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Edson Cardoso fala da imprensa negra e da luta pela consciência negra

Dentro da ideologia vigente, que oculta as desigualdades raciais, não há negros, não há racismo. É necessário furar o bloqueio imposto pelos grandes jornais e revistas, redes de rádio e TV.

 

Causa Operária entrevista  o professor de Comunicação Social na Universidade de Brasília (UnB)*, militante do movimento negro e editor do jornal Ìrohìn, Edson Lopes Cardoso. Ele nasceu em 1949, em Salvador, cidade que é referência na cultura negra. É uma importante personalidade do movimento negro no Brasil. Neste momento em que a direita ataca o direito democrático às cotas para negros nas universidades, acaba com o Estatuto da Igualdade Racial, fala de uma igualdade racial inexistente não para rejeitar o racismo, mas nega a causa e a opressão do negro, Edson Cardoso denuncia esta política criminosa.

 

Causa Operária – Você poderia falar um pouco de sua história, quando começou a militar no movimento negro?

 

Edson Cardoso – Meu primeiro contato com ativismo se deu no Colégio da Bahia, em 1968. Fiz parte de um grupo de estudos, ligado até onde sei à AP (Ação Popular), e comecei a ler livros de divulgação do materialismo histórico. Recordo-me ainda hoje como foi importante para minha cabeça de secundarista ler “Alienação e Humanismo”, de Leôncio Basbaum. Fazia parte do grupo Roberto Santos, jovem intelectual negro, que me apresentou a Luiz Orlando, ambos responsáveis pela minha primeira aproximação com idéias de movimento negro. Em 1974, eles criaram um núcleo de estudos afro-brasileiros, que se reunia no Instituto Goethe, do qual fazia parte também Manoel de Almeida Cruz e um outro rapaz que estudava Geografia de que não me recordo o nome. Participei de uma reunião (a minha primeira reunião formal de MN) e aleguei mil razões para não assumir a parte de literatura. Fiz movimento estudantil, levado pela força das circunstâncias, em 1975 e 1976 e, em 1977, fui morar em Porto Alegre (participei lá do Qorpo Insano, um grupo de jovens escritores que publicou uma antologia). Vou ter contato efetivo e produtivo com o MN a partir de 1981, 1982, em Brasília.

Causa Operária – Como foi sua militância no PT, a experiência no jornal Raça & Classe, em 1987?

 

Edson Cardoso – Tive um vínculo curto e intenso com o Partido dos Trabalhadores, de 1984 a 1987. Entrei para construir a Comissão do Negro do PT, um grupo de grande fecundidade, responsável por propor e construir o I Encontro do Negro do PT, editar o jornal Raça & Classe, articular mais de uma centena de negros e negras no DF e participar com dignidade do processo eleitoral constituinte. Talvez seja importante frisar que, como fiz assessoria para parlamentares do PT (Florestan Fernandes, Paulo Paim e Ben-Hur Ferreira), muita gente associou meu nome ao PT ainda por muitos anos após meu rompimento formal em 1987. O jornal (com tiragem de 3.000 exemplares) era a prova de que, ao menos em Brasília, os negros do PT se dedicavam, com independência, a fazer agitação e propaganda de algumas idéias fundamentais, recusando-se a babar ovo de dirigente partidário, como era (e é) prática nacional bastante difundida. Aliás, fui membro da Executiva Regional, frise-se, com direito a voz e voto.

 

Causa Operária – Em 1989, você edita o jornal do MNU. Como foi a experiência?

 

Edson Cardoso – Esgotada a experiência partidária, o que propúnhamos então era a construção de uma organização política negra. No diálogo com lideranças do MNU e outras (chegamos a realizar três reuniões de relativa clandestinidade no final de 1987), acabamos cedendo ao argumento que insistia em não desprezar os 10 anos do MNU, alegando ser possível a construção da organização com amplo debate no interior da principal entidade política de MN. Na coordenação de imprensa da executiva nacional transformei o informativo da entidade em um jornal tablóide que, como o Raça & Classe, teve alguma sobrevida após meu desligamento. Os pesquisadores, aliás, saberão separar o joio do trigo, como convém à verdade histórica. Deixei o MNU após a Marcha de 1995, uma proposta que coordenei sob intenso tiroteio dentro e fora da entidade.

 

Causa Operária – Qual a avaliação que você faz do Estatuto da Igualdade Racial, que esperava aprovação desde 1998, e agora é aprovado pelo governo Lula?

 

Edson Cardoso – Que avaliação se pode fazer de uma proposta de legislação que, a rigor, não muda nada na vida das pessoas? Se DEM, PMDB, PSDB, etc., estão felizes com a proposta é razoável nada esperar dela que possa efetiva e concretamente beneficiar a população negra. O ministro da Seppir disse que o projeto era bom porque não causava conflito. Ao contrário, o projeto é ruim porque, na explicitação dos conflitos, os negros foram derrotados.

 

Causa Operária – Você acompanhou a votação do estatuto. Quais os interesses por detrás das alterações feitas?

 

Edson Cardoso – O principal interesse é nada alterar da dominação racial, preservando privilégios. Os intelectuais brasileiros mais progressistas andam escrevendo sobre a reação branca racista ao governo de Evo Morales. Assim, nesses termos. Impressiona a acuidade de visão demonstrada por esses intelectuais quando se trata de avaliar relações raciais que não mexem com seus privilégios.

 

Causa Operária – Partes relativamente positivas do projeto, como o sistema de cotas, apareceram muito desfiguradas na lei final, estão completamente abaixo em importância de medidas profundamente reacionárias como o processo de registro racial que está colocado no projeto. Qual sua opinião sobre isso?

