Guerra persegue a história do Brasil desde o seu nascimento como nação

Frente ao atual conflito Israel-Hamas, travado do outro lado do mundo, faz bem pensar na vida e na nossa humanidade

Com o triste desfecho da guerra entre Israel e Palestina, não podemos esquecer que o Brasil nasceu praticamente travando guerras —primeiro, guerras contra indígenas e contra negros traficados e escravizados do continente africano.

Guerra, essa palavra adotada pelo mundo, muitas vezes, parece estar inerente ao ser humano, como coisa bélica, quase selvagem, que foge a qualquer racionalidade. Já escrevi aqui que muitas vezes pessoas se odeiam —ou pelejam— sem saber a razão e o seu porquê. O clima atual do mundo dá uma ideia do que estou dizendo.

‘De Volta do Paraguai’, gravura de Ângelo Agostini, em que soldado retorna da guerra e se surpreende com a mãe sendo castigada no tronco – Vida Fluminense, nº 12 – 12.jun.1870

Desde a época que o território brasileiro pertencia ao reino de Portugal, as guerras se implantaram por aqui, feito cópia escarrada da carta de Pero Vaz de Caminha —”em se plantando tudo dá”. E como dão. E, aqui, falo de nossas próprias guerras, as internas, as intestinas, não das guerras globais, de maior e grandiosas consequências.

No Brasil, já se travou a “guerra contra Palmares”, no final de 1500, guerra longa e sanguinária, tendo em vista que o quilombo, liderado por Zumbi, foi praticamente destruído por volta de 1695, ano, aliás, da morte do líder quilombola.

“A quantidade de mortos e prisioneiros indica uma grande população nos Palmares, embora seja difícil precisar seu contingente, calculado em 6.000 pessoas no tempo dos holandeses e em até 30 mil”, conforme está descrito no prefácio do livro “Guerra Contra Palmares”, da editora Chão, organizado por Silvia Hunold Lara e Phablo Roberto Marchis Fachin.

Essa denominação do nome “guerra” —do germânico “werra”, discórdia, peleja, revolta—, muitas vezes é exagerada e supervalorizada. Mas, no Brasil, a gente sempre valoriza tudo e exageramos demais em outras coisas, sobretudo quando atinge nossas emoções.

O século 18 seguirá com outras guerras e conflitos —entre as quais as guerras dos emboabas e dos mascates, as mais destacadas—, também sempre bélicos e cheio de carnificinas. No entanto, o campo dos horrores se dará no raiar dos 1800, quando teremos um número considerável de escaramuças em todo o território nacional.

Em 1821, se dá a chamada guerra da Independência do Brasil, ensaiada em 1817 em Pernambuco, que vai durar, pelo menos, até 1824, com a promulgação da carta constitucional. Seguem-se a Guerra da Cisplatina entre uma e outra, a guerra contra o Prata, pela hegemonia da região do rio da Prata.

Essa guerra, episódio de longa disputa entre Argentina, Uruguai e Brasil, faz parte da chamada Guerra Grande, praticamente a primeira envolvendo os países hispanófonos.

Até que o Brasil de dom Pedro 2º entra na Tríplice Aliança e vai massacrar o Paraguai —com a ajuda dos ex-aliados Uruguai e Argentina—, guerra que se estende de 1864 e 1865 até maio de 1870. Provavelmente, uma das mais fraticidas da história brasileira do século 19.

Estimativas, baseadas em censo de 1871, dão conta que dos 221.079 habitantes contabilizados no Paraguai, 106.254 eram mulheres, sem indicativo de idade, contra 86.079 crianças, sem mensurar o sexo, e apenas 28.746 homens. O que indica que a população masculina foi trucidada nos combates.

E nesse meio tempo o Brasil recebe cerca de 2.700 confederados, oriundos da Guerra da Secessão americana, que opôs o sul e o norte dos Estados Unidos, por volta de 1865.

Mas por aqui a sede de sangue é que não para. Na chamada revolução federalista, após a posse de Floriano Peixoto, realizada por golpe contra a nascente constituição da República, o conflito rendeu milhares de mortos e feridos, onde a prática da degola dos prisioneiros não foi rara de ambos os lados —por isso o nome dado de “revolução da degola”, mais por um caráter revanchista do que heroico.

Depois desse conflito, vamos desembocar na guerra contra Canudos, no noroeste da Bahia, do beato conhecido por Antônio Conselheiro. Vista como guerra religiosa e restauração monárquica, justificativa não houve melhor para as tropas federais republicanas liquidarem inteiramente todo um povoado, como descreveu, há 121 anos, Euclides da Cunha, em “Os Sertões”, livro que guardo feito relíquia entre as minhas poucas preciosidades.

E Euclides escreveria no seu livro famoso: “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo. Vencido palmo a palmo, na procissão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5.000 soldados”.

Em Canudos, nem a Matadeira, arma de fazer mortos nem o militar Moreira Cesar, o “coronel corta-cabeças” e “treme-terra”, deram cabo de povo tão destemido, antes de fanático. A fé estava no homem, como bem narrou Mario Vargas Llosa em “A Guerra do Fim do Mundo”.

Por certo, o “fim do mundo” nunca chegará, assim como as guerras, mas entre uma reflexão e outra ficam as lições para se pensar na paz, na vida e na humanidade.

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