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Não temos medo da escuridão, mas ela nos assombra

Resumo: Esta escrita tem como foco descrever a trajetória de uma mulher preta brasileira de origem pobre para pensar o processo de mobilidade social e democracia no Brasil através do acesso a educação e do ensino publico brasileiro.   A descrição é a mistura de fatos pontuais da política com a trajetória de vida e familiar, mostrando como a vida e as política pessoas estão imbricadas.

por Aline Martins para o Portal Geledés

Imagem: Pixabay

Eu, mulher preta, nascida em uma região pobre do Estado do Rio de janeiro, no Brasil, me em uma família com várias pessoas analfabetas e com pouca escolaridade.  Cresci e fui criada grande parte da minha vida para trabalhar, casar e ter uma família cristã e me submeter às ordens e desejos do meu esposo. Se analisarmos as infâncias pobres da década de 1980, das mulheres pretas o meu relato não é estranho. Nasci na ditadura, mas cresci na democracia.

Surpreendente, mesmo vivendo em um lugar sem biblioteca, teatro e faltando em várias ruas saneamento básico, minha família acreditava na educação e na leitura, meu pai que mal sabia ler, era admirador do partido democrático trabalhista (PDT) representado pelo político de frases marcantes, Leonel de Moura Brizola – política que exaltava a educação e que como Governador do estado criou os chamados Brizolões/CIEPS, influenciado pelo projeto do Antropólogo Darcy Ribeiro.  Nunca estudei em um CIEP, mas vi vários CIEPS sendo levantados na minha cidade e via meu pai vibrando com as escola que ele não teve oportunidade de frequentar.

Nesse bairro que passei a primeira parte de minha infância, aos domingos frequentávamos à igreja, reconheço que sempre preferi ver televisão, escutar rádio ou andar de patins, mas a igreja era o lugar da obrigação e do agradecimento por estra vida – e um dos poucos lugares acessíveis e que toda família poderia frequentar. Lembro que o pastor da igreja que eu frequentava tinha sido Budista e falava muito do amor e não lembro de ouvir nenhuma pregação sobre submissão e morte. Lembro que esse mesmo pastor trabalhava e se recusava a receber salário da Igreja, mas os membros fizeram pressão para ele sair do trabalho. Passou um tempo, e não me recordo dos motivos, mas ele foi transferido ou se transferiu para uma Igreja em Niterói. Depois da saída dele a gente também foi saindo aos poucos da religião.

Minha mãe era uma mulher atarefada, estressada e fadada a cuidar do esposo, da casa e dos filhos. Apontada como inferior não apenas por ser mulher, mas por ser mulher preta. Lembro bem dos comentários familiares que acusavam meu pai de pior a “raça” familiar, escurecer a família. Minha mãe, que era a pessoas com mais anos educacionais que estudou até o ensino médio. Sofria com força o peso do racismo e do machismo.

Não importava o que ela tinha estudado, os seus adjetivos e sim que tudo ser resumia ao fato de ela ser mulher preta. Não entendi bem e por anos sempre achei que a minha família talvez tivesse razão e, que por sorte eu mesmo sendo preta tinha traços/ fenótipo  aceitável para aqueles familiares, no final queria ser aceita. Meus irmãos, um doo meio e outro mais novo (da mesma mãe) um mais escuro e outra mais claro do que eu. Formamos uma tríade. Mulher preta, homem preto (da pele mais escura) e um homem preto gay.

Rapidamente, um “raio-x da futurologia” apontava um caminho difícil para nossa família. Eu, na melhor das hipóteses casaria e viveria a vida inteira servindo e de apoiando ao meu esposo, meu irmão passou a maior parte da adolescência ouvindo que ele tinha grandes possibilidades de ser traficante ou ir para vagabundagem, meu pai com esse temor transformou a vida do meu irmão em cobrança e vigilância, eram cursos, natação, trabalho em casa, proibição de ter amigos considerados “estranhos” o irmão mais preto foi o mais vigiado. O pânico da sua cor em transformá-lo em bandido rondava a nossa casa e os apontamentos dos familiares. O meu irmão mais novo era o afeminado, desde cedo surpreendeu a família ao imitar uma mulher negra famosa na televisão sambando em um culto em nossa casa. E desde muito cedo, ouvia: “Prefiro filho meu morto a  ser um viado”. Hoje ele é viado e está vivo e feliz. Não é fácil, nunca foi fácil.