 

Edson Cardoso – As cotas são medidas especiais que atuam sobre os efeitos das desigualdades. Não se pode exigir das cotas o que elas não podem dar, ou seja, elas não podem atuar sobre as causas estruturais das desigualdades. No entanto, elas são fundamentais para desnudar o conflito e fazer avançar a consciência social. Foram rechaçadas porque, além de ser uma indicação de ação prática do Estatuto, significam o desmascaramento da ideologia da democracia racial.

 

Quanto à declaração da cor, na minha certidão de nascimento e no meu certificado militar fui classificado como pardo. Tenho irmãos, filhos do mesmo pai e da mesma mãe, pretos e pardos. No momento em que somos, de novo, maioria da população, com crescente consciência de que a afirmação de nossa identidade no campo da política é fundamental para alterarmos relações de dominação, surgem sensibilidades refratárias a qualquer registro de cor/raça. O que exatamente se teme perder com o fortalecimento da identidade política dos dominados?

 

Causa Operária – Numa enorme demonstração de racismo, em julho deste ano, o DEM contestou legalmente a constitucionalidade do sistema de cotas para negros instituído em diversas universidades públicas do país. Isso marca o início de uma campanha racista, feita cinicamente em nome da “não discriminação”. Quais medidas você considera necessárias contra este ataque?

 

Edson Cardoso – O presidente do Supremo, Gilmar Mendes, já manifestou seu voto, quando declarou que no Brasil ninguém é discriminado por ser negro. Há iniciativas em curso, dezenas delas, que incluem negros e índios em universidades federais e estaduais em diferentes regiões do país. Mas os debates nos meios de comunicação costumam dar as costas ao factual, recusando-se a avaliar objetivamente as diferentes modalidades de ação afirmativa. A questão é ideológica e o debate midiático costuma inverter a realidade. Dentro da ideologia vigente, que oculta as desigualdades raciais, não há negros, não há racismo. É necessário então furar o bloqueio imposto pelos grandes jornais e revistas, redes de rádio e TV. Precisamos de mais agitação e propaganda para que possamos mobilizar amplamente em defesa da constitucionalidade das ações afirmativas. Os cotistas me parecem especialmente amedrontados.

 

Causa Operária – Sendo um dos setores mais explorados, os negros sofrem mais com a crise capitalista. Em sua opinião, qual o peso da crise sobre os negros?

 

Edson Cardoso – O que singulariza o Brasil é, a meu ver, o zelo com que instituições do Estado colhem e analisam indicadores sociais e econômicos das desigualdades raciais. Saúde, educação, habitação, mercado de trabalho, saneamento básico, temos uma requintada base de dados, uma sólida série histórica, com as quais se divertem as inteligências pervertidas de alguns pesquisadores institucionais. Todo ano tem carnaval, todo ano tem divulgação de dados sobre as desigualdades raciais – e nada muda. Uma celebração macabra, um componente sui generis da ideologia racial brasileira. Os negros continuam expostos à discriminação racial e ao racismo, antes da crise, depois da crise.

 

Causa Operária – Há uma intensificação da repressão policial nos morros nas favelas do Rio de Janeiro e São Paulo. Isso é uma maneira de aumentar a repressão à população negra?

 

Edson Cardoso – Em 1949, Abdias Nascimento fez uma carta aberta ao chefe de Polícia do Rio de Janeiro dizendo que pelo tratamento diferenciado com que distinguia a população negra se poderia dizer que a polícia considerava o negro um delinqüente nato e estava criando o “delito de ser negro”. Em 1983, já deputado federal, Abdias encaminhou projeto de lei em que incluía o tratamento policial nos campos em que reivindicava a implementação do princípio da isonomia. O título do editorial do jornal Raça & Classe nº 2, de 1987, é “Furor genocida”, não só o editorial, mas toda a edição é dedicada a denunciar a violência extrema contra a população negra. São práticas repressivas de longa duração no tempo, práticas incorporadas ao cotidiano de uma sociedade profundamente discriminatória, que renega a humanidade do negro. O que há de mais novo e promissor no movimento social neste momento é a reação organizada de mulheres negras e jovens negros às práticas de execução sumária nos bairros populares da maioria das cidades brasileiras.

 

Causa Operária – Você poderia falar um pouco sobre seu trabalho no jornal Ìrohìn, fundado por você em 1996?

 

Edson Cardoso – Estou fazendo imprensa negra há mais de vinte anos, com as limitações conhecidas. Atacamos uma importante deformação ideológica, que reafirma sempre a incapacidade intelectual do negro. Ao contrário, há negros e negras produzindo, pensando, participando de manifestações, escrevendo panfletos, artigos, dissertações e teses. No Ìrohìn pudemos acompanhar o adensamento da reflexão que deve desembocar mais à frente nas construções teóricas que darão sustentação a um projeto político libertador.

 

Causa Operária – Gostaria de fazer alguma consideração final?

 

Edson Cardoso – Vêm-se multiplicando iniciativas de comunicação no campo das relações raciais, conduzidas por jovens em todo o país, enfrentando todo tipo de dificuldade para fazer circular informações, avaliações, denúncias. Tudo vai sendo feito com muita energia militante e pouco dinheiro. Os recursos do FAT e do FGTS servem entre nós, via BNDES, para financiar o papel e as iniciativas da grande imprensa. A Rede Globo e suas Xuxas em Angola são também uma evidência de que a ideologia nunca erra seu alvo. Mas cheguei aos sessenta anos podendo dizer, com coerência, que a luta continua.

 

 

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