Transgressiva ou submissa?

Desde a antiguidade as mulheres têm um papel bem definido na sociedade. E, neste papel que lhe foi e ainda é imposto submissão ainda é a palavra de ordem, e a pobre mortal que se rebela contra o papel ao qual foi predestinada no momento de sua concepção está fadada a ser uma transgressora. Em pleno século XXI, termos tal diálogo parece-me algo descontextualizado, porém o nosso dia-a-dia nos mostra o quanto o mesmo é necessário e por que não dizer imperativo.

Por: Rosemeire Cerqueira da Silva dos Santos via Guest Post para o Portal Geledés

A mulher é submetida aos desejos de outros desde a mais terna idade. Ainda na infância aprende com os pais que menina não brinca com meninos, menina limpa a casa, menina ajuda a cuidar dos irmãos, menina não fica na rua até tarde, menina não fica bem com determinados tipos de roupas, menina não fala palavrões, etc, e assim, a menina, futura mulher vai se moldando aos caprichos de uma sociedade machista e hipócrita na mais pra essência.

Na adolescência a menina/mulher que já traz consigo ensinamentos arraigados de sua infância aprende que, mulher de verdade não anda em baladas, mulher de verdade não namora com um e com outro, mulher de verdade não vai para cama no primeiro encontro, mulher de verdade tem um vocabulário adequado a sua situação de mulher, mulher de verdade é delicada, mulher de verdade sonha em se casar, mulher de verdade não se separa, mulher de verdade é obediente e segue as regras sociais. Em fim, mulher de verdade é submissa.

Já na idade adulta, a mulher carregando consigo o peso de todos os ensinamentos a qual foi submetida, por vezes, assume o lugar que lhe foi preparado desde sua concepção aceitando obedientemente o espaço que lhe é imposto de maneira tão brutal. Sim, brutal! Uma vez que não lhe foi dado o direito de escolha, o livre arbítrio e a sua personalidade foi forjada e moldada ao bel prazer de outros. Lutar contra a opressão que sufoca a personalidade, os sonhos, os desejos e os anseios femininos ainda hoje causa mal-estar social.

Lutar contra a força social opressora significa transgressão, transgressão dos valores impostos por uma sociedade machista, e a mulher que se rebela contra a imposição seja ela no campo profissional, social, familiar ou sexual ainda é vista com desdém e indiferença, pois os assuntos que tocam realmente fundo no imaginário do que se espera de uma “mulher de verdade” seguem intactos na concepção de uma grande parcela da sociedade. Ser transgressora significa se opor a todas as conversões sociais impostas ao sexo feminino, é lutar por um espaço digno e igualitário na sociedade, é lutar para que seus desejos e vontade sejam respeitados, é não aceitar obedientemente o que é imposto de forma brutal, é não ser passiva ao ter sua opinião sufocada, é não aceitar a submissão como uma verdade incontestável, pois em plena contemporaneidade onde o discurso de igualdade de gênero circula diariamente nos meios sociais a mulher ainda é vista com o mesmo olhar de inferioridade de décadas atrás e a sua luta por igualdade e reconhecimento é uma batalha diária. Ainda hoje, lutar pelo direito a igualdade e a liberdade que há muito nos foi cerceado ainda é visto como uma transgressão social, pois mulher de verdade e submissa não transgressiva. Então, sejamos todas transgressivas!

 

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