quarta-feira, setembro 22, 2021
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Nina Simone salvou a vida de Ledisi, e agora a cantora retribui com um novo disco

Mahalia. Patti. Gladys. A cantora de soul e jazz Ledisi recentemente estrelou como cada uma dessas emblemáticas cantoras negras, na telona e na telinha. Mas Nina Simone é a cantora que salvou sua vida, quase 20 anos atrás.

“Ouvi Nina pela primeira vez lá por 2003”, recordou Ledisi, de 49 anos, em uma recente entrevista por vídeo de sua casa em Los Angeles. Ela estava usando uma camiseta preta de mangas compridas em que se lia “spiritual gangster”. “Eu estava sentada na cadeira de balanço em minha varanda em East Oakland e me sentia deprimida. Já tinha gravado dois discos, mas tinha contas atrasadas, tinha acabado de me divorciar, odiava aquele bairro, e minha sensação era a de que eu não estava crescendo. E por isso decidi. ‘É hoje que deixo este mundo’.”

Enquanto contemplava sua morte, Ledisi foi interrompida por uma canção no rádio –a versão de Simone para “Trouble in Mind”.

“Fiquei arrepiada”, disse Ledisi entusiasticamente, imitando as mãos de Simone ao piano e citando a letra que ela estava cantando. “Cabeça cheia de problemas/ Estou triste/ Mas não estarei sempre triste/ Porque o sol um dia/ vai brilhar para mim.” Ledisi disse que chorou forte e, enquanto a canção tocava, começou a se sentir melhor. Ela sabia que sobreviveria àquele dia. “Foi quando Nina e eu nos conhecemos.”

Ledisi lançou um tributo sobre a mulher que pôs fim ao seu desespero, com “Ledisi Sings Nina”, um disco que traz sete das canções mais populares de Simone recriadas com arranjos orquestrais, jazzísticos e pop. As gravações mostram a diversidade e profundidade do talento musical de Simone e o alcance espantoso da voz de Ledisi.

Ela parecia predestinada a essa carreira, que já dura duas décadas. Nascida Ledisi Young, em Nova Orleans, a cantora descende de uma longa linhagem de músicos negros. Sua mãe, Nyra Dynese, era cantora de soul; seu padrasto, Joseph Pierce 3º, era baterista; e seu pai biológico, Larry Saunders, era filho do cantor de blues Johnny Ace e ele mesmo era cantor, mais conhecido pelo single “On the Real Side”, que ele lançou como “o profeta do soul”.

Quando Ledisi apareceu no palco pela primeira vez, com a Orquestra Sinfônica de Nova Orleans, aos oito anos de idade, foi tanto uma revelação quanto uma continuação. Cinco anos depois, sua família se transferiu para Oakland, onde ela criou uma banda de funk, Anibade. Em 2000, ela lançou seu primeiro disco solo, “Soulsinger: The Revival”, e pouco mais tarde um segundo álbum, “Feeling Orange but Sometimes Blue”, muito elogiado pela crítica e que valeu a ela uma base leal de fãs e posteriormente um contrato com a gravadora Verve.

Ledisi terminou rotulada como vocalista de jazz e sempre foi muito respeitada, mas ocupava um nicho em uma indústria que não sabia bem como comercializar seu trabalho. Ao aparecer na primeira cerimônia do prêmio Black Girls Rock!, da rede de TV BET, em 2010, ela e as sensações do R&B Marsha Ambrosius, Jill Scott e Kelly Price roubaram o show com sua interpretação do hino “Four Women”, de Simone.

Ledisi só tinha um pedido –que ela cuidasse do encerramento e clímax da canção, a parte da letra que fala sobre Peaches, a personagem mais feroz nesse épico sobre quatro mulheres negras, cada qual distinta por sua idade, cor de pele e resistência a traumas sexuais e raciais.

Quando Ledisi conseguiu seus 34 segundos de destaque, ela “fez valer”, disse, entoando “my name is Peaches!” com determinação tão feroz e espírito tão subversivo que terminou por conquistar muitos convites para retornar aos palcos da BET.

“Desde então, venho Nina-ndo”, explicou Ledisi. Em 2017, ela incorporou canções do repertório de Simone ao show que fez com a Orquestra Sinfônica Nacional no Kennedy Center. No ano seguinte, ela comandou um tributo a Simone em Nova Orleans com o baterista Adonis Rose e sua New Orleans Jazz Orchestra, e depois fez o show “Nina & Me”, no Apollo Theater, um mês mais tarde.

