segunda-feira, setembro 26, 2022
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Legados e Riquezas

Em uma realidade hiperpolarizada, Maria Alice Setubal, 69, é daquelas pessoas difíceis de rotular. Mas há quem tente. Quando vai falar com empresários, ela tem que ouvir que é “idealista” e “ongueira”. Por outro lado, parte da esquerda já a tachou como “agente do mercado financeiro”.

Herdeira do Itaú, ela não gosta de ser chamada de banqueira, afinal, só veio a ter um cargo três anos atrás no maior banco da América Latina: foi chamada para fazer parte do comitê de diversidade de lá, por ter uma extensa experiência com inclusão social em sua carreira como educadora e filantropa.

Neca, como é conhecida, é doutora em psicologia da educação e mestre em ciências políticas. Misturando esses elementos, ela participou de duas campanhas de Marina Silva (2010 e 2014), ajudou no programa de governo de Fernando Haddad (2012) e foi fundadora do partido Rede Sustentabilidade (2015). “Só volto para a política na próxima encarnação”, brinca, depois dos ataques que recebeu durante essas corridas eleitorais.

Atualmente, é presidente dos conselhos de duas entidades da área social. Uma é a Fundação Tide Setubal, que fundou em 2006 para fomentar projetos de desenvolvimento em periferias. A outra é o Gife (sigla para Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), entidade que reúne os maiores investidores sociais do Brasil.

Para ela, a pandemia pode ter servido como uma virada da elite brasileira em direção à filantropia. “Eu percebo que algumas empresas e pessoas passaram a ter uma maior sensibilidade diante das desigualdades do país. Há uma demanda para ajudar”, afirma.

Filha do empresário e político Olavo Setubal (1923-2008), que foi prefeito indicado de São Paulo (1975-1979) e ministro das Relações Exteriores (1985-1986), ela diz que “na mesa de casa se discutia só dois temas: política e economia”.

Neca fundou e dirigiu o Cenpec, centro de pesquisa que atua há mais de 33 anos na melhoria da educação pública do país e que editou o livro “Cortes e Recortes da Terra Paulista”, que garantiu a ela o prêmio Jabuti em 2006 na categoria “didático e paradidático”.

Crítica do atual governo federal, Neca diz que vários empresários não querem doar para a política pública direta por desconfiança, preferindo um modelo com fundos públicos e privados tendo um comitê de especialistas gerindo os recursos.

Neca sabe que só com ações de empresários e ativistas não vai se resolver os inúmeros problemas do país. “Os sistemas, os partidos e os políticos estão muito desacreditados. Precisamos fortemente reconstruir isso. Só com políticas públicas vamos resolver porque a escala do Brasil é muito grande. Nós não somos o Uruguai.”

Leia abaixo a entrevista de Neca Setubal a Ecoa sobre filantropia, política e futuro.

Ecoa – A pandemia pode ter mudado a postura da elite brasileira em relação à filantropia?

Neca Setubal – É uma grata surpresa o montante de doações feitas ao longo da pandemia. Não é o padrão. Em geral, pelas nossas estatísticas, a média é de R$ 1,3 bilhão por ano. Os R$ 6 bilhões atuais mostram um esforço das fundações, institutos, empresas, pessoas físicas e famílias. Como todos foram atingidos, embora de formas completamente diferentes e até opostas, as pessoas se sentiram mais responsáveis pela situação. Eu percebo que algumas empresas e pessoas passaram a ter uma maior sensibilidade diante das desigualdades do país. Há uma demanda para ajudar.

Eu acabei sendo incluída em grupos de WhatsApp de empresários que querem atuar mais fortemente, por exemplo, em políticas de inclusão. Eles estão mais interessados em saber sobre racismo estrutural e querem agir. São alguns sinais que mostram que vai haver alguma mudança de chave. A extensão e a profundidade disso ainda vamos enxergar. Não vai mudar tudo de um dia para o outro. Mas a pandemia acelerou o processo. Eu sou otimista. Acho que houve uma ampliação da conscientização das elites.

Esse aumento das doações tem a ver também com a falta de ação mais forte por parte do governo federal durante a pandemia?

A pandemia deu visibilidade que o governo não está fazendo. Ou, se fez, não foi o suficiente. Os empresários perceberam que não ia dar certo se eles não assumissem isso. Os motivos são vários. Pode ser o medo de uma convulsão social. Outros se sentiram moralmente responsáveis. Ou acordaram para essa questão. Ou porque os grandes fundos internacionais estão pressionando para que as empresas daqui mostrem, de uma forma muito transparente, o que estão fazendo na área ambiental, social e de governança. Os motivos são diversos, e cada empresário se identifica com uma dessas causas.

Mas houve uma mudança importante. No Brasil, o governo aparece sempre como aquele que vai resolver tudo. Essa visão existe nas classes baixas, pedindo planos sociais, e nas altas, querendo subsídios. Agora se percebeu que a sociedade civil tem um papel fundamental e precisa se mexer

Não é só a elite que não confia no governo, seja no Brasil como no mundo. Os sistemas, os partidos e os políticos estão muito desacreditados. Precisamos fortemente reconstruir isso. Só com políticas públicas vamos resolver porque a escala do Brasil é muito grande. Nós não somos o Uruguai.

