Eu estou preocupada

Estamos no meio de uma pandemia de transtornos mentais que para a maioria das pessoas não permite isolamento, tempo de descanso e cura

Quem diria que décadas de descaso, opressão, jornadas de trabalho exaustivas revezadas com o desemprego, negação de direitos básicos, insegurança alimentar, estresse, incentivo ao consumo de álcool e outras drogas e horas e horas de redes sociais com perfis de perfeição inalcançável criaria uma geração de pessoas com transtornos mentais? Quem diria?

Eu estou realmente preocupada com meus amigos. Eu estou realmente preocupada com a minha geração. Eu estou preocupada contigo. Eu me preocupo comigo também.

A gente sabe que não é só setembro o mês de se falar sobre a prevenção do suicídio, sobre a importância dos cuidados com a saúde mental, mas, quando vemos os números, tudo fica ainda mais alarmante.

Transtornos mentais atingem toda uma geração — Foto: Pexels

Segundo a OMS, em 2019 o suicídio foi a maior causa de morte no mundo, superando os homicídios e doenças como o câncer. O Brasil está em oitavo lugar na lista dos países com maiores índices e a Associação Brasileira de Psiquiatria tem uma estimativa de que 96,8% dos casos têm relação com transtornos mentais, sendo a depressão a maior causa.

Confesso que até fiquei na dúvida se os casos estão aumentando ou se estão sendo mais noticiados, mas a verdade é que aumentaram 43% na última década e, em 2019, a média no Brasil foi de 38 por dia.

Falar disso é tão delicado quanto não falar. Se os números chocam, quando os números recebem nome e rosto, apavoram. No Brasil, jovens negros do sexo masculino têm mais 45% de chances de cometerem suicídio que brancos da mesma faixa etária.

O suicídio entre a população negra já foi considerado atitude de coragem e resistência contra a escravização de seus corpos, mente e espírito. Por isso, o recorte de gênero, classe e raça é tão importante quando falamos de saúde mental, já que o racismo continua limitando o acesso dessas populações ao cuidado e à cura.

Depois da morte do influenciador baiano Rodrigo Amendoim, no último sábado, a também influenciadora Jojo Toddynho veio prontamente a público fazer um vídeo importante sobre saúde mental e sobre cuidados.

Jojo me lembrou bell hooks e sua escrita no livro que tem me ensinado tanto sobre sobrecarga: “Irmãs do Inhame — mulheres negras e autorrecuperação”, onde ela fala em como nos “acostumamos” com o estresse que muitas vezes vem do trabalho excessivo e do sistema opressor, e que é preciso saber parar e se cuidar.

“Saber quando parar é reconhecer o seu próprio valor. Se nós, mulheres negras, não aprendemos a valorizar nossos corpos, então não podemos responder totalmente quando nossos corpos estão sendo postos em perigo pelo estresse excessivo”.

Hoje me inscrevi na academia. A última vez que entrei numa academia foi há pelo menos dez anos. Senhoras e senhores, este é o meu estado mental, o de uma pessoa que se inscreve na academia.

Na minha inscrição, o personal trainer me perguntou qual era o meu objetivo e eu respondi que precisava suar pra colocar pra fora meus problemas e meus demônios. Eu sou do tipo que pensa tanto que às vezes até esquece que tem corpo.

Eu continuo preocupada porque não quero perder mais ninguém, porque estamos no meio de uma pandemia de transtornos mentais, que pra maioria das pessoas não permite isolamento, tempo de respiro, descanso e cura.

+ sobre o tema

Primeira mulher trans a liderar bancada no Congresso, Erika Hilton diz que vai negociar ‘de igual para igual’

A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) foi aclamada nesta quarta-feira como...

Estrela do Carnaval, ex-passista Maria Lata D’Água morre aos 90 anos em Cachoeira Paulista, SP

A ex-passista Maria Mercedes Chaves Roy – a ‘Maria...

Aos ‘parças’, tudo

Daniel Alves da Silva, 40 anos, 126 partidas pela...

Iniquidades raciais e as mudanças do clima

O verão brasileiro, embora conhecido pelas belíssimas praias, férias...

para lembrar

Os benefícios para a saúde de ser antissocial

Com alguma relutância, eu consigo ser sociável. Às vezes,...

22% dos jovens de 15 a 24 anos se sentem deprimidos, aponta Unicef

Relatório divulgado hoje pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas...

Depressão em idosos: por que doença ainda é difícil de ser diagnosticada

"Perdi o amor da minha vida, com quem estava...

É impossível ser feliz sozinha

Em tempos de relações líquidas, estava aqui pensando sobre...
spot_imgspot_img

Sobrecarga pode fazer com que mães solo enfrentem transtornos de saúde mental

"Eu sentia muita taquicardia e tinha medo de tudo. Me vinham aquelas crises e eu não conseguia entender o que era. Naquela época, saúde...

Os palancas negras

Não foi o 7 x 1 que me frustrou, inclusive eu estava dormindo durante o jogo contra a Alemanha. Lembro que acordei várias vezes...

Fogo pela boca

Reinava. Não por força, mas porque podia. O cheiro de terra úmida do homem mais bonito do mundo. Os movimentos suaves e precisos, a...
-+=