IV Encontro da CONAQ: A bela vitória da luta quilombola corporificada no discurso final!

“Oh, Senhor Ogum, nós somos companheiros! E nos campos de batalha nós somos guerreiros!”

Apenas duas frases repetidas na voz negra de Vó Sebastiana (e voz tem cor? Nunca tive a menor dúvida a respeito!), saudando as novas Coordenações Estaduais da CONAQ, reunidas em torno do que havia sido a mesa de trabalhos, ao longo de três dias. No anfiteatro lotado e de pé, perto de 500 outras vozes se uniam nas mesmas frases: cantadas, gritadas como um desafio, choradas na emoção do acúmulo de tudo o que havia sido vivido e da beleza da vitória conquistada. Pronunciávamos junt@s como que o primeiro discurso de encerramento do IV Encontro da CONAQ.

Rememorando esses últimos dias, o filminho (que começava às 8 da manhã e não acabava antes das 8 da noite) agora passa em flashes rápidos.

A conquista da Câmara do Rio de Janeiro, do discurso de abertura de Rosalina à Roda de Jongo, que a organização previra para a praça da Cinelândia, mas águas (da chuva?) decidiram que seria também no palácio dos Vereadores.

Depois, o três dias de trabalho na academia, o quinto andar do Prédio Central da UERJ transformado num imenso quilombo, entre discursos, debates, disputas, bênçãos, canções, atabaques, pandeiros, reuniões, estranhamentos, carinhos, revoltas, votações e eleições.

A inevitável análise de conjuntura e a tarde com os discursos das autoridades, seguidos das cobranças diretas em relação às políticas públicas. Para algumas “assessorias” (pessoas das entidades não quilombolas. Eles sabem que são protagonistas e não aceitam tutelas), outra programação: definir a metodologia a ser usada na “facilitação” dos grupos de trabalho. À noite, o caos: a empresa contratada para fornecer o jantar (servido, como o almoço e o lanche, no pátio da UERJ, cinco andares abaixo, com apenas dois elevadores funcionando) não apareceu…

O restaurante popular como alternativa não acalmou a justa indignação, que para alguns era uma chance a mais para a crítica, já que, como em qualquer véspera de eleições, os ânimos muitas vezes se acirram. E ser quilombola ou negro não faz das pessoas santas.

Assim, na manhã do segundo dia, a necessidade de mudar a pauta e retomar a História, resgatar a caminhada, agregar a tudo isso a autoridade de Vó Sebastiana, para voltar ao centro e ao rumo. Emendando e colaborando, a fala de Alfredo Wagner, revelando a cumplicidade de longa data e o carinho mútuos.

Mas a “paz” não havia sido alcançada. Nas salas dos diferentes GTs temáticos, as “assessorias” seriam, durante algum tempo, os mariscos entre a onda e a pedra. Muitos minutos se passariam antes que a desconfiança, o questionamento, a agressividade, a recusa ao trabalho, até, por parte de algumas pessoas, fossem dando lugar a um início tímido de aceitação, a uma réstia de confiança, à “permissão” para colaborar, a uma integração no trabalho que chegaria, no final, ao reconhecimento mútuo, ao sorriso aberto e mesmo ao abraço/beijo companheiro.

Para a plenária seriam levadas apenas as propostas referentes à questão de fundo presente em todos os GTs: território e regularização fundiária. Fundamentalmente, exigências de que as leis sejam cumpridas; de que o Estado não se omita, nem continue a procrastinar; de que as vidas sejam garantidas, e a violência, impedida; de que os culpados sejam punidos; de que os territórios quilombolas sejam, enfim, titulado e assegurados.

Se as questões efetivamente temáticas ficariam para o exame e a ação da nova Coordenação a ser eleita, uma outra serviria como elemento de disputa e polarização: a data da Marcha a Brasília, pelos Direitos Quilombolas e contra as tentativas de usurpá-los via ação do DEM, no STF, e o PDL de Colatto, no Congresso. Mas a essa altura já está estavam mais que claras as identidades, as motivações e as posições, e o 14 de novembro fez os crachás amarelos se levantarem de forma absoluta, que, como em todas as outras ocasiões, tornou desnecessária qualquer contagem de votos.

Ao final da noite, o anúncio das Coordenações Estaduais de 24 dos 26 estados (lista dos titulares de 19 estados abaixo), uma vez que São Paulo e Rondônia não haviam fechado suas indicações. A nova Coordenação Executiva deverá ter uma pequena sede em Brasília, com infraestrutura mínima para resolver questões operacionais, e no momento em que escrevo, não tenho ainda a informação de seus cinco integrantes, uma pessoa por região.

Mas o que importa mesmo pode ser simbolizado pela última “atividade” no anfiteatro, antes da festa na Concha Acústica que se iniciou às 10 da noite e com certeza deve ter varado a madrugada: o batismo, por Vó Sebastiana, de uma quilombolinha e um quilombolinha, cujos nomes e pais aqui não importa mencionar, embora num dos casos seja alguém que me comoveu reencontrar. Digo que não importam seus nomes porque, na beleza daquele momento – os bebês levantados no alto, mostrados ao mundo, aos deuses e às deusas – o que tocava mesmo era a noção de continuidade: da vida, da cultura e da luta. E esse foi, para mim, o melhor e definitivo discurso de encerramento para marcar a vitória da CONAQ e d@s quilombol@s do Brasil.

Tania Pacheco.

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Titulares das Coordenações Estaduais:

Minas Gerais: Sandra Maria Silva, Vanderlei Paulo dos Santos e Aparecida Rosa Ventura

Pará: José Carlos Galiza, Daniel de Souza e Érica Monteiro

Maranhão: Ivo Fonseca, Maria do Socorro Nascimento e Reinaldo Avelar

Bahia: Valmir dos Santos, Nelson Nunes dos Santos e José Ramos de Freitas

Paraíba: Geilza Roberto Paixão e Gilmar Valentino da Silva

Amapá: Núbia Cristina Santana e José Ivaldo Monteiro

Tocantins: Isabel Rodrigues e Darlene Francisca de Souza

Paraná: Ana Maria Santos da Cruz e Ronei Carlos Cardoso

Rio de Janeiro: Ronaldo dos Santos e Daniel Leopoldino Barreto

Pernambuco: Mário dos Santos Campos Junior e Edna Paixão Santos

Santa Catarina: Teco e Luciana

Alagoas: Manoel Oliveira dos Santos e José Sandro Santos

Rio Grande do Norte: Francineide Bezerra da Cruz e Manoel dos Santos

Espírito Santo: Arilson Ventura e Domingas Santos

Piauí: Maria Rosalina dos Santos e Antonio Bispo dos Santos

Ceará: Antônio Lopes de Souza e Aurina Maria de Souza Santos

Sergipe: Robério Manoel da Silva e Simone Vieira

Goiás: Ester Fernandes de Castro e Celenir Braga

Mato Grosso: Manoel Domingos Lúcio e Benedita Rosa da Costa

Fonte: Racismo Ambiental

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