sábado, setembro 18, 2021
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Formação de agentes populares de saúde: uma ação eficaz contra a pandemia

Desde os primeiros casos registrados de coronavírus no país, já era possível prognosticar que a pandemia iria impactar 97% dos 13,6 milhões de moradores de comunidades no Brasil, como demonstrou dados da pesquisa Data Favela/Instituto Locomotiva, divulgada no dia 24 de março. A pesquisa realizada em 262 comunidades brasileiras traçou um panorama de como o vírus poderia atingir as casas onde é comum abrigar de quatro ou mais moradores em espaços de apenas 20 metros quadrados. Dentro desse panorama de prováveis impactos socioeconômicos, a fome e o desemprego eram duas obviedades a combalir essas comunidades populares, em que 47% dos habitantes são profissionais liberais ou trabalham por conta própria. Somou-se a isso o sentimento de pânico, de angústia, diante da evidência de morte eminente, movido por processos de desinformação e desgoverno por parte das autoridades brasileiras, levando o Brasil, inclusive, a se tornar o epicentro da pandemia na América Latina em apenas dois meses após a deflagração do vírus, elevando-o à terrível classificação de segundo país no mundo com maior número de infectados, atrás apenas dos Estados Unidos.

Diante da ausência do Estado ou até mesmo de sua comprovada ineficácia, inúmeras organizações e entidades civis arregaçaram as mangas e se desdobraram em ações contínuas para conter a covid-19 na população mais vulnerável. A UNEafro (União de Núcleos de Educação Popular para Negras/os e Classe Trabalhadora), conhecida por oferecer gratuitamente cursinhos pré-vestibulares comunitários para estudantes de escolas públicas, encontra-se neste momento em luta contínua contra o vírus. A primeira etapa tratou de tentar estancar a fome, socorrendo emergencialmente famílias de 39 territórios, ação que ainda está em curso, com a distribuição de 84 toneladas de alimentos em 4.237 cestas básicas.

Nesta segunda etapa, tão importante quanto a primeira, a UNEafro se propôs a formar Agentes Populares de Saúde para atender a população que não encontra apoio no Sistema Único de Saúde (SUS). A ideia do projeto não é substituir o sistema de saúde, mas agir de forma complementar para que cidadãos das comunidades saibam como atuar diante da doença ou ainda se prevenir contra ela. “Depois do primeiro desafio, percebemos quais eram as outras necessidades. Houve muitos relatos de pessoas que iam aos postos de saúde e voltavam para casa sem acompanhamento”, explica Bianca Santana, uma das coordenadoras.

Através de Bianca, foi contatada a médica infectologista Gladys Villas-Boas do Prado, pesquisadora de epidemias e que acompanhou de perto os primeiros casos de covid-19 no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, onde trabalha. Glayds, assim como outros profissionais da saúde da equipe, passaram a trabalhar voluntariamente junto às comunidades. “A maior parte das pessoas volta para casa sem muitas informações. Elas têm muitas dúvidas”, diz à coluna Geledés no debate a infectologista.

A equipe é formada por quatro médicos, entre eles José Murakami Junior, sanitarista pela Faculdade de Saúde Pública da USP, três psicólogos, um cientista social, um comunicador e coordenadores da UNEafro. De largada, a equipe multidisciplinar, sob orientação da infectologista, elaborou um material didático para ser distribuído junto às cestas básicas, além de criar um site (https://agentespopularesdesaude.org.br/),onde é possível ter fácil acesso às informações sobre a doença, suas formas de prevenção, sintomas e até como agir em caso de um dos membros da família estar infectado. “Há uma tensão, um medo muito grande, porque a coisa mais essencial foi negada nas periferias: o acesso ao teste. A gente não tem noção de quem está contaminado e quem não está. E muitos de nós não teremos acesso a esses testes. A ausência de informação se dá por falta de meios. Estamos trabalhando na invisibilidade”, diz Débora Dias, uma das articuladoras do projeto.

Em inúmeras situações, quando não há gravidade nos sintomas, as pessoas estão sendo tratadas em casa. Mas para isso, elas precisam ser corretamente orientadas. A indicação do Ministério de Saúde é de que pacientes com sintomas de covid-19 somente se dirijam às policlínicas ou unidades de atendimento em caso de febre persistente ou falta de ar. Nos casos gripais, as pessoas devem permanecer em casa. “Ficou evidente que daria para fazer um apoio às pessoas com sintomas, mas que não estivessem internadas. Mesmo com as várias ansiedades de não ter um acompanhamento constante, foi possível pensar numa figura popular que pudesse acompanhar os casos e contatar uma rede de profissionais de saúde”, explica Bianca.

Através de seus núcleos, a UNEafro disponibiliza vídeos para a formação de Agentes Populares de Saúde, com atualização de informações nas redes. O projeto-piloto conta com duas Agentes Populares de Saúde, que atuam hoje no bairro Jardim Miriam, na zona sul de São Paulo, e em Poá.  A organização ainda está realizando parcerias com outras entidades fora de São Paulo, como em Pernambuco, para ajudar a propagar a metodologia e atingir outras comunidades.

Por meio de vídeo, Bruna Santo Silveira, médica de família e comunidade, compartilha conhecimentos na aplicação do questionário às pessoas com suspeita de covid-19. Dessa forma, são apresentados métodos para compreender sintomas e também para entender qual a melhor forma de relatar o que foi observado, para que assim, junto à rede, o (a) agente popular ajude no caso.

Ainda dentro do projeto, uma iniciativa importante é o acompanhamento psicológico oferecido aos moradores das comunidades. “Começamos com os grupos terapêuticos no contexto da covid-19 para pessoas com sintomas, cuidadores e para os próprios agentes de saúde. A ansiedade é uma questão muito séria que precisa de acompanhamento. Quando necessário, as psicólogas discutem com o psiquiatra”, explica Bianca.

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