercantilização, separações entre os membros e impedimentos concretos para se desenvolver econômica e socialmente. Para melhor compreensão dessas histórias, a psicóloga e doutora em Psicologia Social, Reimy Solange Chagas, desenvolveu como dissertação de mestrado uma pesquisa sobre famílias negras brasileiras, discutindo a construção de mitos familiares como a união, os silenciamentos, os traumas, a superação e os valores dentro de cada experiência.

Essa pesquisa é um importante caminho para ressaltar o protagonismo de histórias negras em uma perspectiva familiar, propondo reflexões sobre a subjetividade do grupo e os efeitos individuais de todas as vivências. Esse trabalho teve como base a escuta clínica de abordagem psicanalítica das famílias entrevistadas. Sua pesquisa, intitulada “A união faz a força: expressões do mito familiar em famílias negras das camadas médias – São Paulo, século XXI”, resultou no livro “A união faz a força: expressões do mito familiar em famílias negras”, com a primeira edição publicada pela editora Intermeios, ao final de 2014.

Também como fruto dessa pesquisa, foi desenvolvido uma matéria de perfil documentário pela TV PUC-SP, setor de produção audiovisual da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (aqui). O desenvolvimento deste trabalho contou com o depoimento de duas famílias residentes no Estado de São Paulo, trazendo realidades distintas e ao mesmo tempo semelhantes em aspectos psicossociais relacionados aos enfrentamentos. Essa nova etapa de pesquisa possibilitou uma abordagem mais ampla sobre o tema, incluindo novos perfis de famílias negras brasileiras, como a de imigrantes africanos residentes no Brasil há muitos anos e que hoje se apresentam com formações interculturais.

Em uma das famílias, mostramos a história de Paulo João Mateus e Marta dos Anjos Mateus, imigrantes angolanos que se estabeleceram no Brasil, entre outros motivos para continuidade dos estudos. Marta dos Anjos veio para o Brasil com seu pai e irmãos, buscando uma perspectiva de vida, até então difícil em Angola conforme explica em seu depoimento: “No meu país nós tínhamos que estudar aos sábados e, como nós éramos de uma religião que seguia os princípios cristãos, todos éramos adventistas, chegava quinta série e já não podíamos mais estudar. Então viemos para o Brasil.”

Paulo João, seu marido, serviu ao exército angolano por alguns anos e conta que uma das oportunidades que conseguiu através do trabalho foi a bolsa para estudar Medicina no Brasil, que já era um desejo pessoal independente do país em que ele estivesse. Paulo relata que durante sua residência médica prestou alguns concursos públicos na cidade onde estudava e, “Se estabilizando como funcionário público, realmente perdeu muito o interesse de retornar para o país em conflito”, considerando o Brasil como “um país que oferecia uma boa estabilidade e condição de conviver em paz e tranquilo com a família”.

Atualmente eles têm quatro filhos, que caracterizam suas histórias como oriundas e uma “família negra imigrante, com a primeira geração de brasileiros bilíngues”, formada por pais angolanos, filhos brasileiros e uma cultura ricamente ligada aos dois países, com dialetos, músicas, comidas e tradições. “Suas histórias trazem origens étnicas duplas, onde os desafios do contexto social não estão unicamente atravessados pelo racismo, mas também pela xenofobia. Imigrantes negros, de origem africana, ainda que bem posicionados socioeconomicamente, são muito discriminados e vistos, frequentemente, como grupos destituídos de história e conhecimento, sempre necessitando de tutela e intervenções do Estado, inclusive em questões familiares. Essa situação é bem diferente de imigrantes não negros que, com as mesmas condições socioeconômicas, historicamente, sempre foram alvos de identificações solidárias, admiração e valorização pela população em geral”, explica a psicóloga Reimy Solange.

A família brasileira entrevistada nos mostrou um pouco da história do casal Djanira Batista e Sebastião Dias, com seus filhos Maurício, Jussara e Mara caracterizando uma família negra que se estende para além dos laços sanguíneos, incluindo amigos que hoje afirmam fazer parte dessa grande família e retratando importantes vínculos afetivos em suas trajetórias.

Em sua trajetória, Djanira Batista conta que morava em uma cidade do  interior com a família e que sua mãe lhe trouxe para a capital pouco tempo antes de falecer. “Parece que ela queria dar mais liberdade para gente viver”, ressalta em seu depoimento ao comparar a vida nas duas cidades

Sobre essa liberdade, Djanira explica que no interior era tudo mais difícil, o  preconceito era muito grande e eles sabiam que algumas empresas realmente não contratavam pessoas negras por causa do racismo, implicitamente entendido por todos. Na “cidade grande” eles teriam oportunidades melhores e era isso que sua mãe buscava para os filhos. Apesar desses enfrentamentos, Sebastião Dias e Djanira Batista têm uma família marcada pela alegria, união e grandes festas compartilhadas com os amigos. Suas histórias também se ampliam para igreja, da qual todos participam e afirmam terem suas identidades fortalecidas pela realização da Missa Afro, trazendo a representatividade da cultura africana inserida nos ritos tradicionais das celebrações.

Em ambas famílias, um fator que sempre esteve presente foi a questão do racismo, enfrentado diariamente com o apoio familiar, dos amigos e das pessoas que vivenciam igualmente essa situação. Em alguns casos, a superação mostrou a religião como ponto de apoio, destacando seu caráter subjetivo e de fortalecimento
individual em diferentes momentos.

Em outros, esteve mais presente o diálogo, as tradições, os cuidados e a atenção entre os membros, mostrando a empatia e o amor ao próximo como fatores determinantes para que as adversidades não sejam enfrentadas individualmente, aumentando assim as possibilidades de superação, sentimentos de pertencimento e felicidade presente nestas famílias. Todo esse apoio promove significativamente a saúde mental e bem estar dentro da família, explica novamente a psicóloga.

Certamente, ainda há um longo caminho para famílias negras terem os seus protagonismos pessoais e sociais reconhecidos, considerando que ainda há muitas delas severamente empobrecidas e com ciclos de vida truncados devido as desigualdades sociais e raciais. A diversidade cultural que abrange estas famílias ainda não está retratada pelas mídias e estudos acadêmicos, mas essa pesquisa, o livro, o documentário e sua divulgação promovem o destaque e o estimulo de forma pioneira para contribuir para mudanças no contexto de representações e protagonismos.


** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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