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Rio de Janeiro é o estado com mais mulheres negras concorrendo em 2018
Créditos da foto: Rodolfo Buhrer/La Imagem

Rio de Janeiro é o estado com mais mulheres negras concorrendo em 2018

Nas eleições de 2018, serão 1237 mulheres negras aptas a disputar cargos eletivos. Levantamento do Congresso em Foco aponta que o Rio de Janeiro é, segundo dados extraídos do site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o estado que tem o maior número de mulheres autodeclaradas pretas concorrendo.

Por Isabella Macedo, do Congresso em Foco

Foto: Rodolfo Buhrer/La Imagem

São 248 mulheres fluminenses autodeclaradas negras querendo concorrer a um cargo neste ano, das quais 231 já estão com os registros de candidatura autorizados. No comparativo com a última eleição geral, o aumento é de 151%: eram 92 as mulheres negras aptas a concorrer em 2014, primeiro ano em que a autodeclaração de raça fez parte dos dados do TSE. Candidatas que concederam entrevista ao Congresso em Foco atribuem o aumento dessas candidaturas à indignação pelo assassinato da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (Psol), em março deste ano (leia mais abaixo).

Em 2018, a maior parte delas (141, equivalente a 61%) concorre a uma vaga na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). As que tentarão uma cadeira no Legislativo federal são 83. Apenas uma é cabeça de chapa para o Palácio da Guanabara, sede do governo fluminense, enquanto outras duas são candidatas a vice. Uma concorre ao Senado e outras três são candidatas à primeira ou à segunda suplência.

O levantamento foi concluído nesta segunda-feira (24) e leva em consideração apenas as mulheres que se autodeclararam pretas. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) considera negros também aqueles brasileiros que se consideram pardos.

Perfil das candidatas
Cargos que disputam
Média de idade
Grau de instrução
Estado civil

Candidatas negras no Rio de Janeiro (por cargo)

  • Deputada estadual: 141
  • Deputada federal: 83
  • Senadora: 1
  • Governadora: 1
  • Vice-governadora: 2
  • Suplentes: 3

 

Média de idade

  • A mais nova tem 21 anos
  • A mais velha tem 85 anos
  • A média de idade é de 48 anos

Grau de instrução

  • Ensino médio completo: 86
  • Ensino superior: 80
  • Ensino fundamental: 27
  • Ensino superior incompleto: 23
  • Ensino médio incompleto: 10
  • Lê e escreve: 5

Estado civil

  • Solteiras: 117
  • Casadas: 83
  • Divorciadas: 16
  • Viúvas: 15

151% de aumento

  • 2014: 92 aptas
  • 2018: 231 aptas

Fator Marielle

Márcia Foletto / Agência O Globo

No estado vizinho, Adriana Vasconcellos (Psol), candidata a deputada federal por São Paulo, vê um “estopim” do crescimento de candidaturas de mulheres negras, não apenas no Rio, com o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco.

Amiga da vereadora assassinada e vereadora em Niterói, Talíria Petrone afirma que a execução foi uma barbárie e um crime político motivado pelas bandeiras defendidas pela vereadora. “Certamente esse assassinato brutal despertou um sentimento de urgência para a ocupação da política em muitas mulheres, em especial mulheres negras.”

Talíria, que é candidata a deputada federal, conta ainda que é abordada por mulheres jovens que expressam indignação pela execução e questionam o que é possível fazer para mudar uma realidade ameaçadora para mulheres.

“As candidaturas de mulheres, em especial de mulheres negras, refletem o fortalecimento da resistência ao machismo e ao racismo, resistência que sempre existiu nas periferias e favelas e que dessa forma vai crescer ainda mais”, diz a candidata.

Mônica Francisco, que também é do Psol, reforça a impressão da correligionária Talíria e acredita que a execução de Marielle “gerou e acelerou um movimento por representação e representatividade” para formulação de políticas públicas. “Não será mais possível formular, pensar ou construir a política sem a nossa presença”, diz Mônica.

