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“O futuro não está no Vale do Silício. Está na quebrada”

Monique Evelle é considerada uma das principais vozes do empreendedorismo negro no Brasil. Em entrevista, a jovem de 24 anos fala sobre projetos para fortalecer iniciativas inovadoras das periferias

Por Patrícia Berton e Marisa Adán Gil, do Pequenas Empresas Grandes Negócios

Monique Evelle deve lançar dois livros até o fim do ano (Foto: Pablo Saborido)

A os 5 anos, Monique Evelle começou a ler. Aos 10, já ensinava crianças da periferia de Salvador a ler e escrever as primeiras palavras. Aos 16, ainda no colégio, criou o Desabafo Social, ONG com foco em educação e direitos humanos que causaria impacto sobre milhares de jovens e adolescentes em todo o país.

Mais tarde, veio a consultoria Evelle, que ensina empresários a lidar com a diversidade e gera empregos para negros, mulheres e membros da comunidade LGBT.

Hoje, aos 24 anos, Monique é considerada uma das principais vozes do feminismo negro no Brasil, com iniciativas de destaque na área de empreendedorismo. Agora, coloca no ar um curso de modelagem de negócios, voltado para comunidades de baixa renda. Até o final do ano, lança dois livros para donos de negócios.

E, todas as semanas, ela promove encontros de formação empreendedora em Salvador. “As pessoas chegam a mim com ideias incríveis”, diz Monique. Para ela, a verdadeira inovação vem da periferia, e não das startups. “O futuro não está no Vale do Silício. Está aqui mesmo, na quebrada.”

Para Monique Evelle, a gambiarra, tão associada à periferia, é inovação (Foto: Pablo Saborido)

Você tinha só 16 anos quando criou o Desabafo Social. Como isso aconteceu?
O Desabafo foi resultado de todas as negativas que eu recebi, tanto na escola, de colegas e professores, quanto na vida, por ser negra. Eu estudava em uma escola pública, mas quase todos os alunos eram brancos e vinham de escola privada.

Alguns chegavam de motorista particular. Embora eu fosse inteligente e tirasse boas notas, não conseguia fazer parte dos grupinhos. Em vez disso, ouvia piadas sobre o meu cabelo, ou comentários ofensivos sobre a minha cor. Quando fiquei sabendo das eleições para o grêmio da escola, decidi me candidatar com a chapa Desabafo Social. Na época, a diretora me disse que a outra chapa ganharia porque o menino, que era branco, tinha ido para os Estados Unidos.

Aquilo doeu muito. Não conseguia entender porque o fato de ele ser branco e rico importava. Até que caiu a minha ficha. Eu sempre tinha acreditado que era tímida. Mas percebi que não, na verdade era silenciada pelo racismo. Ganhar a eleição do grêmio foi a minha resposta a esse silenciamento. Naquele momento, tomei uma decisão: ‘Eu não vou mais ficar quieta’.

Mas o Desabafo foi muito além do grêmio da escola.
Quando ganhei a eleição, já estava no terceiro ano do ensino médio. Daí entrei na universidade e pensei ‘o Desabafo precisa continuar, mas agora como uma ONG’. Juntei um grupo de pessoas e formamos um coletivo jovem para disseminar direitos humanos no cotidiano de crianças, adolescentes e jovens. Naquele momento, o Desabafo deixou de ser meu e passou a ser de outras pessoas.

Queria mostrar para gente igual a mim que era possível criar um ecossistema de educação e comunicação em direitos humanos. E queria que mulheres na minha situação entendessem que não são apenas parte do problema, mas também da solução.

Entre 2012 e 2016, a organização cresceu muito e chegou a atuar em 22 estados. Como vocês estão hoje?
No começo, o foco maior era em educação em direitos humanos. A base sempre foi Salvador, mas levávamos nossos programas para escolas em todo o Brasil. O problema é que, como crescemos muito rápido, e trabalhávamos com voluntários, as ações começaram a perder qualidade.

