quarta-feira, setembro 22, 2021
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Luta contra o racismo avança devagar na América Latina

Uma mexicana que, mesmo com certidão de nascimento e título de eleitora, não conseguia renovar o passaporte porque, por ser negra, teve a nacionalidade contestada. A porto-riquenha que, ao conhecer a futura sogra, branca, foi chamada de “negra suja”. A argentina apontada como a “negra da cidade”, ou o brasileiro negro que é sempre revistado pela polícia. Todos latino-americanos atingidos pelo preconceito.

Neste 12 de outubro, em que os países da América Espanhola já celebraram a chegada de Colombo e hoje comemoram o Dia da Raça, o Grupo de Diários América (GDA) — aliança de 11 jornais da América Latina da qual O GLOBO faz parte — mostra como o combate ao racismo caminha de forma diversa no subcontinente.

Enquanto na Costa Rica o racismo ainda é, legalmente, apenas uma contravenção, países como Uruguai, Venezuela e México debatem o reconhecimento da discriminação e o Chile, o aumento da inclusão. No Brasil, segundo o filósofo e professor Renato Noguera, da UFRJ, o debate é mais antigo e consolidado, graças ao movimento negro e a grande parcela de afrodescendentes na população. Por isso,diz ele, a discussão já gira em torno de ações afirmativas e reparação:

— A reparação só vem com políticas públicas. Ações afirmativas, como as cotas, são políticas de inclusão, uma forma inteligível de enfrentamento ao racismo.

O filósofo destaca a necessidade de ensinar história e cultura da África e dos povos indígenas, já que “há outras versões da história, além da europeia, e isso tem que estar no material didático”. Representante deste saber ancestral, o pesquisador e babalaô Ivanir dos Santos relembra situações de racismo que viveu:

— Estava em uma van com meu filho e a polícia nos parou. O policial queria revistar meu filho e eu disse que não, pois não havia denúncia. Exigi que isso fosse feito, então, na delegacia. Se encontrassem algo com ele, tudo bem, mas se não encontrassem, seriam processados por constrangimento ilegal. Os policiais acabaram desistindo. Esse mesmo episódio aconteceu comigo em 1992. Não é uma atitude pessoal, mas sim um pensamento institucional.

Pequenos passos

Cada país com representantes do GDA tem dificuldades específicas. Na Costa Rica, o escritor Quince Duncan, afirma que ainda há “uma lacuna legal muito grande”:

— A punição por discriminação racial é ridícula. Aqui é realmente visto como uma contravenção e lutamos para que seja um crime .

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No México, segundo Tania Reneaum Panszi, “a primeira estratégia é reconhecer que tipo de país somos em relação à discriminação”. No país, muitas vezes os negros nem são vistos como mexicanos, como aconteceu com Paula Cruz Guzmán, 57, que precisou mostrar fotos da infância para conseguir o passaporte:

— Foi ultrajante que tenham duvidado de mim mesmo com documentos. Acredito que não sou a única vítima de discriminação em seu próprio país. Compreendi que ser negro é não existir, é não ser mexicano.

Para o sociólogo chileno Mauricio Salgado, professor da Universidade Andrés Bello, é preciso trabalhar a inclusão em seu país:

— A discriminação floresce quando há segregação. O diferente passa a ser uma incógnita, uma ameaça, porque não tenho uma experiência direta com aquela pessoa que me permita vê-la como ser humano. O contato com o outro ajuda a acabar com atos discriminatórios.

Em algumas países, como a Venezuela, o primeiro passo ainda é “reconhecer que há um problema”, diz Rafael Uzcátegui, diretor do Programa Venezuelano de Educação e Ação em Direitos Humanos. A situação no Uruguai é parecida, diz Rinche Roodenburg, da Comissão Honorária contra o Racismo, a Xenofobia e a Discriminação:

— O racismo, a xenofobia e a discriminação estão à flor da pele, mas por muito tempo se dizia que isso não acontecia, que éramos diferentes. Agora, pelo menos, há uma quantidade de pessoas que reconhecem que existe. É um pequeno passo.

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Racismo estrutural

É preciso lembrar que em grande parte dos países da América Latina, o número de negros não é tão expressivo quanto no Brasil. É o caso da Argentina, onde, depois de décadas de pedidos pelo movimento negro, o Censo 2010 finalmente introduziu uma questão de origem étnica, embora em um questionário aplicado a apenas 10% da população, e ficou constatado que apenas 150 mil pessoas se denominam afrodescendentes, ou seja, 0,4% da população.

O antropólogo argentino Alejandro Frigerio afirma que a migração interna fez com que negros que viviam em vilarejos ou na periferia das cidades, começassem a circular em centros urbano e deixou o racismo mais explícito. Nenhuma novidade para Patricia Gomes, que na escola era vítima de bullying e apontada como “a negra da cidade, negra isso, negra aquilo. E isso continua acontecendo”.

Escancarado ou velado, o racismo estrutural está presente. No Peru, 53% consideram que os peruanos são racistas, mas quando questionados se pessoalmente se consideram racistas, apenas 8% admitem que sim.

* Com reportagem adicional do Grupo de Diários América (GDA), uma aliança de 11 jornais da América Latina da qual O GLOBO faz parte.
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