Onde estão os cientistas negros?

Pretos, pardos e indígenas somam 7,4% dos docentes de pós-graduação das ciências duras no Brasil

“Mas se adotarmos cotas, corremos o risco de perder o aluno-padrão Unicamp.” Eu ouvi essa frase em 2015, numa das palestras sobre ações afirmativas que proferi na Universidade de Campinas. À época, um grupo de professores divulgava as políticas afirmativas nos programas de pós da instituição com o objetivo de aumentar a adesão a elas. A frase me foi dita por um docente de um renomado programa de pós-graduação das ciências duras, e que me pareceu sinceramente preocupado com a qualidade de seus estudantes.

Iniciei depois disso uma pesquisa imprecisa, assistemática e impressionista sobre as características do chamado “aluno-padrão Unicamp”. A cada visita a um instituto ou programa de pós, eu interrogava os presentes sobre seus atributos. Inteligência, disciplina, criatividade, rigor, sagacidade, dedicação etc. eram predicados mencionados aqui e acolá. Mas eram dois outros atributos que me chamavam a atenção nesse conceito dos cientistas unicampistas de berço.

Primeiro, a premissa implícita de que o “aluno-padrão Unicamp” já se encontrava formado na sociedade e à universidade caberia apenas identificá-lo. De fato, os editais de seleção da pós-graduação costumam apresentar em todas as universidades inúmeras fases que abrangem da prova escrita à análise de currículo, da prova de línguas estrangeiras à entrevista. Isso mostra a obsessão, em certa medida justificada, com a excelência acadêmica. Mas a ideia subjacente não era que cabia à universidade formar quadros de nível superior, mas sim selecioná-los na sociedade, como se suas qualidades já estivessem dadas geneticamente.

Segundo, a conclusão lógica era a de que o aluno-padrão Unicamp não era negro, já que àquela época a universidade ainda era hegemonicamente branca. É evidente que aquele professor, nem nenhum dos que consultei informalmente, acreditava na cor da pele como índice de inteligência. Porém, se o “aluno-padrão Unicamp” se parecia com aqueles que eu via circulando no campus, ele certamente não seria negro.

A obsessão com uma visão fetichizada dos dotes acadêmicos não faz apenas com que os processos seletivos se tornem absurdamente competitivos e complexos, mas também preconceituosos. Em uma seleção composta de várias fases, na qual muitos competem por poucas vagas, é muito comum chegar a situações de empate ou quase empate entre algumas candidaturas. E, nesses casos, a decisão passa muitas vezes pela inflação de qualidades marginais: “esse candidato usou melhor a crase no projeto”, ou “esse outro fez um curso de férias em Londres”, ou ainda “aquele pareceu mais tranquilo na entrevista”. Não raro atributos laterais como esses acabam decidindo quem entra e quem sai.

Numa estimativa condescendente, produzida pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA), pretos, pardos e indígenas somam cerca de 7,4% dos docentes de pós-graduação das ciências duras no Brasil, um país com 56% da população composta por esses grupos. Em algumas áreas como a geociências, eles não chegam a 4%. Para quem conhece os corredores da ciência, esse dado infelizmente não chega a ser chocante: quanto mais tecnológico ou de ponta o instituto científico, menos negros e negras são vistos em seu interior.

“Se o aluno-padrão Unicamp não tem uma cor predefinida, a Unicamp está desperdiçando inúmeros alunos inteligentes, disciplinados, sagazes etc., mas que nasceram pobres e/ou negros.” Essa foi minha resposta naquela palestra há oito anos. Hoje, a Unicamp possui um dos mais complexos e efetivos sistemas de ação afirmativa na graduação e na pós-graduação do Brasil e, ao que tudo indica, continua tendo uma performance invejável e formando cientistas de excelência, assim como várias outras universidades que seguiram a mesma proposta.

A diversificação não prejudica a produção de ciência de qualidade, ao contrário. Ela ajuda a desmascarar a fé equivocada em concepções fetichizadas de mérito, e assim melhora o seu funcionamento. Os cientistas negros já nasceram e estão aí no mundo, resta incluí-los na ciência.

*

Luiz Augusto Campos é professor de sociologia do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ, editor-chefe da revista acadêmica DADOS e coordenador do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa, o GEMAA.

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