Hoje ainda fazemos projetos em escolas, mas vamos a locais selecionados, com uma equipe especializada. Acredito que assim funciona melhor. Mas o foco maior do Desabafo, hoje, é o empreendedorismo. Dentro do braço Inventividades, realizamos encontros de formação em empreendedorismo para pessoas na base da pirâmide. No curso, as pessoas chegam com ideias incríveis, que a gente transforma em modelo de negócio.

Também temos um projeto importante em Salvador, voltado para o atendimento psicológico de pessoas negras, mulheres e LGBT, que estão mais vulneráveis e não têm dinheiro para pagar. E tem ainda a parte de produção de conteúdo, que é feita no Rio. Produzimos conteúdo sobre direitos humanos, feminismo negro e empreendedorismo. Então estamos em Salvador e no Rio, mas temos uma equipe que circula por outras cidades, no Brasil inteiro.

Monique Evelle trabalha para levar luz ao “Vale do Silêncio” (Foto: Pablo Saborido)

Você também é empreendedora. Por que decidiu fundar a Evelle Consultoria, em 2017?
A Evelle surgiu porque as empresas começaram a me chamar para dar palestras e prestar consultoria em diversidade e inovação. Então vi uma oportunidade de abrir um negócio que atuasse em três áreas.

A primeira é a curadoria de empregos: fazemos a ponte entre 5 mil profissionais criativos espalhados pelo Brasil, de diferentes áreas, gêneros e idades, e as empresas que estão recrutando. A segunda é a microaprendizagem. Produzimos conteúdo semanal para a formação de profissionais, com foco em habilidades do futuro. E o terceiro braço é o da consultoria.

Como é esse trabalho com as empresas? Sente que existe um interesse real em adotar uma política de diversidade?
É assim: há dez anos, tivemos a era da sustentabilidade, então todo mundo tinha de ser verde. Agora só se fala de diversidade. Mas a maioria das pessoas não quer lidar com o diverso. Porque isso significa abrir espaço para uma pessoa que pensa diferente de você, o que é assustador.

Para muitos empresários, empregar uma mulher negra, um funcionário LGBT, é algo muito complexo. Na nossa plataforma, 78% dos profissionais são negros. Então, quando fazemos curadoria de emprego, é natural que a maioria dos candidatos seja negra. Mas muitas empresas ficam na dúvida se querem contratar essas pessoas. Temos de mostrar a eles que pessoas negras, mulheres e LGBT são tão incríveis quanto as não negras, hétero, do sexo masculino.

E ajudamos os líderes a entender que aquilo não é apenas uma questão de justiça social, é uma questão de lucro. Quanto mais pessoas diversas no time, mais dinheiro você ganha. Trabalhamos com grandes empresas, de alcance nacional ou até mesmo global. Dos dez clientes que atendemos hoje — todas empresas grandes, de alcance nacional ou global —, vejo que duas estão avançando no tema. Eles têm uma preocupação genuína de trazer diversidade para a empresa.

As outras chegaram à conclusão de que não podiam ficar para trás, então me pedem para resolver o problema. Quando explico como funciona o meu trabalho, eles me dizem: ‘Não, quero só contratar preto mesmo, tá ótimo’.

Você não para de abrir negócios: tem a Kumasi, o curso de negócios, o aplicativo de comunicação corporativa…
A Kumasi está parada agora. Sentimos necessidade de dar uma remodelada, mas vamos relançar no segundo semestre. Antes disso, agora em maio, vou lançar um curso online de modelagem de negócios. Juntei as maiores dúvidas dos empreendedores e coloquei ali.

Quem se inscreve pode interagir com outros participantes, receber retorno nos grupos e fóruns. Neste momento estou trabalhando para juntar todos os braços de negócio, e também o Desabafo Social, dentro do guarda-chuva da Evelle. A proposta é criar uma holding de inovação, curadoria e aprendizagem.

