segunda-feira, novembro 28, 2022
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Sobre nome social e desinformação

dois parlamentares do cerrado querem anular o decreto da presidenta Dilma que garante a transexuais e travestis, que trabalham no serviço público federal, o uso do nome social em crachás e documentos públicos.

“tá certo”, tascou o ruivo que comia um açaí enquanto via o telejornal.

“nasceu João, morre João. onde já se viu João virar Joana?”

eu virei para o outro lado, porque o garotão perguntara e olhara pra mim.

bobagem.

eu uso nome social desde a 5ª série, cara. entendo perfeitamente as travestis.

o deputado acha um absurdo que um homem queira ser chamado por um nome feminino.

esquisito pra mim é uma criatura feminina se chamar Astolfo. não combina, cara. isso constrange.

quando professava em Brasília, eu tive um aluno que se chamava Marciano. e o infeliz ainda era meio orelhudo, baixinho e cabeçudo.

o nome caiu para ele como um apelido.

no intervalo, nos corredores, a moçada sacaneava o ET.

se o pai tivesse prestado atenção na ultrassonografia, jamais daria aquele epíteto à pobre criança.

no ano seguinte, eu faço a chamada e digo: Márcio. e o Marciano levanta a mão.

é que durante as férias o sacana foi ao cartório e, a mando da justiça, mudou de nome. o de batismo o constrangia e o expunha ao ridículo, o que contraria o artigo 17 do Código Civil. Pois não.

Lima Duarte, na verdade, chama-se Ariclenes Venâncio Martins. mas ele não gostou do nome escolhido por seus pais, mandou-o às favas.

cê vai no Projac e tá lá no crachá dele, um bigode, uma calva e o nome em caixa alta: Lima Duarte.

nem sinal de Ariclenes.

Arlete Pinheiro Esteves Torres é o nome de batismo de Fernanda Montenegro.

vai ver no crachá dela!

Bill Clinton, Garrincha, Mussum, uma infinidade de pessoas são tratadas cotidianamente por seus nomes sociais.

Lula sempre foi feminino, irmão. pois não é que o Lula da Silva fê-lo masculino.

e mais, o nosso Luís Inácio acrescentou o apelido Lula a seu nome no cartório.

Xuxa também o fez. um sambista foi ainda mais longe e hoje tá lá na sua carteira de identidade Luiz Antônio Feliciano Neguinho da Beija-Flor Marcondes.

e, oh, cada um deve mesmo ser chamado pelo nome que achar melhor.

afinal de contas a gente nunca é convidado a opinar quando os pais resolvem nos dar um nome.

por isso, todo nome deveria ser provisório.

lá pelos 10, 11 anos, o cara se decidia:

“olha, tá bom esse nome. gostei, vou ficar com ele”.

ou “não, não gostei, quero outro.”

e pá, ganhava o nome definitivo.

porque tem pai que vacila, man.

conheço o caso de um que foi bêbado ao cartório.

chegando em casa a mulher perguntou? “e aí, registrou o menino, ainda se lembrava do nome que te falei?”

e ele não teve dúvidas: “claro, taqui o nome, Marcelo.”

e a esposa diz: “amigão, Marcelo é o nome do irmão dele.”

e assim, ficaram dois Marcelos em casa. como se fossem siameses separados.

e agora, como é que faz faz? ora, vai lá e muda.

por que diabos pastor se mete até nesse lance de uso de nome social, cara?

logo eles, irmãos?

veja essa: Jesus de Nazaré, na verdade, é um nome social. Usa-se a velha técnica de identificar o cabra pelo seu local de origem.

recurso usadíssimo mundo afora: Pepino de Capri, Fafá de Belém, Judas Iscariotes, Don Quixote de la Mancha…

e mais, pastores também costumam se referir ao cabeludo como Jesus Cristo; e Cristo, em verdade, não é um sobrenome, é um título.

sempre nos foi sonegado o nome de batismo do Mestre, o conhecemos por seus nomes sociais.

e sabe o que mais?

o próprio Deus não é Deus coisíssima nenhuma, amigo.

o nome do cara é YWVH, Javé, Jeová…

Deus é o cargo dele.

ele o usa, portanto, como um nome social, porque não gosta que fiquem a falar o nome dele em voz alta.

acho que ele acha o nome dele feio.

eu também acho.

por isso que no crachá que ele usa aqui, toda vez que aparece para vistoriar sua obra, aparece apenas o nome Deus.

e assim, no plural.

tentei explicar tudo isso pro ruivo do açaí, mas num adiantou.

“trocar de nome tudo bem, que nome feio ninguém merece”, disse ele, “mas mudar o gênero já é demais?”

é nada, cara.

e os heterogenéricos? Andrea na Itália é nome de homem, emu camarada. Como Sacha, na Rússia, é nome de cabra macho.

aqui, Djalma pode ser ele ou ela. Sidney pode ser ele ou ela. também pode ser ele ou ela Juraci, Dagmar, Lucimar…

Laerte pode ser O Laerte ou A Laerte. olha que bacana.

essa pelo menos deu sorte, foi só trocar o artigo masculino pelo feminino. o artigo não vem no nome mesmo.

ninguém se preocupa com o fato de de que um nome que serve aos dois gêneros pode constranger, uma vez que ambiguiza a pessoa.

a única refrega aqui nasce do fato de que travestis e transsexuais querem ter direitos.

e isso os parasitas do dízimo não permitem.

há pouco uma cantora evangélica questionava um comercial de TV onde home se vestia com roupa feminina e mulher se vestia com roupa feminina.

ela disse que isso era uma pouca vergonha. alguém tem que dizer a ela que Jesus andava por aí, fagueiro, metido em um vestido longo.

é por essas e outras que sentencio: aceito o que vem de deus, mas não o que vende Deus.

porque para esse tudo é mercadoria.

palavra da salvação.

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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