Mãe larga vida na Bahia para ajudar filho a ser bailarino no Bolshoi

JULIANA COISSI

A auxiliar de cozinha Marluce Conceição Rodrigues da Silva, 38, deixou Camaçari, na Bahia, e seguiu com apenas R$ 900 no bolso para Joinville (SC), em 2012.

Separada, cria sozinha Bia, 15, com síndrome de Down, e Danilo, 12. O caçula integra o seleto grupo de bailarinos bolsistas da escola do Teatro Bolshoi no Brasil, a única fora de Moscou.

O menino precisou passar por uma “peneira” de 500 candidatos. Foi Bia quem pediu e conseguiu um emprego para a mãe no Sesc.

Toda vez que eu ia buscar minha filha Bia no balé, o Danilo ficava observando da porta. E quando a gente chegava em casa, ele repetia os movimentos [da irmã] na sala. Tinha só cinco anos.

A Bia tem síndrome de Down. Pensei que o balé ia ajudá-la a corrigir a postura. Isso foi em 2007, as aulas aconteciam na Cidade do Saber, uma instituição em Camaçari (BA). Era gratuito –criava sozinha meus filhos, não podia pagar.

Eu via aquela cena, do Danilo dançando em casa, e confesso que tinha um pouco de vergonha e até de preconceito: “Menino no balé?”

Uma dia vimos uma peça na cidade, com muitos bailarinos. Ele ficou encantado.

No ano seguinte, fiz a matrícula. Lembro da primeira aula. Ele era o único menino, bem pequeno, ficou com vergonha. Mas logo se destacou.

Conseguimos uma bolsa de estudo para ele numa escola de dança famosa da cidade, e ele passou a se apresentar em vários teatros na Bahia.

Em 2011, em um festival na cidade, alguns membros do Bolshoi de Joinville (SC) vieram para uma seletiva. Gostaram muito do biotipo dele. De 160 candidatos, foram para Joinville ele e uma colega.

Na semana final de testes, eu não pude ir [para SC]. Fiquei muito aflita. Pensava: “Ele só dorme comigo, e se cair da cama no hotel?”

Na avaliação médica, viram tudo: tamanho do pescoço, se ele tinha falta de ar etc.

A professora que o acompanhou me ligava para falar, a cada dia, que ele havia passado para a etapa seguinte.

Quando me contaram que ele tinha sido aprovado na seleção, estava chegando da missa. Nossa! Começou a dar uma tremedeira… Sempre acreditei nele.

A MUDANÇA

Não pensei duas vezes em me mudar para Santa Catarina com ele. Éramos só nós três, não imaginava deixar o Danilo crescer sozinho lá.

Então vendi meus móveis e aluguei a casa. Viajei apenas com os R$ 900 da venda no bolso. O Danilo ganhou a condução, e minha mãe pagou o meu voo e o da Bia.

No primeiro mês, enquanto o Danilo estudava no Bolshoi, eu circulava com a Bia pela cidade. Cogitei vender cachorro-quente na rua.

Às vezes íamos ao Sesc, perto do Bolshoi, passar o tempo. Um dia, ela viu as faxineiras e pediu: “Arruma um emprego pra minha mãe”. Uma se surpreendeu, pagou um lanche para ela e disse que falaria com o chefe.

Em uma semana, comecei a trabalhar em serviços gerais. Um ano e meio depois, passei a auxiliar de cozinha.

Nossa rotina é puxada. Saímos de casa às 5h50. São três ônibus até o Bolshoi. Daí vou com a Bia para o Sesc. Enquanto trabalho, ela fica no espaço infantil.

No meu almoço, deixo a Bia na escola estadual, aqui perto. Os dois estão na mesma classe. No fim da tarde, voltamos juntos para casa.

Valeu muito a pena o esforço. Imagino que ele terá um bom futuro. Sairá daqui no mínimo um professor. Quem sabe estará em boa companhia, aqui ou no exterior. Sei que chegará o dia em que não vou mais acompanhá-lo, pois ele sairá daqui com 18 anos.

Nesse dia ficarei em casa, orando para que dê tudo certo, porque minha parte já fiz. Deixei tudo para trás pelo sonho dele. Mas esse sonho mudou a nossa vida.

Fonte: Folha de São Paulo

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