terça-feira, setembro 21, 2021
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Luedji Luna: “O amor é fundamental para reconstrução da nossa humanidade”

A cantora e compositora baiana traz reflexões sobre a afetividade da mulher negra, suas referências e trajetória

No Brasil de Fato Entrevista desta semana tem a presença da cantora e compositora baiana Luedji Luna, que, para além de fazer ecoar a voz das mulheres negras na música, traz mais uma marca como escritora, desta vez, na literatura. Luedji é uma das colaboradoras na obra Quilombellas Amefricanas, Coletânea Poética, em dois volumes, organizada por Ana Rita Santiago, Cláudia Santos e Mel Adún — lançados pela Editora Ogum’s Toques, no final de junho.

Luedji começou a escrever ainda na adolescência, para se expressar no mundo e fazer escoar, em catarse, as dores que sentia com o racismo sofrido em silêncio num colégio particular. Aos 17 anos, a escrita se tornou canção e ela se transformou na artista que canta as próprias letras. Da referência dessa criação, veio o convite para ser parte da coletânea, que reúne mais 22 narrativas de mulheres “amefricanas”.

“Conceição Evaristo (escritora e linguista) tem uma expressão que eu acho que diz muito sobre a escrita que eu faço, a música que eu faço e eu acho que diz muito sobre a narrativa das mulheres negras de um modo geral, que é a palavra escrevivência. É impossível ter a nossa arte, a nossa escrita, a nossa produção intelectual, não atravessada pela experiência individual e coletiva ao mesmo tempo. Se eu não tivesse vivendo ali naquele período, da adolescência, um contexto de opressão, de silenciamento, talvez eu não tivesse a necessidade de escrever”, relembra a cantora.
 
Seja em bases sonoras ou impressas, Luedji traz reflexões sobre a afetividade das mulheres negras, marca que também se faz presente no disco  gravado entre o Brasil e o Quênia, Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água.
 
O trabalho mais recente de Luedji fala com maturidade sobre amor, desejo e prazer como possibilidades de superação do racismo, da dor e da solidão. Entre as referências da obra estão nomes como a própria Conceição Evaristo, Marisol Moabá, Dejanira Rainha Santos Melo, Tatiana Nascimento, Nina Simone.

O álbum veio em um momento de aceitação do amor como base fundamental para reconstrução da humanidade das mulheres negras.

“Falar de amor é essencial para as mulheres negras, construir um outro imaginário e narrativa, onde a gente possa superar o racismo, a dor, a solidão. Quando se pensa em afetividade das mulheres negras, diretamente se associa à solidão das mulheres negras, que é um tema super importante, mas não é só isso. Esta experiência é diversa, plural, está ligada à dor, mas está ligada ao prazer, ao desejo diverso. Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água veio num momento muito importante, onde eu já aceitei que o amor é uma demanda.”

Não à toa, o álbum faz referência à água, elemento ligado a Oxum, orixá da matriz africana ligado ao amor, à feminilidade e à maternidade, vivida recentemente pela artista.

Tem muito esta lógica, quando você não se sente digna de ser amada e incorpora esta lógica de que mulheres negras não são amadas, você acaba estabelecendo uma relação de negação deste amor. Eu vou negar o amor, vou negar experenciar o amor, cantar, escrever de amor. Eu ressignifiquei isso e esse disco é um retrato deste momento onde eu nego a negação do amor e aceito o amor como parte fundamental para reconstrução da nossa humanidade. A primeira coisa que o racismo nos fez foi destituir essa humanidade: não se ama coisa. Então, falar de amor, escrever sobre amor, e cantar o amor é o modo também de dizer que nós somos humanas.”

Confira alguns trechos da conversa:

Brasil de Fato: Luedji no teu álbum Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água, você gravou parte dele no Quênia e outra no Brasil. Como essa vivência no continente africano te influenciou nesta produção?
 
Luedji Luna:
 A África sempre foi uma busca. Eu estava atrás desta África no álbum Um Corpo No Mundo, me questionando qual daquelas Áfricas que eu pertencia, que eu poderia chamar de minha. Foi um disco com uma composição de músicos da diáspora e da África também. Tinha um músico de Cuba, um violonista que era filho de imigrantes congoleses, que era o François Muleka, tinha Rudson Daniel, que era baiano como eu, tinha o Kato Change, que acabou se tornando o produtor desse meu novo disco e que é o do Quênia, e o Sebastian Notini, sueco, radicado na Bahia, e com essa relação super estreita com a África também. 

