“Já mataram minha mãe e meu irmão. O próximo sou eu”

Filho de Bernadete Pacífico, líder quilombola assassinada na Bahia, relata os últimos momentos com a mãe e o clima de medo que se instaurou na região

Na última quinta-feira (17), a líder quilombola e ialorixá Mãe Bernadete Pacífico, de 72 anos, foi morta a tiros no Quilombo Pitanga de Palmares, localizado no município de Simões Filho, região metropolitana de Salvador. O crime aconteceu seis anos após o assassinato, ainda não solucionado, de seu filho Fábio Gabriel, conhecido como Binho. O quilombo é lar de 289 famílias, embora ainda hoje não seja reconhecido pelo Incra, e fica numa região pressionada pelo crescimento urbano e industrial da Grande Salvador. Mãe Bernadete recebia ameaças há anos. Seu filho Jurandir conta que, apesar disso, o poder público nunca tomou providências adequadas para protegê-la. “Agora vão ter que investigar a morte. O povo quer uma resposta.”

Em depoimento a Lara Machado

Eu trabalho em Salvador, mas ia para o quilombo toda sexta-feira à noite. Quando dava, ia no meio da semana. Passava o sábado e o domingo lá, com minha mãe. Meus dois sobrinhos ficavam ao lado dela o dia todo. Ela não podia ficar só. Na última quinta-feira (17), minha mãe me ligou pedindo uma garrafa térmica. Comprei a garrafa. Fiquei de levar até ela, mas estava chovendo muito. Ela me disse: “Meu filho, deixe para vir amanhã, junto com seu primo. Eu faço um churrasquinho e a gente conversa.”

Por volta das oito da noite, recebi uma mensagem no grupo de WhatsApp do quilombo. Veio a notícia. Eu fiquei em desespero, sem chão. Depois me contaram como foi. Naquela noite, minha família ouviu uma batida na porta. Ninguém respondeu. Meus sobrinhos de 20 e 13 anos e meus primos de 11 e de 8 anos estavam lá dentro. Quando ouviram uma segunda batida, minha mãe mandou o mais novo ver quem era. Dois homens entraram de capacete. Pegaram os celulares de todo mundo, trancaram as crianças nos quartos. Depois fuzilaram minha mãe.

Filho de Mãe Bernadete e irmão de Binho do Quilombo, ambos assassinados: sou quilombola da gema. Sou nativo, nascido e criado no Quilombo Pitanga de Palmares. Minha mãe nasceu em Salvador, mas foi levada para lá com 4 anos de idade. Eu e meu irmão nascemos e fomos criados na roça, no quilombo. Sempre comemos bem. Apesar de a comunidade ser considerada pobre, ela sempre foi rica em alimentos. Lá, o que se planta, dá. Eu e Binho estudamos no Centro Comunitário Nossa Esperança, a escola do quilombo. Tivemos uma vida humilde, mas com boa educação. Nós dois fomos os únicos filhos biológicos da minha mãe, mas ela pegou muito menino na rua que era abandonado e criou. Ao todo, foram seis filhos de criação.

Minha mãe sempre foi líder. Trabalhou para que a região tivesse os benefícios que tem hoje, como escola, creche. Tudo foi obra dela e de Binho. A Caipora, região onde aconteceu o crime, é uma parte mais rural do quilombo, onde fazemos o plantio. Antes não tinha nem energia ali. Minha mãe e meu irmão é que mudaram isso. Essa postura vem desde a minha avó, Maria Alvina do Nascimento, que passou para a família todo seu legado, sua sabedoria. Mãe Bernadete pegou o cajado de sua mãe e continuou a luta. 

Minha mãe partiu fisicamente, mas deixou um legado muito grande. Além de líder, era mestre da cultura afro-brasileira. Era sambadeira, artesã. Ela participou da organização da maior manifestação cultural do nosso município, a Lavagem de São Gonçalo dos Campos [festa de cunho religioso que mistura diferentes componentes da cultura afro-brasileira]. Foram 32 anos de evento. Uma das maiores representatividades culturais da Bahia, uma das maiores representatividades de luta e resistência dos povos tradicionais, em especial dos quilombolas do Brasil. Minha mãe fez olaria, com o Projeto Mulheres que Fazem, desenvolveu piscicultura, e construiu um trabalho de agricultura familiar muito forte. Tinha até fábrica, casa de farinha e de beiju. Além disso, era coordenadora nacional da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos, a CONAQ. Viajava muito, estava em Brasília constantemente. Todo mundo que é do movimento negro ou do movimento quilombola conhecia minha mãe.

