Por um Natal em que os homens lavem a louça

Natal é para ser uma época de amor, família, fraternidade, de sentimentos bons. Época de ficar junto de quem amamos e de celebrar. De trocar presentes e de comer verdadeiros banquetes. Só que tudo isso acontece enquanto os homens estão sentados e as mulheres arrumando a mesa e lavando a louça.

Fonte: Estadão

por: Nana Soares

Cresci numa família que funcionava com essa configuração e estou longe de ser a única. O Natal, assim como qualquer evento que tende a reunir família em casa, escancara a nossa divisão sexual do trabalho, que de divisão não tem nada: homens socializam e se divertem, mulheres trabalham e servem.

Se as mulheres conquistaram o mercado de trabalho (apesar das dificuldades que persistem), os homens estão longe de entender que também fazem parte do universo doméstico. Não sou eu que digo, é literalmente qualquer pesquisa séria sobre o assunto. Elas sempre mostram o que nós já sabemos: as mulheres são as principais responsáveis pelo cuidado e manutenção de um espaço habitado por ambos os gêneros. Cabe a nós o peso e o fardo de zelar pela casa e pelos filhos, enquanto o homem usufrui ou apenas contribui minimamente nas tarefas. Nunca como uma obrigação e sim como uma ajuda.

Apenas para citar algumas pesquisas: a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2013 apontou que 88% das mulheres realizam atividades de trabalho não remunerado (cuidado com casa e/ou filhos), enquanto só 46% dos homens fazem o mesmo. O relatório “Situação da paternidade no Brasil” também destaca que a mãe com filhos dedica 25,9 horas semanais aos cuidados domésticos contra 15,5 horas dos homens com filhos. A diferença é gritante.

Por isso, meu maior desejo no Natal não pode ser trazido pelo Papai Noel. Desejo a consciência de que as mulheres não são empregadas ou escravas dos homens. Desejo que eles lavem a louça, arrumem a mesa, cozinhem e cuidem dos filhos. E que as mulheres façam o mesmo, assim como também se divirtam com seus entes queridos. São pedidos mínimos, o básico do básico, aquilo que nem deveria estar em pauta a essa altura do campeonato.

São ideias que, se ainda chocam, é porque não somos capazes de aceitar a igualdade. Pesquisa recente do Instituto Avon constatou que 48% dos homens concorda total ou parcialmente com a ideia de que é humilhante quando a mulher trabalha fora e o homem cuida dos filhos. O mesmo levantamento apontou também que 35% deles acham que a responsabilidade pela casa e pelos filhos é maior para a mulher. Temos um árduo caminho pela frente, mas que tem que começar de algum lugar. A boa notícia é que o local mais cômodo – e ao mesmo tempo revolucionário – para iniciar qualquer mudança é dentro de nossas próprias casas.

Igualdade não é milagre de Natal. Igualdade é nossa obrigação moral, ainda mais em época de festas. Pouco adianta pregar a união e o amor enquanto ainda hierarquizamos quem deve servir e quem deve ser servido. É hora de, literalmente, arregaçar as mangas e colocar em prática os valores com os quais dizemos tanto concordar. Feliz Natal!

+ sobre o tema

Feminismo, empoderamento e solução: a singularidade de Karol Conka

Sucesso indiscutível entre a crítica e os internautas, a...

Camila Pitanga é eleita Embaixadora Nacional da Boa Vontade

Atriz ganhou o título da ONU Mulheres Brasil e...

para lembrar

O depoimento dessa mãe é mais do que um debate: é uma aula essencial sobre feminismo

Ser mãe é daquelas coisas difíceis de explicar, gente:...

Guevedoces: o estranho caso das ‘meninas’ que ganham pênis aos 12 anos

Condição parece ligada a uma deficiência genética comum em...

O crack, a maternidade e o poder público

Adoção de crianças e, mais que tudo, adoção de...

Seminário internacional Brasil/EUA debate violência contra mulher

Evento aborda programas para homens autores de violência Do MPSP O...
spot_imgspot_img

Coisa de mulherzinha

Uma sensação crescente de indignação sobre o significado de ser mulher num país como o nosso tomou conta de mim ao longo de março. No chamado "mês...

A Justiça tem nome de mulher?

Dez anos. Uma década. Esse foi o tempo que Ana Paula Oliveira esperou para testemunhar o julgamento sobre o assassinato de seu filho, o jovem Johnatha...

Dois terços das mulheres assassinadas com armas de fogo são negras

São negras 68,3% das mulheres assassinadas com armas de fogo no Brasil, segundo a pesquisa O Papel da Arma de Fogo na Violência Contra...
-+=