Sobre gordofobia, irresponsabilidade e insegurança no feminismo

Este texto havia sido publicado originalmente no meu tumblr, mas decidi republicar aqui para iniciar uma discussão já planejada do Questões Plurais sobre gordofobia e experiências de mulheres (cis e trans*) gordas. Estamos organizando, há um tempo, textos e outras formas de conteúdo para ampliarmos o debate sobre o assunto. Há inúmeras interseções que precisam ser tratadas com atenção e é o que tentaremos fazer aqui. Este texto é um pedido para, focando no feminismo, entenderem pessoas gordas como iguais e válidas. É preciso compreender, antes de falarmos sobre gordofobia, que nossas (sim, eu sou gorda) opressões são reais.
*
Por Renata em Questões Plurais

O feminismo não é um lugar seguro pra maioria das pessoas que fazem ou querem fazer parte dele. E por maioria quero dizer uma união de minorias. Pessoas negras, trans*, gordas, com deficiência mental e/ou física, pobres, crianças (sim, crianças). Nenhuma dessas pessoas está segura de fato dentro do feminismo. Nenhuma dessas pessoas pode respirar aliviada e dizer “ainda bem que tenho o feminismo”. Porque por mais que o feminismo tenha conseguido, por mais que tenha mudado, essas pessoas precisam considerar vários fatores antes de se dizerem feministas. Elas precisam sair do feminismo tradicional, que dá ênfase a líderes, e dar uma volta enorme e repleta de riscos para chegar a um feminismo que luta por elas e por quem teve de fazer um caminho semelhante de maneira igual.

Mesmo com o feminismo intersecional, eu não me sinto segura dentro do movimento como um todo. Nunca me senti. E não tem um dia sequer em que a vontade de desistir não passe pela minha cabeça. Mas seria fácil demais e não existe fácil na minha vida. E também não tenho esse privilégio de poder abandonar o feminismo porque meu feminismo não é feito apenas de/por/para mim.

Ser obrigada a ouvir e ler comentários gordofóbicos absurdos onde quer que eu esteja — e muitos deles vindos de feministas. Saber que espaços feministas não são acessíveis a pessoas gordas. Ver feministas falarem sobre as vantagens do vagão exclusivo para mulher em transporte enquanto jorram transfobia. Saber que feministas são capazes de ser assustadoramente racistas e capacitistas. São coisas, entre tantas, que me fazem pensar sobre como a corrente principal do feminismo deixa as pessoas preguiçosas.

Sim, preguiçosas.

Antes de entender os efeitos da gordofobia, é preciso entender que pessoas gordas NÃO somos seres inferiores e que somos dignas de uma luta coletiva para que nossas vidas não corram mais perigo — e não por saúde, mas por violência. Não compreender pessoas gordas como válidas, REAIS, é considerar que o que experienciamos não é VERDADEIRO. Por isso tantas pessoas não sentem o menor remorso em afirmar que poderíamos ter “evitado” nossa “condição”. Por isso tantas pessoas duvidam do que temos a dizer. Por isso tantas feministas nos dizem que pessoas magras também passam por situações que passamos, que é difícil pra elas também (difícil é uma coisa, disso não duvido, mas OPRESSÃO é algo totalmente diferente). Não acreditar em nossas experiências e no poder institucionalizado da sociedade em nos oprimir e excluir é o mesmo que dizer que nossas vidas correm perigo por escolha nossa. Percebem como opressões se intersecionam? Isso é reflexo de uma cultura de punição, que tem ligação direta com cultura de estupro e culpabilização de vítima.

