Racismo: noiva pede que cantora alise cabelo para “ficar melhor nas fotos”

Uma cantora de Brasília viveu um episódio de racismo ao ser contatada por uma possível cliente. Por meio do Instagram, uma mulher disse que estava organizando a festa de casamento e tinha se interessado pelo trabalho de Lais Raquel. No entanto, estabeleceu uma condição para que o contrato fosse fechado: a cantora teria que alisar o cabelo.

Lais Raquel tem 22 anos e canta desde os 7 anos. Atualmente, trabalha em uma escola com musicalização infantil e também canta em eventos, como casamentos, há três anos. A possível contratante pediu uma foto de Laís em algum casamento e, ao receber a imagem, perguntou: “Você costuma cantar com o cabelo assim mesmo?” Prontamente a cantora respondeu que sim. Foi quando recebeu a proposta: “Se você for cantar no meu casamento, poderia alisar o cabelo? Eu amei sua voz e queria muito que cantasse, mas só esse detalhe para ficar melhor nas fotos do casamento”.

A cantora não aceitou e respondeu para a possível cliente que não entendia a proposta: “Se você quer uma cantora desse perfil no seu casamento existem várias. Agora, se você gostou da minha voz, essa sou eu”.

Em entrevista ao Correio, Laís Raquel conta como se sentiu com a proposta. “Eu não tinha reparado, até essa pergunta, que eu estava sendo vítima de um preconceito, de um racismo velado, um racismo indireto. Eu não tinha reparado porque eu já convivi com esse tipo de situação. Minha família sempre me falou que meu cabelo é mais bonito liso. Que eu combino mais e fico mais bonita. Eu precisei de uma semana para pensar e expor tudo o que eu passei, pensando nas pessoas que ainda não conseguem se impor nessas situações.”

A cantora explica que, se fosse há algum tempo, talvez tivesse alisado o cabelo, mas sua postura mudou. “Se fosse até o ano passado, eu teria arrumado meu cabelo para cantar no casamento dela, mas, a partir do momento que você ama quem você é, (não importa) as outras pessoas falarem o contrário disso”, disse Laís.


A analisa jurídica Stéphane Alves explica que a situação vivida pela cantora fere o princípio da dignidade humana. Ela própria, como mulher negra, incentiva que mulheres e meninas não se submetam aos desejos dos outros em detrimento das próprias características.

“Sou negra e passei pela transição capilar, foi um processo muito difícil de aceitação, pois a vida inteira alisei o cabelo para fazer parte do padrão. Ao ler o relato da Lais Raquel, eu me emocionei, pois já passei por diversas situações parecidas também, e, apesar de ter sido sutil, não deixa de ser uma atitude preconceituosa. Com certeza a cliente não pediria para alguém enrolar o cabelo pois combinaria mais com as fotos. Estamos no século 21 e muitas pessoas continuam tendo atitudes como essa, ferindo o princípio da dignidade da pessoa humana”, afirma a analista.

Racismo estrutural

Lais Raquel não registrou boletim de ocorrência, por isso a polícia não investiga o caso. A cantora disse que bloqueou a noiva e elas não têm mais contato.

A delegada Ângela Maria dos Santos, responsável pela Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou por Orientação Sexual ou Contra a Pessoa Idosa ou com Deficiência (Decrin) explica que a discriminação sofrida por Lais Raquel é um clássico caso de racismo estrutural.

“Ela não falou diretamente que não contrataria, ela falou: ‘Você não usaria de outra forma?’ Ela não falou que o cabelo é feio, ela disse seu cabelo é lindo, mas gostaria que fosse liso porque fica melhor nas fotos. Então está, de uma forma muito sutil, em uma linha muito tênue. É, sim, uma forma de racismo, mas é aquele racismo estrutural, a pessoa não teve dolo de ofender. Mas ela já tem aquilo dentro dela, que ela prefere um cabelo liso nas fotos do casamento dela. Tanto é que ela pergunta: ‘Você usaria?’ Não teve uma ofensa direta. Então, isso a gente chama de racismo estrutural.”

Segundo a delegada, o registro da ocorrência policial permite que haja uma investigação e eventual penalização dos responsáveis. As denúncias devem ser feitas junto à Polícia Civil. O registro da ocorrência pode ser feito pela internet. Outra forma de denunciar casos de injúria racial ou racismo é por meio do Disque 100, do governo federal, por telefone ou pelo aplicativo.

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