Leci Brandão: ‘Nada do que conquistei me faz ser uma mulher deslumbrada’

Leci Brandão sempre teve um lado: defender as minorias é algo intuitivo na sua vida. “A minha inspiração é toda calcada na minha observação enquanto uma cidadã. E, às vezes, se eu percebo que há uma discriminação em cima daquela pessoa, isso me dá inspiração para fazer música”, fala.

No ano passado, a artista foi reeleita para o quarto mandato como deputada estadual na Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) com mais de 90 mil votos, o seu recorde. Mas, mesmo com tanto sucesso, seja na política ou na música, orgulha-se em “não ser uma mulher deslumbrada” pelas conquistas e diz que a sua sina é inspirar mulheres pretas.

Não me considero a rainha da cocada. Eu não sou rainha de nada, sou uma cidadã brasileira, guerreira e que respeita todos os seres humanos.

Leci Brandão

Universa, ela falou sobre samba, quais os planos para comemorar os 80 anos em 2024, representatividade na política e exaltou o coro por uma ministra negra no STF (Supremo Tribunal Federal) —a entrevista foi feita antes da indicação de Flávio Dino à cadeira na corte.

Universa: Além de cantora, a senhora tem uma carreira política importante. É a segunda deputada negra da história da Alesp e, em 2022, foi reeleita para o quarto mandato. Na Casa, convive com preconceitos, como machismo e racismo, e até desconfianças por ser artista?
Leci Brandão: 
As pessoas tinham uma certa apreensão, pelo fato de eu não ter academia, não ter a teoria. Nunca fui nada na política. A pergunta era: “O que ela veio fazer aqui?”. Só que a minha arte sempre foi comprometida com as lutas sociais.

Desde o meu primeiro LP, sempre tem uma ou duas faixas que falam sobre direitos humanos, preconceito, religião. A minha vida é pautada por essas questões. Eu era considerada uma cantora de protesto no início da minha carreira. Tive vários problemas por isso e, inclusive, fiquei cinco anos sem gravar.

No 1º de maio que fiz, alguns jornalistas perguntaram: “E aí, como é que tá o samba lá no gabinete? Como é que tão os malandros?”, e eu falei: “Se você está se referindo às escolas de samba, lá não tem malandro. Tem compositor, tem velha guarda, tem pessoas da comunidade”. Em um instantinho acabava a entrevista, porque eu não fui pega com gracinha e piada que venham tirar a importância da política e misturar com o samba, como se o samba fosse uma coisa ruim. E não é.

Não fui para a Assembleia para fazer samba, fui lá para cumprir o mandato. Fui eleita de forma democrática pelo povo de São Paulo.

Hoje, a Alesp tem cinco parlamentares negras, sem contar as que integram mandatos coletivos –o total é 15. Como a senhora vê o aumento dessa representatividade?
A primeira deputada negra da Alesp foi a doutora Theodosina Ribeiro [1930-2020], isso nos anos 70. Quarenta anos depois, cheguei. Tenho orgulho de dizer que fui a segunda mulher negra e, depois de mim, as que entraram sempre disseram que eu era uma referência pela minha luta, vida e história.

Escuto: ‘Se você chegou lá, a gente tem condição de chegar’. E eu incentivei todo mundo.

Theodosina Rosário Ribeiro, ao lado de Leci Brandão em foto de 2015, foi eleita vereadora em 1970 e deputada estadual em 1974
Imagem: Divulgação

A senhora fala muito sobre ser chamada de madrinha no ambiente do samba. Mas isso acontece na política também?
Algumas parlamentares se consideram as minhas afilhadas, me chamam de madrinha. Muitas das meninas pretas na Assembleia, quando me encontram, pedem a bênção. É uma coisa de respeito, carinho, que fico super orgulhosa.

Não sou uma mulher vaidosa, o meu orgulho é de saber que essas meninas ou as mães me têm como referência.

Todo mundo fala muito na família quando vem conversar comigo. “A minha avó ouvia a senhora demais, a minha mãe botava o seu disco na vitrola.” Tem toda uma história nas famílias pretas da qual eu faço parte, na sua casa já teve um disco meu ou minhas letras fizeram referência para as vidas delas.

Dialogar pelas minorias se tornou mais fácil ou mais difícil ao longo do tempo, considerando a onda conservadora dos últimos anos?
Me surpreendo muito com o conservadorismo, de forma negativa, depois de tanta coisa que já foi feita, de leis.