Os anos se passaram, meus pais se separaram diversas vezes, voltaram outras diversas vezes – e a gente cada vez mais foi se desconectando da igreja. A gente mudou de bairro e de cidade, consequentemente de escola. Lá, conheci Fernanda, que se tornou mais do que uma amiga, um amor fraterno, uma grande amiga que escolhi para ser prima, ora irmã.  No começo do ginásio (6°ano) nos aproximamos por falarmos muito, por gostarmos de história, da estudar e, acredito que naquele momento firmamos um pacto de entrarmos na universidade. Eu queria ser jornalista e falar de política (meus pais adoravam quando falava isso). Meus irmãos também estudaram na escola pública como eu estudada. Terminei o ginásio e fui fazer o curso de formação de professores, uma turma só de mulheres, escola no centro da Cidade e não foi uma escolha minha,  meu pai não poderia pagar escola e tentei um concurso para entrar na escola. No dia do resultado, minha mãe chorou ao ver que meu nome era o 36º da lista. Eu, Aline Martins, consegui uma vaga em uma escola pública de qualidade e seria professora. Não gostava da ideia e já me imaginava em outra profissão. Mas, não recusei a possiblidade de estudar no centro da cidade e em uma escola de referencia.

Além dos amigos que fiz no Chão de Estrelas – vi adolescentes que estudavam só para poder comer. E, estudavam, brincavam e vivenciam a escola por causa da comida, do lazer e da dedicação dos professores. Foi na adolescência que comecei a pensar que não existe pobreza que não esbarre em outras pobrezas maiores do que a nossa. Algumas abatem o estomago outras os sonhos. Presenciei ambas as pobrezas! Ao terminar o ensino médio, entrei no pré-vestibular para negros em carente no meu bairro na igreja católica com a minha mãe. A minha amiga Fernanda tinha estudado no mesmo pré e passou logo na primeira prova de vestibular. Eu me emocionei e vi que minha fez iria chegar. Nós firmamos um pacto. A vida andava difícil, governo desfavorável ao pobres, meus irmãos estudando, meu pai cada vez com menos condições de pagar aluguel e mesmo assim fiz o vestibular, mudei depois da prova e lembro que a situação econômica era tão complicada que a gente já não tinha o que comer direito. Meus irmãos continuaram estudando na escola pública!

Passou o natal e chegamos em 2001, e passei uma banca de jornal e vi meu nome na lista de aprovados na UFRJ – não acreditei, consegui usar o telefone público e ligar para a Universidade e realmente tinha passado para o curso superior. Passei! Passei! Minha família orou e agradeceu a Deus! Eu agradeci também. Meus irmãos felizes e eu via a possibilidade de mudança da família. Eu não entrei na universidade sozinha, levei para da minha família comigo, não de corpo, mas de esperança. Comecei a ser mais respeitada, era exemplo para todo mundo, meus irmãos tinham orgulho e meu pai estufava o peito pra dizer que estudava em uma universidade pública. Mudanças radicais.

Logo percebemos que estudar não era simples. Precisava de passagem, de comida, de dinheiro para xerox. A universidade estava em greve, meu pai era cobrador de ônibus, minha mãe vendia produtos numa revista de cosméticos. Eu deveria trabalhar para ajudar no sustento familiar, mas resolvi estudar e fui apoiada pela família. A universidade tinha alojamento, moradia estudantil, mas eu não tinha tempo para solicitar moradia, conheci uma amiga, A Suzana que me cedeu espaço dela.  Mulher preta que dividiu o pouco que tinha com outra mulher preta. Na mesma turma conheci Sabrina, mulher preta classe média que me recebia na casa, na vida e me ensinou a digitar e mexer no computador. Aproveitava e comia muito bem na casa da amiga, dormia de forma confortável, às vezes esquecia que a casa dela não era minha casa.

Na Universidade pública a vida foi melhorando. Entrei no sistema de bolsas da Universidade, era pouco, mas dividia o dinheiro com minha família. Usava parte para estudar e outro para ajudar nos custos da minha casa. O que comida? comida a base de farinha de trigo e muito pão. Foram anos comendo pão!

Em 2002, mudança de governo. Entrada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, poucos tempos a Universidade já tinha mais de um sistema de bolsas e eu aproveitei. Tinha bolsa de pesquisa do CNPq, pegava trabalhos por fora, consultorias, pesquisa de rua e ajudava a família. Meus irmãos estudavam, trabalhavam e a gente se ajudava. Meu pai adoeceu e cuidamos dele. Antes de morrer, disse ao meu irmão que o amava do jeito que el era: um homem diferente. Um avanço, homossexualidade era complicado. Meu pai já não se classificava como homem branco, minha mãe já mudava seu discurso e dizia que não iria se submeter aos mandos e desmandos dos homens. Meu irmão do meio investia na vida comercial e abria seu negócio, meus irmãos mais novos foram estudar culinária e a vida foi mudando. As nossas conquistas são mais simbólicas do que materiais, reconheço. Mas, o medo da fome, da rua, da miséria e de morrer ou perder um filho morto não era mais um fantasma.

