“Tornar-se Negro – As vicissitude do negro em ascensão social” de Neusa Santos Sousa – Capítulo VI

por José Ricardo D’ Almeida

Resumo: Capítulo VI – Temas privilegiados

Neste capítulo Neusa Santos identifica os temas tratados através dos depoimentos de seus entrevistados: histórias de vida, o falar de si, o auto reconhecimento, a exaltação, o silêncio, choros e sorrisos, a emoção da dor, da raiva, do prazer e da esperança, o conformismo.

Segundo Neusa Santos seu trabalho se assenta no tripé: as representações do negro: aprendidas e vividas; as estratégias de vida: as escolhas, as dúvidas, a sobrevivência e a existência, e a ascensão social: o desafio, os dilemas, as conquistas e as derrotas.

Trata-se das experiências pessoais sob as quais constituímos nosso Ego numa sociedade racista que tanto nega o negro, quanto nega o racismo. Desse conflito que se desdobra em múltiplas representações presentes na nossa cultura se forma um quadro patológico de esquizofrenias: uma patologia do negro e uma patologia do branco. A ambiguidade, a incoerência nas relações pessoais e sociais são as duas dimensões dessa esquizofrenia causada pelo racismo.

Abaixo transcrevo os depoimentos mais significativos dentre os que Neusa Santos apresentou:

1. Representação de Si

1.1 – Definições

– “Entrei na Faculdade de Comunicação cheia de expectativas de transar a vida cultural, agitar a Faculdade. Agitei, logo de saída, uma peça de teatro com debates. Entrei em contato com muita gente, trabalhei pra caralho. Depois eu soube que o pessoal achava que eu era Polícia” (Carmem).

– ” Na Bahia fiz uma peça onde eu tinha uma fala assim: ‘Eu sou Presidente do Sindicato’ … A reação do público foi me chamar de macaco, veado, jogar casca de laranja…. O negro não tem direito ao Poder, nem mesmo num palco, representando um papel…” (Correia)

1.2 – Fantasias e estereótipos sexuais.

– “…ele (um parceiro negro) não era esse homem que eu esperava. Não era também o potente – fantasia da mulher branca e da negra também… (Luísa)

– “Por muito tempo eu fiz o gênero ‘criola gostosa’. transava o lance folclórico do negro como o exótico”. (Carmem)

1.3 Representação do Corpo

-” Eu tinha vergonha do meu corpo. Eu queria transar no escuro…Eu não gostava do meu corpo, dentro de uma coisa de ser negra. Corpo de negra, corpo de mulher tipo operário. Isso sempre me grilou prá burro” (Carmem)

– ” Eu me achava muito feia, me identificava como uma menina negra diferente…Todas as meninas tinham o cabelo liso, nariz fino. Minha mãe mandava eu botar pregador de roupa no nariz pra ficar menos chato… Eu era muito invejosa do físico das pessoas – achava que as pessoas eram muito mais bonitas do que eu” (Luísa)

1.4 – O Mulato: Ser ou Não Ser Negro

– “Não tomo a negritude como uma causa, como uma bandeira política, mesmo porque eu não sou negro de todo: sou mulato nato, no sentido lato, democrático, brasileiro”.

– “Meu pai dizia que a gente era rico. Minha mãe dizia que a gente era pobre. Eu achava que ser rico era morar naqueles edifícios que tinham brinquedos. Mas, também, não era pobre porque pobre era morar na favela. Aí, eu não sabia meu lugar, mas sabia que negra eu não era. Negro era sujo, eu era limpa; negro era burro, eu era inteligente; era morar na favela e eu não morava e, sobretudo, negro tinha lábios grossos e eu não tinha. Eu era mulata, ainda tinha esperança de me salvar…” (Luísa)

2, Das Estratégias de Ascensão

-“Fomos morar em Copacabana, num edifício onde éramos os únicos negros. Tudo de ruim caia em cima de nós. Minha mãe ficava revoltada quando vinha uma queixa – a gente tinha que ser perfeito. A gente dizia: ah! mãe todo mundo faz…Ela então dizia: ‘mas vocês são pretos…’ Em Cascadura era uma vida mais solta, de rua de moleque. Na zona sul, os limites: como se comportar, como deixar de se comportar. Ter que se comportar melhor que os outros…” (Carmem)

-“Meu pai achava que a gente tinha que ser as melhores porque éramos pretas. Uma coisa que sempre me chateou foi que meu pai sempre trazia presentes educativos. Todo mundo lá em casa tinha que ser o melhor aluno.” (Eunice)

2.2 – Aceitar a mistificação

2.2.1 – Perder a cor

Eu estava crescendo como artista e então ia sendo aceito. Aí eu já não era negro. Perdi a cor . Todo esse jogo era vivido por mim de modo contemporizador. Eu não tinha como me confrontar. Não discutia muito a questão. Ia vivendo. O racismo continuava. Eu era aceito sem cor, mas eu ia vivendo. Esse jogo era o meu jogo também. (Alberto)

2.2.2 -“Meu pai foi o único dos filhos que ascendeu…Fez Licenciatura em Ciências e dá aula de biologia no Santo Inácio. Sempre transou a religião negra – é babalorixá no Candomblé, com todo o intelectualismo dele. Ele me diz: ‘você crioula fazendo Psicanálise! Psicanalista de crioulo é Pai de Santo’É o único da família a assumir esse lance. Não é uma questão folclórica. Ele acredita mesmo. E esse é o grande câncer da minha avó: o filho dela, professor, é o macumbeiro. Ela faz de conta que não existe a situação”. (Carmem)

2.2.3 – Não falar no assunto

-“Jorge meu marido… a família dele não me aceita…Ele assume tudo. Me impõe. A gente quase não discute isso”. (Luísa)

-“…é uma dificuldade discutir, nesse meio. (pequena burguesia, branca, intelectual). questão racial. Há o pacto de que somos ‘quase iguais’ e assim é inoportuno, inadequado, perigoso, discutir a questão. E há dois tipos de resposta desse meio à questão racial: uma paternalista mistificadora: ‘ah, vamos discutir, sim. Meu bisavô era negro eu até me sinto negro…’ e outra de negação : Não, não vamos discutir isso'” (Carmem)

3.Do Preço da Ascensão: A contínua Prova

-“O sentimento de rejeição existe. A nível de existência, no dia-a-dia. Depois eu adquiri consciência, eu tentei me impor – pelo lado intelectual, que é um modo de competição. A gente tem duas opções pra não se sentir tão isolada: a gente se integra à comunidade negra – e eu já estou fora dela há muito tempo – ou se integra ao meio da dominância branca que não satisfaz. É um lugar onde tudo é uma prova, onde estão sempre te testando. Justamente por ser negro tem sempre a idéia de um merecimento por você estar ali. A gente tem que ter uma justificativa pra dar, por estar nesse meio.E tem o teste pra ver se a gente continua merecendo. A exigência de ser o melhor pra todo mundo, pra toda a sociedade, mas os negros são aqueles que tem que assimilar isto melhor”. (Carmem)

Fonte: José Ricardo D’ Almeida Facebook

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