Já nesse segundo trabalho, depois de rodar com Um Corpo No Mundo e escutando várias coisas também. Eu percebi o movimento mundial de voltar a olhar pra música moderna africana, para música contemporânea, digo até o pop. Grandes nomes da música norte-americana, por exemplo, estavam voltando o seu olhar para as grandes estrelas do continente africano. 

Tivemos aí o Black is King, da Beyoncé, Jay-Z, enfim, várias personalidades dando atenção pra esse movimento do Afrobeats, do Afrohouse africano. E eu estava ouvindo muito essa galera e estava nessa pesquisa, eu gostava do som também, de dançar, etc. 

E o Kato Change é um músico que eu conheci na Bahia, que participou de Um Corpo No Mundo e que em África trocava com todo esse pessoal, tinha de fato uma expertise para trazer essa modernidade.

Um Corpo No Mundo estava buscando uma África ancestral e o Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água eu queria trazer a África de agora. O que está acontecendo lá? Eu vou pra lá, vou ver e vou chamar o Kato, que nesses anos todos a gente estreitou nossa relação, ele veio pra turnê nacional, foi para turnê internacional e é um irmão, a gente se compreende muito bem musicalmente.

Escutar essa África nesse disco foi intencional, porque eu já estava nesse movimento de escutar muito, de buscar essa África de hoje e fui pra lá, com a banda dele [Kato], inclusive. Montei essa banda base que foi gravada toda lá no Quênia, teclado, bateria, baixo, guitarra e aqui no Brasil eu gravei a minha voz e gravei sopros, percussão. Enfim, alguns elementos que entraram depois. 

Foi uma experiência maravilhosa, eu considero já Nairóbi, meu país, amo demais aquele lugar. E o Kato acabou se tornando um parceiro pra vida.

É importante destacar que você, inclusive, nesse disco, privilegiou as parcerias e a equipe de trabalho é majoritariamente negra. Qual a importância disso também? 

Eu gosto muito de ser coerente, assim, né? Com o meu discurso, com a minha trajetória de vida. Eu sou filha de militantes, sou de Salvador e nunca me imaginei fazendo música de modo diferente.

O meu trabalho seja ele o artístico, seja o trabalho indireto, que é ser cantor e o tanto de coisa que a gente tem que fazer indiretamente para consolidar essa carreira de cantora, ele é afirmativo por natureza. Obviamente, tem pessoas brancas na minha equipe, mas o fundamento é esse desde o início. 

Minha produtora, gestora, assessora de comunicação, técnicos, músicos, sobretudo, que é o que em tela, todo mundo está vendo, eu faço questão de priorizar pessoas negras, mulheres também. Mas de modo geral, homens e mulheres negras me acompanhando, porque a gente nunca se questiona porque quando a gente vê uma cantora, seja preta, seja branca onde estão os músicos negros?

Para além da percussão, porque na percussão, às vezes, a gente até encontra, por que sempre quando a gente entra no set de audiovisual, de cinema, os profissionais são brancos? Por que quando a gente vai assistir uma apresentação numa banda, os músicos, os técnicos são brancos? Quer dizer que não existem esses profissionais? 

Eu sei sim que é desleal, não sei se é culpa do artista necessariamente, mas existe é sem essa falta de iniciativa por contemplar essa cadeia negra faz com que pessoas negras não tenham tanta experiência e não consigam adquirir tanto a técnica. Mas alguém precisa arriscar, ser ponta de lança e dar esta oportunidade para que a gente construa uma cultura diferente. 

Acho que trabalhar com pessoas negras entra dentro da lógica do afeto também. Nós não estamos acostumados a nos relacionar com pessoas negras nesse lugar da hierarquia, e essa lógica da hierarquia é uma lógica que será que cabe pra comunidade negra?

Então, tem uma série de atravessamentos, trabalhar com pessoas negras tem questões, tem traumas, ego, tem um monte de coisa, mas também tem muita competência e muita vontade. E é muito bonito perceber que o meu público e as pessoas, de um modo geral, percebem que por detrás do meu trabalho tem esse viés político de abarcar o meu povo.

Eu percebo que muitas pessoas que trabalham comigo, para além de ser um cachê e ter uma relação, de fato, trabalhista, ela se apropria do trabalho. Isso é muito bonito, porque o modo que a gente está construindo essa cultura diferente, a gente também constrói uma nova maneira de trabalhar, que possa ter mais escuta, que possa ter uma comunicação menos violenta, que essa hierarquia possa ser um pouco mais mitigada, e é diferente o resultado.

Percebo que tudo que eu lanço as pessoas sentem tanto porque tem a alma de cada pessoa ali, seja músico, seja técnico, seja produção e isso é difícil de conseguir quando só se trata de dinheiro, quando é a relação que tá ali só pautada num valor econômico é muita coisa se perde pelo caminho. 