É uma luta que não para, tem que continuar. Tem que estar sempre pronta para o embate. O Brasil é um país racista e digo com tranquilidade.

Existe um retrocesso muito grande no poder legislativo, a partir do momento que misturaram religião com a vida pessoal. Isso é muito ruim.

Graças a Deus conseguimos mudar o caminho do país nas eleições. Nunca vi tanta proibição imbecil, tudo em função de questão religiosa. Sou ligada à religião de matriz africana, que aceita as pessoas, não escolhe, não fica perguntando quem é você, com quem você casou, quem você namora, o que você come, ou veste. A religião de matriz africana acolhe as pessoas.

Leci Brandão foi eleita deputada estadual pela primeira vez em 2010
Imagem: Van Campos /Fotoarena/Folhapress

Qual a visão da senhora sobre a campanha pela indicação da primeira ministra negra ao STF? [Nota da edição: a entrevista foi feita antes da indicação de Flávio Dino à cadeira no STF]
Acho que o presidente estaria fazendo uma ação realmente muito importante para a população. É possível, temos pessoas que podem tranquilamente exercer a função, seja no Ministério da Justiça, no Supremo Tribunal Federal. Temos grandes advogadas que poderiam ser ministras. Há uma campanha justa para escolher uma mulher negra para o STF.

Até se olharmos para outras casas legislativas pelo país inteiro, você conta nos dedos onde é que estão as mulheres pretas. São muito poucas. Afinal, negros são mais de 50% da população brasileira e temos que ter essa representatividade.

Quando entra alguém em algum lugar de poder ou tem alguma profissão que não é normal para gente preta, sempre tem matéria. Por quê? Nós estamos em 2023, e isso ainda chama a atenção. Ainda somos invisíveis, né? Essa é a verdade.

A senhora ficou sem gravar entre 1981 e 1985 após a gravadora descartar um disco por achar as letras muito embativas. Cogitou mudar o estilo para conseguir voltar a gravar?
Não, porque canto o amor. Sempre cantei o amor, o cotidiano. As minhas músicas de amor são muito simples, mas com muito carinho. Eu canto coisas de família, da dona de casa, da mãe, de tias minhas, pessoas que conheço do dia a dia.

A minha inspiração é toda calcada na minha observação enquanto uma cidadã. E, às vezes, se percebo que há uma discriminação em cima daquela pessoa, isso me dá inspiração para fazer música.

Sou compositora intuitiva, não toco violão, cavaquinho, nada. A música vem como Deus manda. Sempre digo que é coisa de orixá. Orixá me manda letra e música, tudo direitinho.

Leci Brandão participa do Programa Ensaio, da TV Cultura, em 1974
Imagem: Divulgação/TV Cultura

Em 1978, a senhora foi a primeira cantora famosa a se assumir lésbica. Teve receio de represálias?
É claro que a palavra “lésbica” não existia na época. Nunca resolvi fazer divulgação da minha vida particular. Primeiro, porque tinha a minha mãe, que nasceu em 1922. É outra cabeça. Sempre a respeitei nesse aspecto. Minha mãe nunca me indagou, e nunca precisei conversar sobre a minha vida íntima com ela.

Deixei isso muito reservado, não sou pessoa de sair em coluna de fofoca, porque a minha vida é uma coisa, e a minha vida artística é outra. Nunca fiz questão de levantar bandeira, não me interessa em 2023 falar sobre uma coisa que na década de 70 apavorava qualquer um.

Sempre fui bem na minha sobre isso, até porque sou uma mulher preta, de origem humilde, com uma família que não iria entender. Tenho vários amigos, sempre defendi a causa e cantei a favor.

Manter a vida pessoal discreta sempre foi uma preocupação?
Não sei se é uma questão de preocupação ou de respeito à minha mãe. Porque sempre respeitei todo mundo. Quando começou a ter campanhas contra os LGBTs, sempre me coloquei como defensora.

Cada um escolhe a vida íntima que quer. Não sou contra ninguém, sou a favor da liberdade, das pessoas viverem em paz, poderem exercer uma vida tranquila e respeitando o outro. A partir do momento que você respeita o outro, você tem que ser respeitado também.