Meu pai faleceu, com a certeza que estávamos bem, encaminhados e felizes pelas possiblidade e caminhadas.  Assim como meus irmãos. Eu já era funcionária pública e professora de Sociologia e trabalhava com consultorias e para iniciativa privada e nos projetos em favelas do Estado, com orgulho do que fazia. Entrava em greve e abertamente publico minhas inquietações nas redes socais, falo em microfone e uso o pouco conhecimento e experiência para formação de alunes.

A nossa vida foi mudando exatamente com o tempo da democracia foi se firmando. Nasci já na fragilidade da ditadura, cresci no fortalecimento da democracia. Até porque, Nenhuma democracia se transforma do dia para noite.   O fato é que percebi que eu, meus amigos, meus irmãos fomos procurando brechas, a gente foi adentrando as brechas que se abriam e fomos percebendo que as brechas estão ficando mais estreias. Desde 2013, retornei para as ruas para gritar, reclamar dos governos estadual e municipal. Gritei, briguei, apanhei e sabia que ainda podia mesmo que com muitos problemas e não totalmente firmada tinha alguma fé na democracia, nas instituições e nos principalmente na vontade do brasileiro em ver seus desejos concretizados. Já em 2016, com a retirada da presidenta Dilma Rousseff, após processo de golpe parlamentar, nas ruas e nas redes sociais gritamos Fora Temer! Fora Golpista. A Democracia estava muita desestabilizada, ela é existente com muitas fragilidades. A violência, as condenações de colegas militantes, engajados abalaram meus gritos, o tom da revolta foi se adaptando. Retornei a Universidade Estada do Rio de janeiro para fazer mestrado em 2017 para estudar assuntos que me representavam e que me constituíram como pessoa.  Vou estudar gênero, raça e sexualidade – já existia a criação dá inverdade do kit gay (kit que nunca existiu) foi uma criação mentirosa para abalar e trazer setores conservadores contra as políticas de inclusão dos LGBTQI+.

Ao voltar a UERJ me deparo com falta de pagamentos dos profissionais da Universidade como professores, técnicos e profissionais terceirizados como os da limpeza, meu salário como professora do ensino médio também estava atrasado e dos professores aposentados  que tiveram atrasos até do 13º salário. Neste caos, sem forças, sem dinheiro de passagem – a gente voltou para as ruas.

Professores, funcionários, até alguns pouquíssimos policiais se juntaram a manifestação – na margem da democracia muita gente se encoraja a gritar. Quando faltou dinheiro e condição física, psicológica e econômica voltei a reivindicar nas redes sociais.  Nas mensagens, sem nenhum temor de dizer o que queria.  Dando nomes aos políticos e partidos.  Em 2018, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi preso, o mundo todo rechaçou a prisão de um presidente com tão poucas ou nenhuma prova. O papa, a ONU, jornais internacionais repudiaram  sua prisão e eu e a rede social começou a publicar #Lulalivre e criticamos os jornais o STF, os juízes e todos que compactuaram com a prisão injusta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Esse longo ano de 2018, assassinaram na saída da ONG Casa das Pretas espaço que me fortelecia, que aprendi usar a palavra PRETA com orgulho – mataram em uma emboscada a Vereadora mulher preta, lésbica e militante pelos direitos humanos. A dor fragilizou meu corpo, nossos corpos, de tal forma que me pareceu a primeira grande mensagem de quem seriam os primeiros alvos do retorno da ditadura, que não será nos mesmos moldes do que a primeira. Mas, será com silenciamento e apagamento, custando a vidas dos mais pobres, pretos, favelados e LGBTQI+. Marielle simbolizava tudo isso. Todos nós.

A fragilidade me toma conta, mas mesmo assim fomos para rua, gritamos, brigamos e publicamos nas redes. Quem matou Marielle? Após a morte de Marielle ninguém foi preso, muitos suspeitos e nenhum culpado de fato. Nós deparamos com deboches desmerecimento da imagem da Marielle e críticas. Quanto às críticas cabem na democracia, mesmo sendo injustas.

Eu enquanto mulher preta, filha de mulher preta, irmã de homem preto e irmã de um homem preto gay. Me deparo criticamente e sinto o cheiro do passado que não vivi direito porque era apenas um bebê. Soube das historias, pelos livros, pelos meus de informação, pelos meus professores e pelos professores da universidade que foram torturados.