Você pode falar um pouco sobre sua ligação com Salvador, sua terra natal? Mesmo agora, morando em São Paulo, você traz a cidade no álbum e no videoclipe Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água. Como foi crescer ali e próxima da militância dos seus pais na cidade?

Salvador aparece nesse trabalho, aparece no filme, porque foi lá que eu me constituí, constituí meus amores, toda a minha subjetividade e me constituí politicamente. Salvador importa muito na minha construção como um indivíduo. 

Meus pais se conheceram num contexto de militância, seja ela partidária, seja movimento de bairros, os ambos de bairros periféricos vizinhos um do Alto das Pombas, o outro no Calabar, que eram comunidades atravessadas por uma área burguesa que era a Barra.

Então, eles se conheceram nesse movimento negro, movimento de bairro, movimento partidário ambos universitários, estudando e querendo uma vida melhor e uma sociedade melhor também.

E eu fui uma filha super planejada, desde que eles se casaram. Ao ponto de eles me darem o nome africano, eu fiquei um tempinho assim sem nome, porque tinha que ser ‘o nome’. Luedji foi uma rainha do povo Lunda, que hoje compreende Angola e Congo, e eu acho que foi muito proposital ter colocado o nome de uma rainha, disputar esse imaginário, disputar, de fato, espaços de poder, uma filha que veio para disputar espaços de poder e fui criada nesta perspectiva.

Estudei em bons colégios, em todo momento vendo meu pai e minha mãe se mobilizando. Meu pai no Steve Biko, minha mãe também. Convivendo muito pequena e vendo toda todo o movimento negro de Salvador constituído, Silvio Humberto, do Steve Biko, Vilmar Reis, Valdeci Nascimento. 

Meus pais são de uma geração em que existiam poucos negros na dentro da universidade. Esses nomes todos que eu citei, foram a primeira geração da família que entrou dentro da universidade. Foi essa geração que instituiu, que lutou, construiu a política de cotas. Eu vi tudo isso acontecer muito pequena, o Ilê Aiyê, enfim, tudo aquilo acontecendo naquela cidade e vivendo a minha vida de criança, de adolescente obviamente, mas sempre com uma consciência muito já consolidada desde muito nova.

Quando decidi fazer música foi algo assim que pegou todo mundo de surpresa, porque meus pais eram, vêm da profissão formal, ambos funcionários públicos, que agora estão aposentados. E eu também estava me preparando pra seguir essa mesma trajetória do funcionalismo público e me peguei artista. Hoje eu percebo que pé de manga só dá manga, entendeu? Eu não posso fugir de uma história que me formou muito, que é muito constitutiva e importante, que bom e que sorte que eu tive!

Porque quando eu vim pra São Paulo, eu me deparei com muitas pessoas negras que ainda não se sabiam negras. Hoje muitas pessoas negras que só foram descobrir que eram negras já com 20 e poucos anos, já mais velho e eu tive a chance de viver em uma cidade onde ser negro estava dado praticamente, eu tenho a sorte de vim de uma família que tinha uma consciência negra muito grande e me educou para ser, praticamente, uma arma de guerra. 

Tem os prós e os contras de você ser uma criança com tanta consciência. Vvocê perde um pouco a inocência, a ludicidade. Porque meu pai era muito categórico comigo, eu assistia Xuxa, porque todo mundo assistia Xuxa, só que meu pai me fazia refletir porque não tinha nenhuma paquita negra, entendeu?

Nada era tão simples assim. Mas eu agradeço porque eu já cresci velha. Já cresci com esse olhar crítico para o mundo. Agradeço muito, porque nasci nessa família, nessa cidade. 

Eu sou uma cantora negra. Fico pensando qual era o sonho da minha avó? Qual era o sonho dos meus pais? Eles são de uma geração que fizeram o que tinha que ser feito, que era estudar e conseguir um emprego, trabalhar, cuidar dos filhos e fazer militância. Eu sou de uma geração que eu faço o que eu quero, eu vivo um sonho.

Quando eu observo minha própria trajetória eu vejo que a gente evoluiu muito enquanto movimento negro. Tudo que esta geração colhe e que a do meu filho colherá é fruto dessa luta histórica desde quando o movimento negro surgiu até as outras vertentes que foram surgindo no meio do caminho. E, sim, temos que credibilizar a militância de internet, que é tão importante quanto a militância da rua. Não quero ser tão “Poliana” assim, mas a gente está colhendo os frutos de uma luta histórica, nada mais.

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