A senhora foi a primeira mulher na ala de compositores da Estação Primeira de Mangueira. Hoje, homens ainda são a maioria entre os compositores e nos carros de som das escolas, principalmente intérpretes de samba-enredo. Ainda falta espaço para as mulheres nesses dois setores?
Ainda é uma coisa muito masculinizada, mas nós temos boas compositoras com toda a capacidade de fazer sambas-enredos bons.

Na Mangueira, por exemplo, tem a Manu da Cuíca, umas das autoras do samba do enredo “História para Ninar Gente Grande”, de 2019, que homenageia a Marielle [Franco]. Ela fez um samba maravilhoso com os parceiros, mas tem responsabilidade muito grande na letra.

E acho lindo quando você bota uma voz feminina também no carro de som. Ajuda, equilibra, é uma coisa muito bonita. É claro que cantar samba-enredo não é para qualquer pessoa, porque tem que ter especialidade para segurar um samba por 60, 80 minutos na avenida, cantando o tempo inteiro.

Leci Brandão precisou escrever carta para ser aceita na ala de compositores da Mangueira, em 1972, e disse que escola era uma “universidade do samba”
Imagem: Divulgação/Rafaela Cassiano

O samba ‘História para Ninar Gente Grande’, que a senhora citou, foi muito elogiado em 2019 e embalou a vitória da Mangueira no Carnaval daquele ano. Ele traz o nome da senhora no refrão, falando sobre fazer um Brasil de “Lecis e Jamelões”. Como a senhora define esse “país de Lecis”?
Fiquei superemocionada quando ouvi o samba pela primeira vez, porque é saber que a gente, graças a Deus, serviu de referência para muita coisa nesse país.

Já cantei pelas pretas, pelos pretos, pelos indígenas, pelos gays, pelos trabalhadores, pelas mulheres que são empregadas domésticas. Sempre cantei por todo mundo e pela luta social de uma forma ampla.

Deus me deu inspiração de fazer tudo isso. Fiz pelo líder do morro, o Zé do Caroço. Se for elencar tudo, tem bastante coisa que a gente já fez por pessoas simples e comuns.

A senhora foi enredo da Acadêmicos do Tatuapé em 2012. Mas tem o sonho de ser homenageada no Rio também e, pela história de amor à escola, ser enredo na Mangueira?
Olha, nunca me passou pela cabeça, não. Acho que o fato de vir na Mangueira sempre em lugar de destaque já é de bom tamanho. Já é de bom tamanho ser da ala de compositores, agradeço muito a Deus o carinho e o respeito que a Mangueira tem por mim.Continua após a publicidade

E ser enredo da Tatuapé foi grandioso, porque a escola estava no segundo grupo e, no ano, subiu e foi até bicampeã do Carnaval depois. Devo muito a essa homenagem, e o nosso enredo foi a volta da Tatuapé ao Grupo Especial.

Em 2024, a senhora completa 80 anos. Tem planos para a data?
Não sou chegada nessa coisa de muita badalação. Sou muito simples, mais emotiva. Se Deus me der condições de ter saúde até lá, vou ficar muito grata, porque quero fazer 80 anos com saúde. Quero fazer um trabalho, um disco. Convidar alguns artistas para participarem, mas algo simples.

Quero ter voz e inspiração para fazer um novo trabalho e recordar algumas coisas da minha vida. A gente está nessa expectativa de forma tranquila. Vai ter o que Deus quiser.

E homenageando a minha mãe, porque sou muito apaixonada por ela. Perdi ela em 2019 e sinto muita falta até hoje.

Leci Brandão também prepara projetos para 2025, quando completará 50 anos de carreira
Imagem: Rafael Smaira/Divulgação

Quais são os seus sonhos e objetivos hoje?
Quero poder continuar levando alegria para o meu povo, cumprindo um mandato que tenha compromisso com o povo de São Paulo e dizer que nada do que conquistei me faz ser uma mulher deslumbrada.

Não me considero a rainha da cocada. Não sou rainha de nada, sou uma cidadã brasileira, guerreira e que respeita todos os seres humanos. Respeito a minha religião, os meus orixás. Faço questão de dizer que sou uma filha de Ogum e Iansã.

E tenho gratidão enorme por seu Rei das Ervas, o meu caboclo, que disse que iria voltar à carreira. Não acreditei, mas voltei, e a partir daí gravo uma saudação para os orixás na última faixa dos meus LPs.

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