O voluntarismo como substituto da luta de classes

 
Por Diogo Costa

O ‘PREDOMÍNIO DA VONTADE’, OU, O IDEALISMO COMO SUBSTITUTO DA LUTA DE CLASSES – Há uma linha de raciocínio presente em alguns setores da esquerda que é simplesmente idealista, até mesmo liberal. 

Qual seja, esse raciocínio de que falta “vontade política” ao governo federal ou a Dilma para implementar determinadas reformas. Defendem alegremente o ‘predomínio da vontade’ como mola propulsora das transformações sociais! 

Esse pensamento liberal idealista despreza e descarta a análise concreta, real e objetiva sobre correlação de forças, hegemonia e conjuntura, por exemplo, e troca essa análise pelo ‘predomínio da vontade’… 

Certamente o mundo não é comunista hoje porque faltou ‘vontade política’ para os mais variados e destacados dirigentes comunistas que existiram na face da Terra nos últimos cento e cinquenta anos! 

Ou talvez tenha faltado ‘vontade política’ para Jango, quando o mesmo quis implementar as Reformas de Base, interrompidas pelo golpe de 64… Quem sabe o PSTU ou o PCB ainda não tenham feito a revolução social no Brasil por falta de ‘vontade política’! Enfim, esse raciocínio pueril dos liberais idealistas, travestidos de socialistas, é dose para mastodonte! 

É uma tese muito bonita, tão bonita quanto inútil, pois parte da premissa de que a esquerda joga sozinha, contra nenhuns adversários. 

Parte da premissa de que a direita não existe, de que os conservadores são apenas obra da imaginação coletiva de paranoicos ou uma peça de ficção científica. 

No reino encantado do ‘predomínio da vontade’, bastaria utilizar a ‘vontade política’ para empreender reformas estruturais ou até mesmo para empreender um processo revolucionário. 

Ou seja, é um mundo onde ninguém se opõe a nada. É um raciocínio que despreza o materialismo histórico e a dialética e os substitui pela boa vontade dos revolucionários homens e mulheres de esquerda! 

O pior é que esse tipo de análise, incrivelmente rasa, pode ser aplicada por qualquer pessoa ou grupo político, sem distinção de cores ideológicas. 

Militantes de direita, de esquerda, anarquistas, trabalhistas, comunistas, socialistas, social-democratas, monarquistas, republicanos, positivistas, conservadores, liberais, liberal-democratas, enfim, todos podem desfiar seus rosários de reclames e queixumes sobre a falta de ‘vontade política’ de seus dirigentes! 

Afinal de contas, no reino encantado onde o ‘predomínio da vontade’ é o elixir miraculoso que move a humanidade, é lícito afirmar que não são as relações concretas e materiais de uma determinada época que moldam as lutas entre as distintas classes sociais, mas sim os homens dotados de férrea vontade… 

Munidos, obviamente, de uma varinha mágica de condão e sem encontrar oposições nenhumas, advindas de outros homens, também dotados de férreas vontades. 

No reino encantado dos liberais idealistas, a direita inexiste, e o mundo ainda é capitalista por ‘falta de vontade’, não porque a disputa política real se dá no choque das ideias, mas, principalmente, no choque (muitas vezes violento) entre classes sociais distintas e com interesses antagônicos e irreconciliáveis!

A propósito dessa fictícia tese do ‘predomínio da vontade’, cumpre trazer à baila um trecho dos escritos de Karl Marx, presente no livro Contribuição À Crítica Da Economia Política, de 1859:

“…O resultado geral que se me ofereceu e, uma vez ganho, serviu de fio condutor aos meus estudos, pode ser formulado assim, sucintamente: na produção social da sua vida os homens entram em determinadas relações, necessárias, independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada etapa de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. 

A totalidade destas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se ergue uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem determinadas formas da consciência social. O modo de produção da vida material é que condiciona o processo da vida social, política e espiritual. 

Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, inversamente, o seu ser social que determina a sua consciência. Numa certa etapa do seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que é apenas uma expressão jurídica delas, com as relações de propriedade no seio das quais se tinham até aí movido. 

De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações transformam-se em grilhões das mesmas. Ocorre então uma época de revolução social. Com a transformação do fundamento econômico revoluciona-se, mais devagar ou mais depressa, toda a imensa superstrutura. 

Na consideração de tais revolucionamentos tem de se distinguir sempre entre o revolucionamento material nas condições econômicas da produção, o qual é constatável rigorosamente como nas ciências naturais, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em suma, ideológicas, em que os homens ganham consciência deste conflito e o resolvem. 

Do mesmo modo que não se julga o que um indivíduo é pelo que ele imagina de si próprio, tampouco se pode julgar uma tal época de revolucionamento a partir da sua consciência, mas se tem, isso sim, de explicar esta consciência a partir das contradições da vida material, do conflito existente entre forças produtivas e relações de produção sociais.”

Após a citação a Karl Marx, finalizo. É justamente por causa de um tipo de análise idealista e romântica que alguns setores de esquerda se isolam em seus próprios guetos, fazendo do sectarismo e do principismo os seus dogmas infalíveis. Haja esforço para espremer a realidade concreta e objetiva dos fatos e fazê-la caber em íntimos sonhos, desejos ou devaneios!

É a vanguarda do espelho, que só convence a si mesma em frente ao próprio espelho mágico, trazido d’algum aprazível, ideal e liberal reino encantado.

 

Fonte: Luis Nassif Online

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