“Com o ascenso das lutas das mulheres, cada vez mais vão ocupar a política para lutar por seus direitos e por outro modelo de sociedade. Não vamos nos calar mais”, completa Talíria.

A petista Verônica Lima também acredita que Marielle inspirou mulheres a assumir candidaturas. “As mulheres negras estão reivindicando suas vozes, estão colocando a cara a tapa especialmente porque sabem que suas pautas precisam de representações que vivam na pele essas realidades”, resumiu a candidata.

Em contraponto, a ativista Carla Mayumi, uma das criadoras do VoteNelas – coletivo que organizou o site de mesmo nome com o objetivo de ajudar a monitorar campanhas femininas em 2018 –, diz que não atribuiria a tendência somente ao caso de Marielle.

Ela pondera que, tendo em vista os prazos estabelecidos pela Justiça, o tempo foi razoavelmente curto para uma decisão de concorrer. Marielle foi assassinada em 14 de março, pouco menos de um mês antes do prazo final para estar filiado a um partido e para a desincompatibilização para quem tinha cargo ou função pública.

“Talvez tenha um ‘efeito Marielle’. Mas o Rio de Janeiro, pela situação de violência em que o estado está, e a questão do genocídio de negros e mulheres, me parece fazer muito sentido [que mais mulheres negras se candidatem]”, observou.

Carla também cita uma questão abordada por quase todas as candidatas ouvidas pelo Congresso em Foco: a conscientização dessas mulheres sobre política institucional e politização nas comunidades.

Mulheres candidatas no Brasil

Número de candidatos aptos

27.208

Número de mulheres aptas

9.204

Mulheres negras aptas

1.237

Legislativo

A maior parte das mulheres registradas na Justiça eleitoral concorre a uma vaga na Alerj – que, atualmente, tem apenas uma mulher autodeclarada negra, a deputada Enfermeira Rejane (PCdoB), ocupando uma das 70 cadeiras do parlamento estadual.

Tainá de Paula, correligionária de Rejane, é uma das 141 negras pleiteantes a uma vaga na Alerj. Ela aponta uma questão prática para explicar a razão de menos candidaturas ao Legislativo federal: com as novas regras para eleger um deputado federal – uma cláusula de barreira foi criada na minirreforma eleitoral do ano passado –, os partidos decidiram adotar a estratégia de lançar menos candidatos à Câmara.

“Nesse sentido, como a gente também tem uma renovação de candidaturas, novas candidaturas entrando no cenário. A gente vê uma grande possibilidade de testagem na urna dessas novas figuras”, opina Tainá.

Mônica Francisco (Psol), que também concorre a deputada estadual, está em sua primeira eleição. Para ela, a proximidade dos temas também é um fator a ser levado em conta.

“Acredito que a proximidade das pautas com a localização de suas ações chame atenção. Começando a disputa a partir das pautas mais locais, no âmbito do estado, ainda mais próximo do nosso cotidiano, para depois, se for o caso, pensarmos os meandros do Congresso Nacional e da construção política em escala federal.”

Verônica Lima, que concorre a deputada federal, também aponta para a proximidade com os problemas do estado em relação ao número de candidaturas estaduais. “Mas as candidaturas a federal e estadual são fundamentais para construirmos uma rede poderosa de mulheres que lutam pela igualdade, contra o racismo e pelos nossos direitos”, afirma a candidata, que foi a primeira mulher negra a assumir o cargo de vereadora em Niterói.

Candidatas negras em São Paulo, na Bahia e em Minas Gerais

  • 166 negras em São Paulo
    Em 2014 eram 105
  • 106 negras na Bahia
    Em 2014 eram 59
  • 105 negras em Minas Gerais
    Em 2014 eram 51

São Paulo é o estado com o maior número total de mulheres candidatas neste ano. Das 1255 mulheres, 870 (equivalente a 69,3%) são brancas.

