Joyce Ribeiro sobre Chica da Silva: ‘Séculos separam lutas contínuas’

A jornalista, apresentadora e escritora Joyce Ribeiro, 44, diz que está em um período especial de sua carreira: fez o lançamento de seu livro “Chica da Silva – Romance de uma Vida”, em Cabo Verde, em 2021, evento que contou com a participação do presidente do país, e foi convidada pela ONU para representar o Brasil no 12º Fórum das Nações Unidas sobre Empresas e Direitos Humanos, na Suíça, em 2023.

Em entrevista à Universa, ela fala sobre realizações pessoais, como é ser uma das primeiras jornalistas negras a despontar dentro do mercado, tratamento da alopecia e relação e aceitação do cabelo como um símbolo de força entre pessoas negras.

Universa: Como foi a sua experiência na cobertura do Fórum das Nações Unidas?

Joyce Ribeiro: Eu tinha a missão e a motivação do encontro em três dias de fórum. A cobertura era para apresentar duas mesas, a primeira falando sobre diversidade e também dando encaminhamento para questões de educação, e outra sobre direitos humanos e como devemos incorporar em nossas práticas do dia a dia, relacionado às questões de ESG.

Mas tudo fica muito no discurso, já sabemos as melhores maneiras e práticas, mas no dia a dia falta uma cobrança mais forte. Já existe o entendimento do que é melhor a ser feito.

Pude, em um debate sobre questões climáticas, ouvir o que países africanos têm de mais urgente para colocar em discussão. Estar numa entidade como a ONU e ouvindo as percepções das mais diversas nações me abastece muito como jornalista e também nos posiciona como únicos, somos uma única nação.

Ouvir problemas tão comuns me fez ver que estamos indo para o mesmo lugar e ainda não estamos fazendo o suficiente, todas as pesquisas que vi mostram que a gente ainda tem muito a fazer e não se conscientizou sobre a urgência dessa tomada de decisão e dos impactos.

Todos nós vamos pagar das mesmas maneiras, as pessoas mais vulneráveis de uma forma mais antecipada e de forma mais grave, mas todos vamos pagar com nossa saúde e com nossos acessos.

O que era mais impactante entre essas preocupações, que conversam sobre a crise climática e uma relação de poder?

As preocupações são muito parecidas, mas uma questão sobre a água nos países africanos, mais especificamente dos donos da água, chamou a atenção.

É um elemento de uma discussão grande, mas uma queixa que ouvi foi basicamente foi que poucas lideranças dominam o acesso à água e usam desse poder para limitar o acesso de todos. Um bem tão básico e que passa por todas essas interferências para que o indivíduo tenha o mínimo.

Ainda sobre a sua proximidade com países africanos, você lançou o seu romance “Chica da Silva” em Cabo Verde. Como foi a visita ao país e qual a relação da história com essa nação?

Em setembro foi a comemoração da independência da Guiné-Bissau, que assim como nós, foi uma colônia de Portugal. Estavam comemorando 50 anos de independência, algo muito recente e que tem um significado muito especial para nação.

Cabo Verde e Guiné-Bissau são consideradas nações irmãs, ambos trilharam uma trajetória de independência próxima e unida e a conquistaram em períodos similares. Por isso essa comemoração foi em Cabo Verde.

Foi muito especial, minha primeira vez em solo africano. Eles têm uma proximidade com essa história, já a conhecem, a língua fez com que cinema, novelas e essa história da Chica da Silva fizesse parte do que eles acompanham de dramaturgia.

Como foi a sua recepção e relação com a nação?

Pude ver de perto o quanto adoram o Brasil e a nossa cultura, o quanto me guiam como uma parceira brasileira. Muitos saem de seus países para estudar aqui.

O presidente do país, o corpo diplomático e os líderes da cidade estiveram no lançamento. Todos eles estavam presentes, isso demonstra o apreço que têm pela minha presença e pela literatura brasileira. Esse elo entre brasileiros e africanos é menos explorado do que poderia ser.

Como a história de Chica da Silva se entrelaça com a sua própria história como uma mulher negra?

São séculos que separam lutas contínuas, do que a Chica da Silva viveu lá atrás e a gente continua vivendo depois de tanto tempo.

Chica da Silva chegou para mim como um presente e como um convite. Fui convidada pela editora a registrar a minha percepção sobre quem ela teria sido sob o meu olhar de mulher, que tem outra demanda feminina.

No entanto, são demandas parecidas com as que ela enfrentou. Ela, uma mulher escravizada que viveu em outro momento, mas que de uma forma ou de outra lutou pelas mesmas questões: o direito ao trabalho, o direito à profissão e a luta pelos seus filhos.

Ela [Chica da Silva] teve muitas filhas mulheres, as mulheres estudavam o mínimo, e que dirá as mulheres negras. Então, ela consciente que só a educação mudaria a vida de suas filhas, mandou todas para conventos. Isso era algo muito maciço das famílias. Ela, como foi uma pessoa diferente, investiu na educação de todas as suas filhas. Mais tarde, tornou-se uma empreendedora.

Como você enxerga o mercado da comunicação e o seu papel, como uma das primeiras mulheres negras a marcar o seu nome no telejornalismo?

Não fui a primeira, mas sem dúvidas estive entre as primeiras. A exemplo de Glória Maria, e algumas poucas outras que serviram de exemplo para mim e para minha geração.

Pude fazer parte de uma geração que conseguiu enxergar na carreira do jornalismo e dentro da comunicação de televisão o que eu e minhas contemporâneas sonhamos um dia em construir.

A primeira coisa que me vem ao pensar e se enxergar nesse lugar é a gratidão de estar aqui através da educação. Quando eu tinha aquela dúvida: “Se eu fizer jornalismo, vou nadar, nadar e morrer na praia? Como vou entrar na televisão, que é tão fechada para mulheres como eu?”.

Estamos falando de 20 anos atrás, com uma representatividade mínima. Hoje, faço parte desta geração que pode desbravar alguns caminhos para que se tenha essa sensação, de que as coisas estão realmente mudando, algo que me deixa extremamente feliz e muito esperançosa, ao ver que outras meninas enxergam essa possibilidade de carreira muito mais fortalecida.

Você tem tratado a alopecia, como a sua relação com o cabelo tem mudado nos últimos anos?

A relação das mulheres negras com os cabelos vem amadurecendo com o tempo, estamos nos descobrindo e redescobrindo com o tema. Tive queda acentuada do cabelo, com diagnóstico de alopecia, e pude perceber essa dificuldade de trabalhar essas questões.

Milhas filhas têm uma questão livre com os cabelos delas, e por ser um problema que tem uma relação psicológica associada, elas estão cada vez mais distantes de ter algo parecido.

Desde bem novinha, entre 23 e 24 anos, recebi esse diagnóstico. Nem sempre tem essa possibilidade de reversão, mas quanto mais você aprende a lidar com essa questão, melhor. A minha geração foi aprendendo a se aceitar cada vez mais e esse processo foi fundamental para mim.

Vejo que hoje em dia há uma geração muito mais amadurecida com questões que eu tinha quando era pequena, como ter um cabelão, um black power, quanto maior melhor. É o pensamento das minhas filhas hoje. Na minha geração, enfrentava-se outra problemática, hoje termos a liberdade de sermos quem somos.

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