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Não precisava cuspir no prato

A Campanha Reaja ou Será Morto ou Será Morta foi à rua segunda-feira em Salvador (24.08.2015), com participação expressiva da juventude. Uma indicação bastante concreta de que se amplia a mobilização dos jovens negros e negras, principais vítimas da violência homicida. Uma disposição e um estado de ânimo cujos reflexos devem acelerar mudanças nas práticas de Movimento Negro, em suas várias orientações político-ideológicas.

Por Edson Lopes Cardoso Enviado para o Portal Geledes

A questão é: a consciência crescente de que nenhuma discussão de agenda política, que leve em conta o enfrentamento do racismo, é viável sem referência às altas taxas de homicídio da juventude poderá produzir o milagre da unidade de ação?

Quando se corre o risco de desaparição completa, a defesa do direito à vida obviamente se impõe sobre tudo o mais e não pertence ao reino da fantasia a ideia de que aqueles que podem sumir na próxima esquina mobilizem-se, como “espécie em extinção”, para dialogar sobre os meios de defender sua própria sobrevivência.

O povo negro está morrendo e as lentes estreitas do sectarismo não poderão ajudar a reverter esse quadro de “iminência do extermínio”. A postura que se impõe a todos nós é aquela exatamente oposta ao sectarismo. Devemos fazer tudo que esteja ao nosso alcance para assegurar a continuidade de nossa população, por isso é fundamental reforçarmos os nexos entre a agenda histórica de Movimento Negro e as questões que envolvem o assassinato de jovens hoje (e ontem).

Leia a matéria Representante do movimento Reaja ou Será Morto pede desmilitarização da PM em audiência

Movimento Negro e Movimento contra o Genocídio do Povo Negro não se originam em culturas políticas distintas e hostis, como se quer falsamente caracterizar. É um despropósito isso. São distinções legítimas, claro, mas que constituem momentos intrinsecamente vinculados ao mesmo processo, à mesma realidade histórica de exclusão e desumanização.

Diante da beleza do ato e de seu grandioso significado político, foram pequenos e mesquinhos muitos dos comentários que se propagavam a partir do carro que conduzia a marcha, como o ataque a intelectuais, aos que sabem escrever.

Tratando do tema da violência racial há quase trinta anos, Lourdes Teodoro afirmou: “Quero (…) tentar a alquimia que mostrará a todo e qualquer negro que somos espécie em extinção. Para que façam alianças, aprendam a conciliar entre si, se deem as mãos, para que transformem cada favela em um Quilombo Palmares do século XXI” (“Ícone pela identidade cultural afro-brasileira”. Raça & Classe, nº 2, ago./set. 1987, p. 6).

Intelectuais foram agredidos por palavras de ordem que apenas visavam o aliciamento da juventude. É preciso dizer, no entanto, que nas últimas décadas foram muitos os intelectuais e pesquisadores, a exemplo de Lourdes Teodoro, que expressaram em alto e bom som suas expectativas e receios, denunciaram, intervieram nas atividades culturais, fizeram livros, teses e jornais e lutaram com os meios disponíveis para alcançar os mesmos objetivos perseguidos pela manifestação de Salvador.

Depois de brigar para que negros e negras pudessem ter acesso às principais carreira do Estado, tivemos também que ouvir que a inserção institucional, a presença negra na administração pública, é sinal de picaretagem! Que função política nessa conjuntura acaba tendo esse tipo de crítica?

Desde o início dos anos 80, a militância negra vem agindo de forma mais ou menos coordenada em espaços da administração pública. É impressionante como encontra ressonância em nosso meio um discurso que faz terra arrasada desse já longo percurso e encontramos sinais de receptividade mesmo em jovens diretamente beneficiados pela ação política institucional.

Mais do que uma atitude de necessária avaliação crítica ou de hostilidade, que sabemos muitas vezes necessária, trata-se de negação, de violenta negação de si mesmo e de sua história recente. Apagar os esforços legítimos do passado, distorcê-los ao ponto em que todos os agentes transformam-se em picaretas e oportunistas, é uma ação arbitrária e discricionária que, salvo engano, será bem aproveitada pelos oportunistas de diferentes matrizes.

Recebemos com entusiasmo e esperanças o engajamento político crescente da juventude, mas lamentamos a tentativa de imposição de uma atitude uniforme e sectária (“fardamento”, cara fechada, proibição disso, proibição daquilo), a teatralização excessiva de falas e gestos, que acabavam projetando uma sombra dos algozes sobre as vítimas.

O fato de existirem questões de orientação política bastante equivocadas não retira, porém, o mérito da intensidade da adesão da juventude à causa justa. Para caracterizar sua força de oposição e resistência, o Reaja, definitivamente, não precisa negar os esforços históricos do Movimento Negro.

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