Minoria entre candidatos, maioria na população

Para efeito de comparação, no Rio de Janeiro são 548 mulheres brancas, 348 pardas, 3 amarelas e 2 indígenas na corrida eleitoral. Entre os homens, são 344 negros, 833 pardos, 4 indígenas e 1.365 brancos.

O total de mulheres negras concorrendo no país, segundo os números do TSE, é equivalente a menos de 5% (4,5%) dos mais de 27 mil candidatos considerados aptos até o dia 24 de setembro. Desse total, 9.204 nomes, pouco mais dos 30% exigidos por lei, são de mulheres.

No Brasil, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres são 52% da população brasileira. No país, negros e pardos também compõem a maior parcela a população. Negros eram 8,8% e pardos 47,1% no segundo trimestre deste ano.

Os estados de São Paulo, Bahia e Minas Gerais são os outros três estados com o maior número de mulheres negras no pleito eleitoral deste ano: são 166, 106 e 105 candidatas negras a cargos eletivos, respectivamente.

Além do Rio, os números da participação feminina também subiram nessas unidades federativas. Na última eleição eram 105 mulheres negras aptas a concorrer por São Paulo, 59 na Bahia e 51 em Minas Gerais.

São Paulo é o estado com o maior número total de mulheres candidatas neste ano. Das 1.255 mulheres em disputa, 870 (equivalente a 69,3%) são brancas. Entre as 166 negras que concorrerão por São Paulo, Adriana Vasconcellos acredita que o crescimento do número de candidaturas de pessoas negras é influenciado pelo entendimento do mecanismo da política institucional e da conscientização sobre participação e representatividade, além da política do dia a dia.

São Paulo e Minas são os maiores colégios eleitorais do país, mas o estado com mais pessoas negras e pardas, de acordo com a Pnad Contínua, é a Bahia. O estado nordestino tem 21,4% de sua população autodeclarada negra e 60% parda, seguido pelo Rio de Janeiro, com 12,5% e 41,9%. Em São Paulo, a taxa é 7,4% de negros e 31,5% de pardos, enquanto em Minas é de 11,1% e 48,6%, respectivamente.

Raças X Gênero

Mulheres

  • Brancas: 548
  • Pardas: 348
  • Negras: 231
  • Amarelas: 3
  • Indígenas: 2

Homens

  • Brancos: 1.365
  • Pardos: 833
  • Negros: 344
  • Indígenas: 4

Negras e candidatas

O Congresso em Foco entrou em contato com seis candidatas negras a deputadas estadual e federal no Rio. Dentre as 231 candidatas, apenas nove tentam a reeleição, entre elas a deputada federal fluminense Rosângela Gomes (PRB). O partido de Rosângela, ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, é um dos que têm o maior número de candidatas negras neste ano no Rio, com 14 postulantes. Procurada pela reportagem para conversar sobre o tema, Rosângela não respondeu às perguntas enviadas até a publicação deste texto.

Quase um quarto das candidatas (57 das 231, equivalente a 24%) está concorrendo pelos principais partidos considerados de esquerda no país. PDT têm 16 candidatas negras, seguido por PCdoB (15), PT (12) e Psol, partido de Marielle Franco, escolhido por 14 candidatas negras fluminenses.

Para a candidata a deputada estadual pelo Psol Dani Monteiro, influenciam no aumento de mulheres negras concorrendo questões como o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), que interrompeu um processo de conciliação entre direitos da classe trabalhadora com lucro das elites, além da seletividade da Justiça em favor de políticos e da crise de representatividade da própria classe política.

“As pessoas estão cansadas e desencantadas da política feita pelos mesmos rostos, pelos mesmos homens brancos com os mesmos sobrenomes, as mesmas famílias”, diz Dani. “Em momentos de conjuntura difícil, é quando essas pessoas mais se levantam”, completa a candidata de 27 anos.

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