Pegando um pouco mais leve (só que nem tanto), um exemplo básico do que pessoas gordas aguentamos diariamente aconteceu comigo esses dias no Twitter. A pessoa transbordou gordofobia e, claro, tinha a ver com saúde. Aliás, ela disse ser da área da saúde, então elasabe o que é verdade ou mentira sobre os corpos de pessoas gordas. E eu sou obrigada, como toda boa pessoa oprimida, a ouvir o que ela tem a dizer porque ela sabe sobre minha saúde e meu corpo. E ela me ordenou a dar um argumento que anulasse o já tão gasto sobre os riscos maiores de saúde que pessoas gordas têm (que já foram desbancados por inúmeras pesquisas, algo que ela saberia se quisesse se informar). Ah, como é linda nossa obrigatória generosidade enquanto pessoas oprimidas de educarmos quem não perde um segundo pra nos ver como gente…! Não foi o que eu fiz e ela, sabendo como posso morrer por ser gorda, não demonstrou interesse em acreditar numa pessoa como eu pedindo apenas pra ela se informar melhor e parar de ser gordofóbica. Tamanho conhecimento fez com que ela se sentisse ofendida por ser xingada de gordofóbica. E aí está a preguiça (sem contar a violência). E só pra lembrar: nós passamos por situações assim e outras bem piores todos os dias.
Gordofobia é uma forma de opressão a pessoas gordas, não apenas o nome que damos a demonstrações variadas de nojo pela nossa existência. Chamar alguém de gordofóbica não é xingamento, é um fato. EU decido quando uma pessoa é ou não gordofóbica porque é sobre o MEU corpo que essas ofensas são ditas, é o MEU corpo sendo impedido de existir nessa sociedade. Não entender essa simples lógica é preguiça, aí sim, por escolha.

Não, não existe isso de “ah, não conheço muito sobre gordofobia, não entendo bem o que pessoas gordas passam”. Conversa fiada. É pra eu sorrir e ficar satisfeita com isso? Devo agradecer? É pra eu pegar uma lousa e uma cadeira e te explicar detalhe por detalhe? NÃO. Isso é preguiça e dá a entender que quem fala algo assim concorda que a única forma de discutirmos sobre pessoas gordas é debatendo sobre saúde, cuidado e outras formas de culpabilização. O fato de eu ser gorda não é um convite pra você se intrometer na minha saúde. Pessoas gordas não existimos pra você inventar mentiras sobre saúde com a única intenção de ditar como devemos viver. Pessoas gordas não existimos pra servir como ponto de análise sobre saúde. Pessoas gordas não existimos pra sua obsessão por invalidar e invadir a saúde alheia. Pessoas gordas não existimos pra você se lembrar de que pessoas magras também têm problemas de saúde porque, sabe, somos todas pessoas. Pessoas gordas não existimos pra ser usadas por você em discurso desonesto sobre diversidade. Pessoas gordas não existimos como acessório para o seu feminismo de enfeite.

Por isso e tão mais, por favor, parem de falar sobre pessoas gordas a partir do argumento da saúde e do cuidado. Não percebem quão opressivo é isso? Parem de fingir preocupação com a forma como somos tratadas. Parem de disfarçar nojo com aliança. Parem de nos comparar em dados falsos. Parem de apagar nossas opressões ao afirmar que mulheres gordas brancas têm os mesmos privilégios de TODAS as mulheres brancas. Parem de achar que sofremos opressão de vez em quando. Parem de nos usar como propaganda do seu feminismo. Parem de ficar felizes com a indústria da moda fingindo se importar com pessoas não-magras em vez de entenderem quão perverso é tudo isso. Parem de achar que a única coisa que merecemos é roupa. Parem de ficar caladxs quando precisamos de apoio. Parem de evitar conflito com a desculpa de ter medo de falar alguma besteira ou de passarem muito nervosismo. É o seu nervosismo que importa nessa situação? Se você tem medo de falar alguma besteira, tem também preguiça de entender por que pode ser besteira. E se você não acha que vale a pena ter raiva do que passamos, sua luta é limitada e individualista. E gordofóbica.

E mais importante: parem de ser tão preguiçosxs.