Em 2019, ela começou a se apresentar com seu one-woman show, “The Legend of Little Girl Blue”, sobre ela, sua mãe e Simone. E, poucos meses mais tarde, prestou nova homenagem à cantora se apresentando com a Metropole Orkest e o maestro Jules Buckley no Royal Albert Hall, de Londres. Em dezembro do ano passado, a rede de TV pública americana PBS transmitiu o primeiro especial de TV de Ledisi, “Ledisi Live: A Tribute to Nina Simone”.

Produzido por Rex Rideout, que colabora com Ledisi há muito tempo, “Ledisi Sings Nina” é seu décimo disco de estúdio e seu segundo na gravadora Listen Back, que ela mesma criou. E o lançamento acontece depois de um momento de reconhecimento que muita gente via como merecido há muito tempo. Depois de receber 13 indicações ao Grammy ao longo dos anos, em março ela conquistou o prêmio pela primeira vez, como melhor cantora de R&B tradicional, por “Anything for You”. E o lançamento representa também um novo marco –o retorno de Ledisi às suas raízes como uma cantora de soul e jazz, que no final da década de 1990 vendia discos diretamente aos fãs depois de seus shows, ou em lojas de discos.

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1988 – Nina se apresenta no Brasil pela primeira vez, no Rio e em SP, no extinto festival Free Jazz. (Imagem: Juvenal Pereira/Folhapress)

“É um momento de fechar o círculo, para ela”, disse Rideout, em entrevista por telefone, demonstrando entusiasmo evidente. “Na época, ela era ferozmente independente e não tinha contrato com uma grande gravadora, mas vendeu 40 mil ou 50 mil discos por conta própria, carregando no porta-malas do carro.” Ele acrescentou que “agora temos o streaming, a mídia social, e os artistas podem se conectar diretamente com a audiência”. “Ela estava adiante de sua época.”

John Legend recorda ter ficado muito impressionado com Ledisi em 2002, quando abriu o show dela na casa noturna nova-iorquina SOB’s. “Como vocalista contemporânea, não há quase ninguém no mundo, eu acho, que cante com a competência dela”, disse Legend, em entrevista. “Em termos de alcance, destreza, clareza, versatilidade, ela pode fazer qualquer coisa que deseje. É uma das grandes cantoras do planeta, ponto.”

A voz de Ledisi é poderosa mas, tecnicamente, não é muito semelhante à de sua inspiração, Simone, conhecida por seu tom grave e alcance limitado em termos de oitavas, enquanto Ledisi esbanja calor no palco e tem alcance de quatro oitavas, além de se sair bem tanto ao gritar o blues quanto no scat-singing sofisticado, nas interpretações sedutoras ou nas harmonias discretas.

No entanto, quando Buckley estava à procura de uma vocalista com a garra e a compenetração associados a Simone, para cantar com a Metropole Orkest, uma orquestra de jazz e pop da Holanda, Ledisi foi sempre sua primeira escolha.

“Eu estava realmente tentando encontrar uma artista capaz de balancear o poder de uma imensa orquestra por trás dela, e a capacidade para elevar a orquestra, e a plateia”, ele disse. “Ela conseguiu lançar luz sobre o trabalho de Nina mas não como imitação, e sim como algo novo e refrescante. E isso acontece porque ela não imita e deixa sua marca pessoal.”

“I’m Going Back Home” costuma ser cantada como uma faixa de gospel animada, mas em “Ledisi Sings Nina” se transforma em uma celebração escancarada. “É parte de nossa tradição por aqui terminar com uma canção tocada pelas bandas de rua de Nova Orleans, para podermos dançar, sair do palco e nos juntarmos ao público, e depois retornar”, disse Rose, da New Orleans Jazz Orchestra. Ledisi “simplesmente traz os componentes espirituais e intangíveis, à música e ao seu desempenho no palco”.

Embora Mahalia [Jackson], Patti [LaBelle] e Gladys [Knight] também sejam parte dela, Ledisi disse acreditar que sua carreira musical e como atriz teria sido impossível sem Simone.

“Quero continuar a amar essas partes de mim porque, se não as exercitar, posso perder”, ela disse. “Mas esse projeto e essa jornada com Nina mudaram minha vida, me deram a liberdade pela qual eu estava procurando. Depois disso, não preciso mais pedir que não me rotulem. A música o faz em meu lugar.”

Tradução de Paulo Migliacci

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