Rio Negro, 50: Nei Lopes mostra o Rio dos anos 50 pelo olhar dos negros

Novo romance de escritor e sambista é contado por personagens negros e mulatos

Por RUAN DE SOUSA GABRIEL, do Época 

Na manhã de 17 de julho de 1950, um dia após a derrota da seleção brasileira na final da Copa de 1950, um jovem negro salta do trem na Central do Brasil, mas não vai muito longe. É cercado por jovens que o confundem com Bigode, o meio-campo da seleção. Xingamentos se transformam em socos e pontapés e o jovem negro é linchado por um grupo de pessoas furiosas, convencidas de que só o sangue dos jogadores brasileiros, quase todos negros, poderia expiar a nação da vergonhosa derrota para os uruguaios.

É com violência que o começa Rio negro, 50 (Record, R$ 35), o novo romance do escritor e sambista Nei Lopes. Nas páginas de Rio negro, 50, a história do Rio de Janeiro da década de 1950 é contada por personagens negros e mulatos. O livro completa uma trilogia da qual fazem parte Mandingas da “mulata velha” na cidade nova (Língua Geral) e A lua triste descamba, romances protagonizados por personagens negros que participam da história do Rio.

“Na década de 1950, os negros eram os protagonistas da cena cultural carioca e brasileira”, afirma Lopes. Sambistas, jogadores de futebol, mas também cantoras de rádio, como Dolores Duran, e intelectuais negros como o sociólogo Alberto Guerreiro Ramos (1915-1982), o filólogo Antenor Nascentes (1886-1972) e Moacir Santos (1926-2006), maestro da Rádio Nacional, frequentava a boemia carioca. O Teatro Experimental do Negro, fundado por Abdias do Nascimento, também viveu seus anos dourados naquela década.

A maior parte da ação de Rio negro, 50 se passa em dois cafés fictícios localizados na aristocrática avenida Rio Branco, inspirados nos estabelecimentos frequentados pelos intelectuais negros. No Café Bar Rio Negro, reúnem-se jornalistas, escritores, comunistas, o sociólogo mulato Paulo Cordeiro e o advogado negro Doutor Paula Assis, que denunciou o “Crime da Copa” ao Ministério Público. Do outro lado da avenida, o Arabá, que ganhou o apelido de “Café e Bar Colored” por conta da cor da pele de sua freguesia, é frequentado por sambistas, jogadores de futebol, vedetes, malandros e funcionários públicos.

A capa do romance de Nei Lopes: uma visão alternativa da vida no Rio nos anos 1950 (Foto: Foto: Divulgação)
A capa do romance de Nei Lopes: uma visão alternativa da vida no Rio nos anos 1950 (Foto: Foto: Divulgação)

Na mesa do bar, eles discutem os problemas da falta d’água, a especulação imobiliária, os trens que “carregam gente como se fosse boi pro matadouro” e o preconceito racial. Os personagens divergem se há ou não racismo no Brasil. Alguns argumentam que a abolição da escravatura foi incapaz de inserir o negro na sociedade: “Abolição de fachada! Onde já se viu libertação sem condição econômica, sem previdência?”, afirma uma jovem. Outros acreditam que, no Brasil, não existe racismo porque não há leis segregacionistas, como nos Estados Unidos, de onde chegam as primeiras notícias sobre Rosa Parks e o movimento pelos direitos civis. Os frequentadores do Rio Negro também reclamam das esquetes de humor e piadas racistas veiculadas pela Rádio Nacional: “E você já reparou que, no rádio, artista preto dificilmente tem nome? Não tem nome, é só apelido: Blecaute, Caboré, Chocolate, Jamelão, Gasolina, Pato Preto, Risadinha…”.

Não é por acaso que o leitor tem a impressão de que as discussões dos personagens de Rio negro, 50 são ouvidas até nos bares e cafés do Rio de Janeiro e de todo o país. Lopes coloca um discurso que soa atual na boca de seus personagens de época para mostrar que os problemas que negro brasileiro enfrenta hoje são os mesmos enfrentados por gerações anteriores e o quão pouco avançamos no combate ao preconceito e à desigualdade.

O protagonismo negro na cultura, segundo Lopes, passou. “Hoje, as iniciativas culturais dos negros estão sempre na periferia, quando deveria estar no centro da cultura nacional”, afirma. A razão para o afastamento do negro do centro da vida cultural brasileira é o racismo, que, segundo Lopes, é escondido pela exaltação da mestiçagem. “Nós não somos mais explorados como não de obra escrava, mas ainda não temos acesso a uma série de benesses do capitalismo”, diz o autor, reproduzindo um discurso que poderia sair da boca de um de seus personagens.

Além de discussões sobre a situação do negro no Brasil, Rio negro, 50 é uma narrativa permeada pela violência. Violência praticada contra negro, como a cena de linchamento que abre o livro, e violência praticada pelo negro. Num dos capítulos do romance, um homem negro planeja um assalto de proporções cinematográficas. A violência praticada pelos personagens de Lopes não é selvagem ou irracional, mas planejada. “O que interessa ao circuito literário internacional são escritores que coloquem o negro com um revólver na mão. É esse o papel estético que foi reservado aos personagens negros. No meu livro, eu quis metaforizar a atuação do negro como vítima e como autor da violência. O negro é capaz de ser violento sem ser animalesco”, afirma. Nem todos os personagens de Lopes são anjos ou heróis, mas nenhum deles é objeto. Todos são sujeitos de sua própria história.

 

 

Foto de capa:  Ana Branco/divulgação

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