Se você precisa de “conhecimento” sobre a opressão de um determinado grupo, você não interpreta o que esse grupo passa como opressão pra começo de conversa. Você não precisa conhecer termos criados pra definir conceitos de determinada opressão pra saber quando pessoas desses grupos não são entendidas como seres humanos válidos, livres e completos. Você não precisa ser especialista nas opressões que sofro a fim de entender que sou invalidada apenas por SER o que e quem eu sou, por EXISTIR. E se você prefere dizer que “não conhece” sobre o que eu passo simplesmente pra evitar estar do meu lado em momentos de luta (que pra mim são todos), então tenho direito de compreender isso como preguiça, falta de vontade e desinteresse (e, em alguns casos, gordofobia). Se você não consegue entender que mencionar saúde ao falar sobre pessoas gordas é invalidar a existência dessas pessoas como cidadãs iguais a você, a sua preguiça está acabando com a minha vida. Literalmente. Se você não entende as experiências de pessoas gordas como resultado de opressão do mesmo nível e gravidade de racismo, transfobia e misoginia, por exemplo, então você não me entende como humana.

Você não precisa ser feminista intersecional pra não invalidar a existência de pessoas se baseando em CORPOS. O feminismo intersecional não significa um pedido de “veja, existem outras opressões além das suas”. Se você entende o feminismo intersecional unicamente como forma de perceber que pessoas diferentes de você existem, então você não faz ideia do que significa intersecionalidade. O feminismo intersecional não é desculpa pra sua falta de empatia, ele não existe pra você jogá-lo numa frase e dizer que só teve contato com o conceito recentemente. As pessoas existem independente do feminismo intersecional. E já passou da hora de você deixar sua preguiça de lado e parar de criar desculpas pra não lutar por pessoas além de você e seus espelhos.

E por isso o feminismo como um todo não é um lugar seguro pra mim e tantas outras pessoas que fazem parte daquela união de minorias que mencionei no início do texto. Nós estamos fazendo de tudo pra garantir cada vez mais segurança, mas de quem é a maior parte dessa responsabilidade?

É possível entender que somos gente? Sim? Então ótimo, agora podemos começar conversar sobre as causas e consequências da gordofobia.

+ sobre o tema

Bullying: Humilhadas e ofendidas: o rodeio de Araraquara

A pseudobrincadeira dos alunos da Unesp não tinha como...

Racismo na PUC, de Belo Horizonte, é motivo de protesto dos estudantes

Racismo na PUC O caso ocorreu nas dependências da Pontifícia...

Discriminou os seus clientes e agora viu o negócio falir

Melissa Klein, dona de uma pastelaria, teve uma emotiva...

Diversidade e Inclusão – O amor não tem rótulos

Os criadores deste brilhante vídeo queriam criar algo que...

para lembrar

O depoimento dessa mãe é mais do que um debate: é uma aula essencial sobre feminismo

Ser mãe é daquelas coisas difíceis de explicar, gente:...

Mídias independentes, gênero e sexualidade

No sábado passado, dia 22 de agosto de 2015,...

O crack, a maternidade e o poder público

Adoção de crianças e, mais que tudo, adoção de...

Minha decepção com o machismo do Dalai. Por Nathalí Macedo

Cresci ouvindo falar das citações famosas de Dalai Lama....
spot_imgspot_img

Medo de gênero afeta de conservadores a feministas, afirma Judith Butler

A primeira coisa que fiz ao ler o novo livro de Judith Butler, "Quem Tem Medo de Gênero?", foi procurar a palavra "fantasma", que aparece 41...

O atraso do atraso

A semana apenas começava, quando a boa-nova vinda do outro lado do Atlântico se espalhou. A França, em votação maiúscula no Parlamento (780 votos em...

Fernanda Melchionna lança seu primeiro livro em Cachoeirinha neste domingo; “Tudo isso é feminismo?”

“Tudo isso é feminismo?” – uma visão sobre histórias, lutas e mulheres” marca a estreia de Fernanda Melchionna, no universo do livro. A bibliotecária...
-+=