PMs não citaram ação social em depoimento sobre morte de jovem na Providência

Dois PMs investigados pelo homicídio do jovem Rodrigo Cerqueira, de 19 anos, durante operação que interrompeu a distribuição de cestas básicas no Morro da Providência, no Centro do Rio, no último dia 21, não citaram a ação social no relato que deram à Polícia Civil no dia do crime. O soldado Eduardo de Souza Paiva e o cabo Rafael Santos Amaral, ambos lotados na UPP da Providência, alegaram, na Delegacia de Homicídios (DH), que “faziam patrulhamento para repreender o tráfico de drogas” num local próximo à Rua Rivadávia Corrêa e que “perceberam uma correria de um número elevado de pessoas, talvez uns seis suspeitos”. De acordo com os relatos, “ao avistarem a guarnição, os suspeitos efetuaram disparos de arma de fogo, o que foi imediatamente revidado”.

Ainda segundo os PMs, “após cessarem os disparos, os policiais progrediram e logo encontraram o corpo”. Ao todo, os agentes afirmam ter dado sete tiros na ocasião com suas pistolas, que foram apreendidas pela DH e serão periciadas.

Em nenhum momento, os agentes afirmam que viram pessoas distribuindo cestas básicas no local. Voluntários que entregavam mantimentos para famílias de alunos do Colégio Estadual Reverendo Hugh Clarence Tucker e do Pré-Vestibular Machado de Assis, ambos na Providência, afirmam que a operação aconteceu em meio à ação social, que teve que ser interrompida quando o Rodrigo foi baleado. “No exato momento da ação que matou o Rodrigo, alguns professores, apoiadores e estudantes estavam distribuindo cestas básicas às famílias mais necessitadas de alunos e alunas que estudam na escola e também no Pré-Vestibular Machado de Assis”, diz uma nota publicada na página do pré-vestibular nas redes sociais.

Os PMs também não afirmam ter visto Rodrigo atirar em sua direção. Eles somente alegam que encontraram o jovem caído no chão, inconsciente, após terem trocado tiros. Os PMs afirmaram, na DH, que encontraram uma pistola e drogas junto ao corpo do jovem. A mãe de Rodrigo negou que ele fosse traficante, quando foi liberar o corpo do filho no Instituto Médico-Legal (IML). Ele estava matriculado no 2º Ano do Ensino Médio do Colégio Reverendo Tucker e também fazia bico como ambulante.

— Meu filho era querido. É só perguntar para os professores da escola onde ele estudava. Meu filho nunca parou numa delegacia. É porque eles (policiais) entram no morro e acham que todo negro tem envolvimento com alguma coisa. Eles forjam os negros, eles forjam. No morro todo mundo é bandido para eles. Ele era meu amigo, uma pessoa carinhosa, querida — lamentou Verônica Maria.

Após os tiros, os agentes levaram Rodrigo, baleado, para o Hospital municipal Souza Aguiar, onde o óbito foi declarado. Rodrigo foi morto apenas três dias após o homicídio do adolescente João Pedro Mattos Pinto, durante operação das polícias Civil e Federal no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo.

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