Meu ‘confronto’ com a polícia de Alckmin por Eliane Brum

Na primeira grande manifestação de 2015, em São Paulo, um dos ”vândalos” era eu

por Eliane Brum no El País

Alguns minutos antes de virar “vândala”, eu parei de caminhar, me virei de costas e olhei a multidão que ocupava a Consolação, na primeira manifestação contra o aumento de 50 centavos da tarifa de ônibus, em São Paulo. Era sexta-feira, 9 de janeiro, no início da noite. Como é horário de verão, ainda estava claro. Pensei como era bonito milhares de pessoas se reapropriando das ruas, do espaço público, da cidade, para exercer seu direito democrático de protestar contra o que consideram injusto. São Paulo, vista a pé, andando por ruas sem carros, é uma outra cidade. É humana. Das janelas e sacadas dos prédios, as pessoas abanavam. Pouco antes, eu tinha ouvido de dois manifestantes: “E aí, até quando isso aqui vai parecer uma romaria?”. E, quando voltei a me virar para recomeçar a caminhar, o clima na minha frente era outro. Os black blocs e alguns outros tinham se adiantado e começavam a dar chutes em portas de ferro, arrancavam latas de lixo e espalhavam o conteúdo no meio da rua. Foi quando o vi.

Vestido de amarelo, ele estava alheio aos mascarados de preto. Mas seguia-os. Sabendo como os black blocs agem nos protestos, ele me contaria em seguida, costuma segui-los para recolher as latinhas de refrigerante e cerveja. E assim fazia esse balé surreal em que ele parecia recortado de uma outra cena, alheio ao que acontecia, atento apenas ao chão, caminhando lentamente na vanguarda da marcha enquanto ao redor o caos se instalava. Abordei-o, me apresentei como jornalista, e ele me disse que se chamava Ailton da Silva, tinha 58 anos e morava em São Miguel Paulista, na Zona Leste, uma das regiões mais pobres da capital. Aquela que alaga a cada chuva e é a primeira a ficar sem água nas torneiras nesses tempos em que São Paulo se aproxima mais e mais de um cenário de distopia.

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