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Mentiras e distorções na guerra publicitária da Cracolândia

Mentiras e distorções na guerra publicitária da Cracolândia

Existe crack na Cracolândia, nas ruas da região da Luz, no centro de São Paulo, ruas conhecidas pelo nome da droga demonizada em diversos discursos. A aglomeração de pessoas que forja indignação em apresentadores de TV e no prefeito da capital paulista, João Dória, vai, entretanto, muito além disso. Um levantamento feito pelo próprio governo estadual, em conjunto da esfera municipal, deixa claro que 13% das pessoas da região não usam nem drogas ilegais, nem álcool. Outros 15% apenas bebem. São 28% que não usam crack ou cocaína, e estão ali por rejeição familiar, falta de moradia e muitas outras razões.

Por Daniel Mello para o Portal Geledés

Mesmo assim, governo e prefeitura têm preferido adotar o discurso de combate ao tráfico como grande solução para a região. Um projeto que ganhou materialidade na mega operação policial do dia 21 de maio, que levou até atiradores de elite para atacar o micro varejo de drogas na área. Essa manobra foi seguida por diversas ações menores que realizaram dezenas de prisões, destruíram barracas improvisadas e apreenderam colchões e objetos pessoais.

 

Complementam o projeto de Doria as internações, apontadas como única alternativa para o consumo abusivo de drogas, ainda que os próprios dados oficiais indiquem que a realidade da Cracolândia é mais complexa do que isso. Para construir essa narrativa, o prefeito apela para a mentira e a desinformação, ao atacar, por exemplo, a política de redução de danos. O olhar que busca reduzir os riscos e complicações associados ao uso problemático de substâncias, seja evitando o contagio por doenças infecciosas, seja oferecendo moradia, tem norteado as ações com melhores resultados para o tema no mundo.

 

Mentiras e desinformação

 

O prefeito tem, no entanto, apostado na ignorância ao dizer em seu programa veiculado nas redes sociais na semana passada que ONGs distribuem cachimbos para que a droga fumada “seja mais pura”. Um debate rasteiro, que nesse caso específico desconsidera que a distribuição de insumos como esse vai evitar diversos danos extras à saúde, como queimaduras e disseminação de doenças, por exemplo, além de estar inserido em um contexto que busca incentivar as pessoas a se cuidarem.

 

Mas o esforço pela mentira é tão descarado, que Doria, sem nenhuma base com a realidade, ataca no mesmo vídeo, com o tom artificial que tem como marca, A Craco Resiste, que acusa, sem nenhum indício, de distribuir crack.

 

A conversa delirante deixa claro que não existe um projeto para as pessoas que vivem e frequentam a Cracolândia, por isso a falta de condições de fazer um debate honesto sobre o tema. Essa fragilidade de ideias e ações já tinha aparecido no vídeo publicitário lançado há alguns meses pela administração municipal na internet e televisão, onde um homem branco maltrapilho observa imagens de uma vida feliz que teria sido destruída pela droga.

 

Os painéis com cenas coloridas poderiam ilustrar a trajetória do Sr. Perfeito João Doria. Mas, sem dúvida, eles não servem para representar as existências das pessoas que vivem no fluxo. Um terço da população que compõe a Cracolândia, segundo a pesquisa do próprio governo estadual, já tinha passado por uma temporada morando nas ruas antes de se aproximar das drogas.

 

Alguns nasceram em barracos, outras foram violentadas dentro de casa e muitos não são mais aceitos pelas famílias e nas vizinhanças de onde vieram. O que está estabelecido ali na região da Luz é uma comunidade que recebe esses que não conseguem mais se colocar na sociedade. A rejeição é o elo comum, não os cachimbos. Mesmo entre os que vêm de situação econômica mais confortável, são comuns os relatos de desagregação familiar, depressão e fracasso financeiro. O mundo é duro com quem não se enquadra nos ideais de sucesso e perfeição de comercial de margarina.

 

O objetivo da peça é fazer coro ao discurso de Doria e dar a aparência a tudo que tem sido feito, com muito dinheiro, dor e sofrimento, de trabalho e esforço. Tudo cabe no slogan da Cidade Linda, os problemas e sintomas profundos de São Paulo sendo tratados como questões estéticas para serem resolvidas com mãos de tinta.

 

Negros sem diploma

 

A propaganda oficial também desconsidera uma marca fundamental para se entender as razões daquelas pessoas estarem ali: a cor da pele. Apesar do desinteresse das estatísticas oficiais em contabilizar o dado, é facilmente visível que a esmagadora maioria dessa população é formada por mulheres e homens negros. Usar atores brancos para interpretar os usuários é uma estratégia cínica de negação do contexto social da situação.

 

Entre os grandes momentos da vida do personagem, está uma formatura universitária que, segundo as estatísticas oficiais, só é realidade para menos de 8% das pessoas que vivem no fluxo. Isso porque o público alvo da peça publicitária não são os possíveis usuários de crack, a intenção é convencer a classe média paulistana, e também de fora da cidade, de que as ações da prefeitura vão no sentido certo. Mostrar uma preocupação com essa população, que não existe de fato.