Como a Conta Black se encaixa nisso tudo?
É uma empresa à parte, que criei no fim de 2017, em São Paulo, ao lado de mais dois sócios. Em 2018 rodamos a versão beta e captamos mil correntistas. Agora vamos colocar a fintech na rua. Nosso diferencial é oferecer serviços bancários sem burocracia para a base da pirâmide, associados à educação financeira.

O nome é uma ironia com a mania dos bancos de criar esses cartões chiques para clientes premium, que ganham mais de R$ 100 mil por mês, e ignorar as pessoas negras. Então, falamos que, no nosso banco, todo mundo pode ter Conta Black!

Hoje, você se vê mais como empreendedora ou como ativista?
Sou as duas coisas. Minha missão é dar voz às pessoas que não puderam se expressar como eu pude. Mas eu evito usar a palavra ativista, porque isso faz com que as pessoas me coloquem numa caixinha. Quando me apresento como empreendedora, elas me ouvem um pouco mais.

Só que no meu empreendedorismo eu faço ativismo, entende? Eu trabalho para que as pessoas à margem da sociedade empreendam ou consigam um emprego. Isso é uma forma de ativismo. Mas eu sou uma mulher de negócios. É assim que eu me vejo hoje. Tanto que estou escrevendo dois livros sobre empreendedorismo, para serem lançados ainda neste ano.

Qual o tema dos livros?
O primeiro discute um pouco da história do empreendedorismo no Brasil, de um jeito mais teórico. Fiz uma pesquisa e descobri que os primeiros negócios sociais no Brasil foram criados por escravos, no período anterior e logo após a abolição da escravatura. Esses escravos juntavam dinheiro para pagar a alforria de outros escravos. Era um negócio social, com propósito, gestão, estrutura.

E esse fato ajuda a acabar com o mito da que a população negra é desorganizada, incapaz de empreender. Então o livro segue uma linha histórica. O segundo é voltado para as empreendedoras e traz uma Monique mais sincera, dando dicas com base na minha trajetória, nas coisas que eu estudei, nas coisas que eu já ouvi. Eu trago dicas e realidades. Não romantizo o empreendedorismo. Mostro que as mulheres negras sofrem, sim, com o machismo e o racismo, mas que há muitas coisas que a gente pode resolver por conta própria.

Você costuma dizer que a verdadeira inovação vem da periferia, e não do Vale do Silício. Acredita mesmo nisso?
Com certeza! O futuro está na periferia. Eu cheguei a essa conclusão depois de fazer duas viagens, entre o final de 2017 e o início de 2018. A primeira foi para o Vale do Silício. Todo mundo dizia que eu tinha de conhecer para entender o que é inovação. Então fui lá para isso, e para colocar à prova esse mito de que é só ter uma boa ideia para montar um negócio e conseguir um investidor.

Fiquei lá quatro meses e descobri que é tudo mentira. Tem muita gente com ideias incríveis, e muitos investidores, só que não funciona desse jeito. O dinheiro acaba indo só para alguns, gente que estudou em Harvard ou Stanford, por exemplo. Então esse é um discurso vendido em palcos para mostrar que ‘se fulaninho conseguiu, você consegue também’. E, olhando as empresas que conseguem investimento, não vi nada tão inovador assim.

Tem milhares de pessoas no mundo fazendo as mesmas coisas. Só que não têm a mesma escala, visibilidade e potência que teriam se estivessem no Vale. Na volta para o Brasil, decidi fazer uma viagem de quatro meses pelas periferias de cinco cidades do Brasil [Recife, Brasília, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro], que chamei de Vale do Silêncio.

Por que Vale do Silêncio?
Porque ali ficam as pessoas que realmente estão criando coisas novas, que ninguém vê. É na diversidade que isso acontece. Dizem que o povo da periferia improvisa, faz gambiarra. Mas o que todo mundo chama de gambiarra eu chamo de inovação.