Hoje, existe um político eleito que discursa contra tudo que conquistei (afinal, que conquistamos) tudo que lutei (lutamos). É contra tudo que me representa como ser humano. Foi o candidato que intitulamos #elenão #elenunca, mas agora que eleito cria forças “tentáculos” em suas escolhas e articulações no governo e não sabemos o que o futuro nos reserva, só imaginamos. Mas, ainda continuamos indo para rua, fomos para rua gritar ele não! Fomos para rede social colocar nosso posicionamento. E nos articulamos de múltiplos modos.

Cada vez que retorno as ruas, lembro que foi com a universidade que aprendi a reivindicar, critiquei o sistema da universidade, critiquei a pouca representatividade preta na Universidade, foi neste espaço que fui me entendendo, compreendendo  a dimensão do significado de ser mulher preta. Eu sempre soube que era preta, mas não entendia o pesar disso. Foi nos afetos, na luta, na audição e na possibilidade de falar que fui entendendo o meu desencaixe no mundo e tentando tornar os meus espaços encaixáveis para pessoas como eu.

Algumas vezes, opto pelo grito, outros opto pelo abraço, pelo dialogo baixo, pela faixa, pela postagem, pela leitura e pela educação. Tenho múltiplas estratégias – todas possíveis e permitidas dentro da democracia. Criticáveis, todas elas o tempo todo. Quem foi que disse que é fácil viver numa construções de disputa de poder e em uma disputa dialética de poder. É evidente, sem nenhuma ingenuidade que sabemos que essa disputa é desigual, mas ainda é uma disputa e não uma dominação. Uma disputa tangida por privilégios – e, o que está e disputa são esse privilégios. A briga são pelas brechas que foram se alargando, cada um/uma de nós que foi passando pela brecha foi alargando e chamando mais um. Virou espelhamento. E, na lógica do espelhamento, do refletir como imagem e que surgiu um pânico.

O medo de novas representações de cores/raça, gêneros e classe representassem o Brasil. Medo do operário aliado aos pavores dos LGBTQI+ pudessem gritar, falar e entrar na disputa do poder de forma menos desigual. O que está em jogo é o medo de perder o privilégio de raça, gênero/sexualidade e classe (nesta ordem), mais do  medo transformou-se em pânico do surgimento de novas representações.

O medo do fim do establishment assombra as oligarquias e de suas representações que são antigas e sempre se mantiveram independentemente do modelo de governança, mas começamos e desestabilizados, desmontando a possibilidade do fim do establishment representativo.

O problema não concentra nos poucos que entraram nas brechas (sempre burlarmos o sistema e entramos pelas brechas), o pavor se direciona nas massas tomarem os espaços, de não precisarmos mais das brechas. Falo de uma massa de pessoas não brancas (ou que assumem outra identidade não branca), o medo/pavor da não heterossexualidade e medo do desestabilizar o poder do machismo (do poder patriarcal). E, sobretudo, não podemos e não devemos desconsiderar, é um desprezo pelos que sempre precisaram dessas brechas – e que hoje, cada vez mais forçam entradas mais largas, exigindo falas mais explicitas das suas/nossas necessidades e dos  exigindo direito básicos como afetos públicos.

Quando para muitos faltou a família, as redes de afeto de amigos, a militância foi fortalecendo os anseios e os discursos políticos, e civis. A democracia autorizou a gente querer mais e pensar em mais liberdades. A democracia dos autorizou e nos autoriza sonhar, criar redes de amplo aspecto, sem medos, sem amarras.

A democracia nos dar a possibilidade não temer e não nos envergonhamos da nossa trajetória e um processo política que cada alterações, mudanças e acertos…a democracia é um algo a se alcançar. É uma tipificação ideal que estamos em constante busca. A democracia nunca alcançada, findada, limitada é uma linha em um horizonte que percorremos que lutamos e que sonhamos. A democracia é um devir.

Enquanto os regimes não democráticos são fechados, nos amedrontaram, controlam o nosso sonhar, nosso sonhar são fechados, nos amedrontaram, controlam o nosso sonhar, nosso sonhar. Até porque sonhos que dão medo, não são sonhos. São pesadelos. Os pesadelos criam pânicos, tiram o sono e não dão medo de adormecer.

Tudo na vida e escolha por opção ou omissão. Tudo é ideologia. Algumas para inclusão outras para eliminação e exclusão. Eu fico com a possibilidade de sonhar, de cultivar, de gritar, sorrir e incluir.

Gosto de pensar em futuros, sem temer o presente.

Ofereço para todes amiges, para todes que resistem e para os que sonham com a grande utopia que é a real democráticia! E sempre haverá resistência… Não existe poder sem a capacidade de resistência.

por Aline Martins – Mestranda em Educação (UERJ)


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