Regina King rompe barreira e estreia na direção com aceno ao Black Lives Matter

Poucos dias depois de Veneza se tornar o primeiro grande festival de cinema presencial da era Covid-19, Toronto inaugurou sua 45ª edição, nesta quinta (10), com mais adaptações que seu colega italiano. No evento canadense, as sessões e programações paralelas acontecem de forma híbrida —algumas são presenciais, em cinemas, drive-ins ou espaços abertos, enquanto outras recorrem à internet.

Foi virtualmente, em coletiva para a imprensa nesta sexta (11), que Regina King falou sobre os ineditismos que cercam sua estreia na direção de um longa, “One Night in Miami”, exibido em Toronto e também em Veneza. Com ele, a atriz-cineasta se tornou a primeira diretora negra a apresentar um filme no festival italiano.

Outra possível primeira vez que ronda o filme tem relação com suas expectativas para o Oscar do ano que vem. Bem recebido pela crítica, “One Night in Miami” tem gerado burburinho nos dois festivais, este ano marcados pela ausência de grandes apostas para a estatueta mais cobiçada de Hollywood. Se ele chegar até lá, King pode se tornar a primeira mulher negra a aparecer na categoria de melhor direção.

“Eu estou tentando entender como expressar minha emoção em relação a isso, porque é surpreendente o fato de, em 2020, isso ser uma primeira vez, em um festival que acontece há 80 anos”, diz ela sobre sua participação em Veneza. “Eu entendo a responsabilidade, mas há frustração que vem junto —e também reconheço que há muita pressão.”

“One Night in Miami”, ainda sem título em português, é baseado na peça homônima escrita por Kemp Powers, que também roteirizou a adaptação. A trama ficcionaliza um encontro entre quatro ícones negros dos Estados Unidos, em que eles discutem sua participação no movimento pelos direitos civis dos anos 1960.

São eles o ativista Malcolm X, o jogador de futebol americano Jim Brown, o músico Sam Cooke e o boxeador Cassius Clay, mais tarde rebatizado de Muhammad Ali. Eles são interpretados por Kingsley Ben-Adir, Aldis Hodge, Leslie Odom Jr. e Eli Goree, nesta ordem, atores que também receberam elogios pelo trabalho.

“Quando eu li o texto eu não podia acreditar que aquilo era um peça, porque não se parece com uma. E eu estava lendo e pensei que eu nunca tinha visto conversas como aquelas na tela. Eu sentia que, na verdade, estava ouvindo aquelas conversas, de homens negros falando sobre a experiência de ser um homem negro. E isso casou com a busca por um projeto para a minha estreia na direção”, diz King.

Ela viu sua carreira deslanchar com o Oscar do ano passado, quando embolsou a estatueta de melhor atriz coadjuvante por “Se a Rua Beale Falasse”, também exibido em Toronto. No próximo dia 20, ela é uma das favoritas para levar para casa o Emmy de atriz em minissérie, graças à elogiada “Watchmen”, da HBO.

Em “One Night in Miami”, os quatro protagonistas se reúnem para celebrar a vitória de Cassius Clay sobre Sonny Liston, numa histórica luta em 1964 que rendeu ao primeiro boxeador o título de campeão mundial.

Ao longo da noite, os amigos discutem a conversão de Clay para o islamismo, o início da carreira de ator de Jim Brown e a relação de Sam Cooke com seu público branco, motivo de desentendimento entre ele e Malcolm X.

Apesar de trabalharem com figuras tão fortes e icônicas, King destaca que a ideia nunca foi torná-las seres inalcançáveis, mas mostrar a face mais humana desses homens.

“Eu precisava saber que eu tinha comigo ótimos atores que entendiam a magnitude de quem eles iam interpretar”, explica a diretora. “Eles entendiam isso e, como atores, sabiam que não queríamos fazer imitações, que nós queríamos mostrar seres humanos reais, em um espaço em que ninguém nunca os viu”, diz sobre a intimidade do quarto de hotel onde a maior parte do filme se passa.

Durante a coletiva, King e seu elenco falaram também sobre a urgência de lançarem o longa próximo aos protestos do Black Lives Matter, que tomaram o mundo há poucos meses.

Por causa da pandemia, eles cogitaram a possibilidade de atrasar a estreia de “One Night in Miami”, já que não sabiam se haveria clima para o lançamento do filme em meio à Covid-19. Mas, com os assassinatos de George Floyd, Breonna Taylor e Ahmaud Arbery, eles perceberam que aquele era um filme que precisava ser lançado agora, nas palavras de sua diretora. E, assim, o título chega, agora, a Toronto.

“Toronto é o meu festival de cinema favorito. Mas é um sabor agridoce participar dele, porque você não pode estar lá presencialmente, todos juntos. Essa seria nossa estreia na América do Norte e nossa oportunidade de compartilhar isso em nosso solo. Não é como se isso não estivesse acontecendo, mas fico triste pela situação.”

A estreia de “One Night in Miami” para o público no Festival de Toronto aconteceu também nesta sexta, e mais sessões estão programadas. No Brasil, o longa ainda não tem previsão de lançamento.

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