 

Um ensaio muito mais barato já tinha sido feito com os carros de som que circulam pela região central da cidade oferecendo internações. Ao estilo dos vendedores de frutas e de pamonha, os veículos fazem parte do esforço para que os moradores e comerciantes da área acreditem que existe um trabalho focado na saúde pública em relação à Cracolândia.

 

Na verdade, Doria reproduz uma das piores práticas da gestão pública ao desmontar um programa que apresentava resultados, apesar das hesitações e dificuldades. Para justificar a descontinuidade do De Braços Abertos, em vez do aperfeiçoamento esperado para uma política responsável, o prefeito aposta na construção de uma narrativa desconectada da realidade, atacando a filosofia da redução de danos como com argumentos superados há décadas.

 

Por isso o esforço em publicidade, que chega ao equivalente da metade do investimento anual feito na iniciativa da prefeitura anterior, que oferecia moradia e trabalho aos usuários, com um investimento de R$ 12 milhões. Os R$ 6 milhões de Doria tentam associar o consumo abusivo de substâncias a deslizes e fraquezas individuais, para dar sentido às medidas contraditórias que vem sendo adotadas sem um planejamento prévio.

 

Internados pelo cansaço

 

Para completar, a administração municipal, em parceria com o governo estadual, trabalha nas internações por coação, devido à proibição da Justiça de que o tratamento fosse feito à força simplesmente. Com o cerco constante da polícia e da guarda municipal, seguido de agressões e pressão psicológica, as pessoas acabam cedendo a internações chamadas de voluntárias nas estatísticas oficiais.

 

Um modo de operar que abrange uma diversidade de métodos truculentos. Em alguns episódios, as forças de segurança tentaram impedir a chegada de doações de roupas às pessoas, seja por proibição verbal, seja com spray de pimenta. Durante o período em que o fluxo esteve na Praça Princesa Isabel, a limpeza diária continuou a ser uma ação repressiva, que transformava toda a área em um lamaçal. Os que tentavam sair das partes úmidas, eram agredidos pelos guardas.

 

Com isso, em um mês, a prefeitura diz ter conseguido 600 internações voluntárias. Foram feitas ainda 180 prisões de pessoas acusadas de tráfico de drogas. Um número de difícil crédito, quando o levantamento do governo apontava para uma população de 1,8 mil pessoas na Cracolândia. Indicaria uma proporção de um vendedor de drogas para cada nove consumidores, irreal a partir de uma análise lógica simples. Até porque, mesmo após todo esses encarceramentos, o fluxo continua a existir.

 

O que será dessas mulheres e homens após uma temporada na masmorra? Lembrando que para muitos, inclusive, a prisão está diretamente relacionada com a chegada à Cracolândia. Um lugar que acolhe os que não têm para onde ir depois de anos de afastamento e exclusão. É a repetição do processo de criminalização dos pretos e miseráveis. Também há alto o número dos que contam terem passado sem sucesso por internações, mostrando o fracasso desse modelo para cuidar das pessoas. Essa ênfase tende ainda a ofuscar outras possibilidades, em que os sujeitos ajustam a convivência com as substâncias.

 

Mas o cinismo do Sr Perfeito parece não ter limites, quando em entrevista à TV Gazeta no último dia 22 de junho ele tentou tirar o peso da ação que vem sendo adotada em massa pela administração municipal na morte de Carlos Eduardo Maranhão. Após ser reconhecido por amigos em um vídeo divulgado pela Craco Resiste, Cadu, um residente do fluxo, foi levado para uma clínica no Rio de Janeiro.

 

Usuário de crack e heroína, morreu poucos dias depois após ser submetido à abstinência total. O estabelecimento diz que tomou as precauções necessárias. Doria diz que o caso mostra como as pessoas da Cracolândia têm a saúde debilitada, insistindo naquilo que não funciona. Mas a verdade é que talvez Cadu estivesse melhor se tivesse sido submetido a formas de cuidado menos extremas, que levassem em consideração as suas particularidades. Nada utópico. Existem vários modelos pelo mundo a fora.

 

Mesmo diante de uma morte trágica, o prefeito se nega a fazer uma reflexão, prefere apostar na propaganda como alma da gestão pública Assim, o vídeo da publicidade municipal parece ainda mais inspirado em Doria: Uma trajetória perfeita de sucesso que termina refletida em uma pessoa horrível.

 

Daniel Mello é jornalista e militante d’A Craco Resiste

*O Geledés Instituto da Mulher Negra inicia uma parceria com a Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas para produzir e divulgar conteúdo acerca da atual política de drogas adotada no Brasil. A proposta de ambas plataformas é a de problematizar o conceito de “guerra às drogas” e questionar essa temática a partir da perspectiva de raça, gênero, classe e dos direitos humanos.

**Este artigo é de autoria de colaboradores  do Portal Geledés e não representa ideias ou opiniões do veículo. 

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