Que diferenças cientistas negros podem fazer?

Inexpressividade de cientistas negros no seleto grupo de bolsistas do CNPq é espelho da nossa ordenação racista, além de ser resquício político do projeto de branqueamento do início da República.

Na semana passada, a organização Parent in Science – que tem a missão de apoiar mães na ciência – divulgou dados sobre os cientistas brasileiros que são contemplados pelas bolsas de produtividade do CNPq. Tais bolsas são um importante mecanismo de apoio e fomento à ciência brasileira.

Pois bem, dentre os cientistas contemplados no primeiro escalão da produtividade brasileira, temos um total de 0,7% de homens negros e 0% de mulheres negras. Exatamente isso: nenhuma cientista negra está dentro do seleto grupo de bolsistas PQ 1 do CNPq, e o percentual de homens negros é irrisório.

O número não é só estarrecedor, como vergonhoso – já que o baixo percentual se estende para cientistas indígenas e os autodeclarados pardos. Isso porque, a despeito de uma série de dificuldades impostas pelo racismo, nós temos importantes cientistas negros e negras atuando agora em universidades brasileiras.

Apesar de termos importantes cientistas negras atuando em universidades brasileiras, dentre os contemplados no primeiro escalão da produtividade brasileira, temos um total de 0% de mulheres negras – Foto: Thomas Imo/photothek/IMAGO

Mas, fazendo uma breve retrospectiva do Brasil, não restam dúvidas que esse número é um espelho da nossa ordenação racista.

Ao ver o percentual foi impossível não lembrar do projeto de branqueamento engendrado por parte da elite brasileira em conjunção com os representantes máximos do Estado nacional brasileiro no início da nossa experiência republicana. Em 1911, João Baptista Lacerda, importante antropólogo brasileiro, foi escalado pelo então presidente Hermes da Fonseca para representar o Brasil no Congresso Mundial das Raças em Londres. Ali, ele apresentou um projeto de embranquecimento da população brasileira que fazia da imigração europeia (subvencionada pelo Estado) uma espécie de mola propulsora do embranquecimento almejado. A ideia era que esses imigrantes brancos, europeus (e preferencialmente católicos) tivesse relações com as mulheres negras e mestiças do Brasil, para que num intervalo de 100 anos o país se livrasse da sua mancha negra. Segundo os cálculos e infográficos apresentados por Lacerda, caso a política de imigração fosse mantida por algumas décadas, no ano de 2012 o Brasil teria 0% de negros em sua população.

Como bem sabemos esse projeto não deu certo, em parte porque sua premissa estava equivocada: do ponto de vista biológico, as raças humanas não existem, e não há desigualdades inatas entre os diferentes grupos humanos.

Mas há uma dimensão dessa política que venceu e continua vencendo: a ausência ou inexpressividade de homens e mulheres negros nos postos de mando, poder e prestígio. Algo que se expressa na ausência acachapante de cientistas negros no mais alto escalão da pesquisa brasileira, mas que também se faz sentir na direção de empresas, no parlamento brasileiros e no sistema de justiça do país.

Diversidade é benéfica para a ciência

Pois bem, para além da representatividade, que por si só já seria um motivo para que houvesse um número maior de cientistas negros em posições de prestígio e destaque, há outra dimensão que deve ser levada em conta: numa sociedade estruturada pelo racismo, ser negro faz diferença na produção da ciência. Uma diferença que costuma ser profundamente benéfica para o desenvolvimento das pesquisas e do conhecimento científico.

E aqui trago o exemplo ilustrativo de Juliano Moreira. Ele nasceu na Bahia em 1872 e aos 18 anos já havia se formado em medicina, uma proeza e tanto para qualquer rapaz, mas que no seu caso era ainda mais significativa: Juliano Moreira era um menino negro, filho de uma mulher que trabalhou como doméstica na casa de um médico renomado na cidade de Salvador. Ao contrário da maioria dos meninos negros de seu tempo, Juliano pode estudar e sua genialidade rapidamente foi reconhecida. Não bastasse entrar para a Faculdade de Medicina da Bahia aos 14 anos, na sua tese de conclusão de curso ele apresentou um estudo sobre a sífilis (uma das doenças mais frequentes na época), que questionava a existência de raças humanas na perspectiva biológica. Essa constatação feita por um jovem médico só foi comprovada por estudos genéticos em 1905.

Mas Juliano Moreira não parou por aí. Se tornou uma das mais importantes vozes no combate à ideia de que negros e mestiços eram biologicamente inferiores, e fez com que essa sua posição se transformasse em política pública enquanto esteve à frente do Hospício Nacional por quase 30 anos: é dele a autoria da primeira reforma psiquiátrica brasileira, que aboliu o uso de camisas de força e as grades, propondo uma outra percepção do que seriam as doenças mentais e suas possíveis causas.

Juliano Moreira não fez tudo isso apenas por ser um homem genial. Ele o fez por ser um homem negro, filho de uma mulher negra descendente de pessoas escravizadas. Esse seu lugar, fez com que as perguntas que ele lançasse para o mundo dialogassem com uma realidade que muitas vezes parecia invisível para a maior parte dos cientistas do Brasil de então. Juliano Moreira sabia que não existia o universalismo pregado pelo racismo científico de final do século 19 e começo do século 20. O mesmo universalismo que muita gente ainda defende.

E hoje, em pleno ano de 2023, ainda é fundamental pontuarmos isso: o universalismo não é sinônimo das experiências brancas. As perguntas feitas pelos cientistas das mais variadas áreas são informadas pelo seu lugar no mundo. Quanto maior a variedade de pertenças e experiências de cientistas brasileiros (seja racial, de gênero, sexual e de classe social), maior será a gama de perguntas que a ciência poderá fazer e responder.

Quem perde com a ausência de cientistas negros no Brasil, é o país inteiro.

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