Tem muita coisa sendo feita aqui há anos, e que só agora o Vale do Silício está descobrindo. Então, estamos dando visibilidade para quem? É essa a pergunta. De um lado, tem um CEO falando que, para sobreviver ao futuro, você precisa saber programar. E, do outro, tem Mãe Beth de Oxum, que há mais de cinco anos ensina programação para adolescentes e jovens da periferia de Olinda.

Então, quem chegou primeiro? Todas essas coisas que eles dizem, tem de fazer mais com menos, ser colaborativo, ter empatia… a periferia é tudo isso. Todas as tendências são ditadas pela periferia, porque as melhores ideias surgem da ausência. E essa ausência vira abundância.

Gostamos de ler histórias sobre estudantes que criaram um produto na garagem de casa, porque são confortáveis. Mas ter uma garagem para criar um produto é um luxo. Os inovadores da periferia precisam trabalhar, estudar e ainda criar uma ideia inovadora. E eles não têm investidores. Não têm dinheiro para errar. Talvez, se tivessem, estariam saindo vários unicórnios da quebrada.

Você só tem 24 anos, mas já realizou muita coisa. Como avalia o impacto que causou até agora? E qual impacto ainda quer causar?
Impacto é algo muito intangível. Mas, pensando no retorno que eu recebo, acho que o meu maior impacto é colocar as pessoas em movimento. Uma vez levei uma empreendedora incrível para um evento de mentoria. Um ano e meio depois, ela me procurou para dizer que enfrentou muitas dificuldades, engravidou, mas nunca desistiu do negócio, e que eu era a responsável por isso.

Outras mulheres já me disseram a mesma coisa. Então é isso que eu faço: coloco as pessoas em movimento, e não deixo que desistam. Então quero continuar fazendo isso. Mas também quero ter impacto econômico. Quero ajudar a diminuir o desemprego. Meu sonho é que todas as pessoas que passem pelas minhas plataformas consigam realizar o que sonham. Outro desejo grande é virar escritora, para poder compartilhar com as pessoas as andanças que eu faço pelo mundo.

Você ainda é vítima de racismo?
Não tem um dia em que não passe por uma situação de racismo. Tem manhãs em que já saio de casa sabendo que vai dar merda. E sempre acontece. Dependendo da situação, respondo com humor ou fico quieta.

Às vezes eu chego a um evento, vejo o meu nome na lista, mas a pessoa diz que eu não estou na lista. Aí chega alguém da organização, me vê e não acredita que eu não consegui entrar. Também já aconteceu de alguém achar que eu era a mulher do cafezinho. Só porque tenho dread, sou nova, sou negra retinta. Isso é racismo.

Em suas palestras, você costuma citar Marielle Franco como uma de suas inspirações. Como ela impactou a sua vida?
Foi quando eu viajava pelas periferias do Brasil que recebi a notícia da morte da Marielle [Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL, assassinada aos 38 anos de idade. Socióloga e ativista de direitos humanos, foi presidente da Comissão da Mulher na Câmara do Rio e integrava a comissão que investigava abusos das Forças Armadas e da polícia durante a intervenção federal na Segurança Pública do estado].

Fiquei trancada em um quarto de hotel durante dois dias, sem saber o que fazer da minha vida. Pensei, vou desistir, acabou tudo pra mim, não adianta nada o que eu faço, não faz sentido nenhum continuar. E também pensei que alguém podia dizer ‘Ah essa menina aí não dá’, e querer me matar. Foi muito desesperador. Mas, com o tempo, fui refletindo sobre isso e passei a entender a importância do que eu estava fazendo. Alguém precisa continuar essa luta, para que as pessoas entendam que podem reagir às opressões. Marielle, para mim, representa uma inovação política.

E toda inovação causa estranhamento. Então mataram a Marielle para fazer a manutenção do que já existe. De certa forma, eu me vejo nela, tentando mudar as coisas, enquanto as pessoas querem fazer a manutenção dos velhos costumes. Por isso eu entendo a importância de estar viva para continuar fazendo o que eu faço. No final, a história dela serviu como um alerta: ‘Continua, mas continua viva, Monique’.

 

 

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