Pitanga de Palmares é uma comunidade quilombola que, embora pertença ao município de Simões Filho, está mais próxima de Camaçari. Fica entre o Polo Petroquímico de Camaçari, a cerca de 5 minutos de distância, e a Refinaria Landulfo Alves, que recentemente foi privatizada. O quilombo está no meio disso tudo. É uma terra cobiçada. Lá tem um lençol freático farto que abastece de água Simões Filho e Salvador. Tem um manancial, tem um areal grande, tem Mata Atlântica fechada, é uma região rica em minerais. É uma comunidade cobiçada pela especulação imobiliária, por empreendimentos danosos. 

Hoje, passam dezesseis dutos de produtos químicos por baixo do quilombo. São substâncias que vêm da Braskem e de outras empresas do Polo. Além disso, nos últimos anos a prefeitura instalou um pedágio, uma Colônia Penal – tipo de prisão para pessoas em regime semi-aberto – e um lixão. O lixão é um dos principais motivos da morte do meu irmão. Binho brigou para que não fizessem esse lixão e, em 2017, as ameaças começaram. Ele foi avisado de que seria morto, mas pensou: “Como vou ser morto, se nunca fiz mal a ninguém?” Binho, além disso, ia se candidatar a vereador. Quiseram eliminar Binho antes da eleição, porque se virasse vereador seria mais difícil executar. Foi realizada uma audiência pública sobre o lixão no dia 3 de setembro de 2017. Conseguimos embargar a obra. No dia 19, mataram Binho. 

Faz seis anos que a gente espera a polícia elucidar o caso. Entreguei para eles todas as informações que nós tínhamos, até a foto de um suspeito. É possível que agora eles tenham voltado a investigar, depois da morte de Mãe Bernadete. Mas acho que, para não terem feito nada até agora, é porque tem gente grande por trás. 

As ameaças continuaram mesmo depois do assassinato de Binho, embora com menor frequência, porque minha mãe recuou. Mas ela nunca deixou de receber ameaças. No dia 26 de julho, a ministra do STF Rosa Weber veio à comunidade quilombola do Quingoma, em Lauro de Freitas [a 20 km do Quilombo Pitanga de Palmares]. Minha mãe contou para a ministra a intimidação que vinha sofrendo. Pediu políticas públicas para a segurança das comunidades quilombolas. A barbárie, mesmo assim, aconteceu. Deram 22 tiros em minha mãe, sendo doze no rosto. 

Nós vivemos uma ausência do Estado. Você já viu preto quilombola ter moral? Minha mãe estava no serviço de proteção à testemunha, mas não tinha segurança quase nenhuma. A única coisa que tinha eram câmeras em casa. O serviço de proteção era só isso: colocar câmeras. As de pior qualidade que existem. Mas agora vão ter que investigar o assassinato de minha mãe, porque a comunidade, o povo brasileiro quer uma resposta. Dois líderes comunitários, filho e mãe, foram assassinados com a mesma crueldade, com o mesmo modus operandi.

Minha mãe foi enterrada no mesmo sepulcro do meu irmão Binho, no cemitério Ordem Terceira de São Francisco, em Salvador. Se tivessem elucidado o primeiro caso, não haveria o segundo. Para mim, é como se fosse o mesmo caso. Já mataram minha mãe e meu irmão, só falta eu. Querem acabar com a liderança quilombola daquela região, que é rica em tudo. A natureza lá impera. 

No domingo (20), minha família foi retirada do quilombo por questões de segurança, mas a luta continua. Somos articulados, e vai ter gente tomando conta do quilombo de perto. Eu não preciso estar em corpo lá para que os projetos sejam tocados. Continuarei ajudando essas pessoas e irei até lá quando possível, mas escoltado. A comunidade está em prantos, sem norte. Mas o legado continua, essa é a marca da minha mãe.


Jurandir Wellington Pacífico

Gestor cultural e liderança do Quilombo Pitanga de Palmares, na região metropolitana de Salvador

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