O grande ponto aqui é a reconstrução da confiança, passo a passo, com ações muito claras. Em um país como o Brasil é muito difícil construir essa confiança porque as instituições estão impregnadas de desigualdades, e a sensação de injustiça é real. É preciso virar esse jogo. Com desigualdade e racismo, isso não vai acontecer.

Por que a elite brasileira não tem uma cultura da filantropia como em outros países? O modelo norte-americano de filantropia pode ser seguido por aqui?

Aqui teria que ser um modelo diferente, porque deve se articular com as políticas públicas. Os estudiosos fazem severas críticas ao modelo norte-americano de filantropia porque seria uma privatização das escolhas do que seria melhor para os programas sociais. É o grande filantropo que escolhe. Isso é ainda mais forte nos EUA, onde as fortunas são enormes, como as de um Bill Gates ou um George Soros.

É bom lembrar que também é uma questão de imposto de renda, que lá é maior. Doar garante uma isenção, e o milionário escolhe para onde esse dinheiro vai. Será que uma pessoa sozinha faz a melhor escolha de um montante que tem um tremendo impacto? O modelo brasileiro quase não tem subsídio, só um pouco por meio da lei Rouanet e outras. Não dá para comparar.

Em relação à filantropia, dá para diferenciar o tipo de rico que contribui mais?

Você tem um componente religioso muito grande. Especialmente na cultura judaica é muito forte. Mas isso acontece também com evangélicos e católicos. As religiões dialogam muito com a doação. Na filantropia mais progressista, eu falo que são sempre os mesmos, mas agora o grupo ficou maior. Entraram muitos novos atores.

No Brasil, assim como na América Latina, as maiores fundações são empresariais. Elas carregam a marca da empresa, e isso já dificulta trabalhar com temas mais contemporâneos. Algumas vão, mas com muito mais cuidado. É muito difícil, por exemplo, ver apoio para egressos do sistema prisional, soropositivos, transsexuais. Já a filantropia nos Estados Unidos apoia muito a questão da segurança pública, com programas para ajudar ex-detentos em sua nova vida fora da prisão. No Brasil, é muito recente essa área. Percebe-se uma forte restrição em temas mais progressistas. Também não se vê uma fundação que vá à frente em defesa da democracia, fazer posicionamentos políticos.

Tem também a cultura da eficiência, com as fundações empresariais buscando projetos, por exemplo, com alunos acima da média para investir neles e mostrar no final do ano que atingiu suas metas. Isso não está deixando para trás quem mais precisa, que são os alunos abaixo da média?

As pessoas gostam de ilhas de excelência, e temos várias em escolas, em redes, em vários setores. É muito mais difícil achar apoio para aqueles com mais dificuldade, com menor nível de aprendizagem, com maior vulnerabilidade. Demora mais tempo, exige mais recurso, é mais complexo. Nesse caso, tanto os políticos quanto os empresários estão dando mais de seu recurso, que tem um limite, para quem pressiona menos, para uma camada que nem tem voz. E, no final do ano, as fundações têm que prestar contas em um relatório.

Muitas fundações e empresas não sabiam atuar na área social. No início dos anos 1990, elas precisaram muito das organizações intermediárias, das ONGs mais robustas para desenvolver seus projetos. Com o tempo, essas fundações foram formando seus próprios quadros. Isso é mais fácil para elas, porque controlam seus funcionários, controlam os números, não precisam gastar horas dialogando, fazendo concessão. Você atua nos projetos do seu jeito, mais empresarial, mais focado. Além do mais, às vezes a ONG tinha um nome tão famoso que aparecia mais que a marca das empresas.

Até pouco tempo, o Brasil, como um todo, não enxergava a desigualdade. Com isso, de 20% a 30% das crianças não saíram do nível abaixo do adequado de aprendizagem. Isso é gravíssimo. As organizações perderam capilaridade das necessidades e deixaram de inovar muito, perderam essa escuta, esse olhar. A ênfase na eficiência mudou um pouco com a pandemia, e a minha esperança é que continue assim. Temos que prestigiar mais a equidade e não a eficiência, e trazer todos para o mesmo patamar.

Na pandemia, as empresas perceberam que não chegariam no ponto se não existissem essas organizações de base ou intermediária, que de alguma forma eles tinham deixado de apoiar. As fundações voltaram a fazer articulações e parcerias com organizações de base. Voltou a capilaridade, que eu espero que continue, para não perder essa conexão das fundações com o campo social.

Houve também mais parcerias horizontais entre as fundações de empresas. Sempre tinha um discurso de “precisamos fazer mais coisas juntos” entre as fundações, e isso acabou acontecendo agora na pandemia. E não acontecia por essa mesma lógica que as fundações deixaram de atuar com as ONGs: porque é mais cansativo, custoso, burocrático, um cede daqui e outro, de lá, faz reunião, chama todo mundo. Era essa a lógica da eficiência e do curto prazo.

Mas a pandemia mostrou que, se as fundações não fizessem os projetos juntos, o impacto seria zero, cada um trazendo uma migalha porque o problema era muito grande. Eram necessárias parcerias horizontais e verticais, juntar esforços, para ir mais rápido. A agilidade e a desburocratização é possível e tem um bom resultado, sem perder transparência e controle. Um precisava do outro para ter mais impacto e precisava da ONG para chegar nos territórios. Foi o oposto da lógica anterior. Essa inversão pode ser boa e deve continuar.

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