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Transição capilar e produção de conhecimento
Créditos da foto: @EZEKIXL

Transição capilar e produção de conhecimento

10 anos atrás, se você quisesse saber alguma coisa sobre cabelo, tinha apenas duas opções: ir no salão de beleza ou comprar uma revista especializada. A revista, claro, tinha como público alvo os profissionais do ramo da beleza, não sendo assim tão voltada para a consumidora comum. O Salão exigia o famoso $$$.

Por  RENATA ALBUQUERQUE RIBEIRO para o Portal Geledés 

@EZEKIXL

Algumas semanas atrás descobri um termo chamado “porosidade capilar“. Na verdade, eu já vejo esse termo correndo nas bocas das blogueiras de cabelos cacheados e crespos tem um tempo. Mas eu confesso que o universo das naturalistas é tão imenso e tem todo um vocabulário in english, diga-se de passagem, que teve uma hora que me encheu um pouco o saco. Eu não tinha tempo nem paciência para me debruçar em todo aquele conhecimento.

Além da grandeza desse universo, outra coisa me afastou muito das blogueiras de cabelo cacheado: o consumismo. Eu tinha uma lista infinita de produtos pra comprar que me deixava sempre insatisfeita no fundo porque o tal creme que eu estava usando não era exatamente a última novidade. Eu fazia parte da comunidade amigas cacheadas do Facebook que começou pequena e de repente tinha 30 mil pessoas. As mulheres exibiam seus cabelos, isso em 2012, sei lá, passando pela transição capilar, comparavam uns aos os outros e os tipos de curvatura (1,2,3,4). Elas também postavam fotos do seus “kits”. Cada foto tinha no mínimo 10 produtos. Se quiserem consigo citar alguns dos clássicos aqui. Era creme que não acabava mais.

Acho que o erro foi ter usado as estadunidenses e seu padrão de consumo como parâmetro. Lembro de dois vídeos específicos de duas figuras que a galera das antigas vai lembrar, elas eram referência: Negra rosa e Amanda Gil. Em um vídeo, a Negra Rosa dizia que não adianta dar massagem no cabelo de 15 em 15 dias e achar que seu cabelo vai ficar bonito.

Em outro, a Amanda Gil falava “gente essa parte dói o braço mas é assim mesmo, tem que ser forte e passar bastante produto. Não vê as americanas, elas passam 4 produtos

em cada mecha.” Isso enquanto fazia a fitagem. A tal técnica se multiplicou e popularizou (estruturada, esticadinha, etc.). Realmente é uma ferramenta eficaz para que busca definição. 

Mas guardo essas duas frases como exemplo daquilo que me afastou do mundo dos cabelos. 

Além de não ter tempo, paciência e dinheiro para investir, eu comecei a ligar um belo de um foda-se pra essa exigência do cabelo cacheado perfeito.

Hoje eu penso que não é porque sou naturalista que preciso ter um cabelo de revista. 

Na época do boom da transição, muitas dessas mulheres, que hoje são famosas no mundo digital, arrancavam suspiros na internet com seus cabelos perfeitos nesse grupo “amigas cacheadas”. Mas o objetivo era sempre o cacho. Demorou um tempo para que as mulheres com cabelo tipo 4 botassem a boca no trombone e começassem o movimento “não sou cacheada”. Não eram mesmo, nunca foram. Até a própria classificação “tipo 1, 2, 3 e 4” começou a ser problematizada.

Lembro de Raíza Nicácio afirmar num vídeo que havíamos entrado na ditadura do cacho perfeito. Concordei e parei ali.

De uns tempos pra cá, vejo as pessoas abandonando um pouco isso, que bom.

Lembro de ter visto a Nina Gabriela platinada e sem definição pela primeira vez. Pensei “porra, finalmente”. Me afastei mas continuo assistindo de longe a expansão desse movimento. Vi ele se democratizar cada vez mais.

Também vi a indústria crescer e fiquei muito feliz com isso. Lembro de ter visto pela primeira vez o uso no/low Poo numa cacheada tratada por Robson Caetano. Ele usou o tal “shampoo que não faz espuma” da marca gringa curls que custava 120 reais na época. Logo depois, descobrimos a também gringa deva curl que custa aí seus belos 80 reais.

Hoje, em qualquer farmácia você encontra shampoo que não faz espuma por um preço muito, mas muito mais acessível. Tudo de marca nacional.

Lógico que o mercado é aquele negócio, né? Faz porque tá lucrando. E, nesse caso, as marcas foram espertas e souberam escutar o que o mercado gritava. Demorou mas aconteceu.

Antes de existir na farmácia um shampoo que diz “liberado para no/low poo” (e faço questão de explicar isso para as mais novas) essas mulheres, rainhas, fizeram sabe o quê? Descobriram o que era sulfato, parabeno, anfótero, parafina, silicone insolúvel, óleo mineral…passaram a ler a composição dos produtos. Tipo “as alquimistas” mermo. Descobriram que componentes ajudavam ou atrapalhavam o cabelo. Que componente era hidratante, qual conferia um poder nutritivo e qual ajudava na reconstrução do fio muito danificado. Elas aprenderam como era a estrutura de um fio de cabelo. Existe um negócio chamado “cutícula”. Na falta de bons profissionais que soubessem lidar com o cabelo cacheado/crespo, elas desenvolveram suas próprias técnicas. Aprenderam a cortar o cabelo em casa, sozinhas…

Elas aprenderam como lavar o cabelo com condicionador, o famoso “co-wash” e nos ensinaram que você precisa fazer um negócio chamado “ação mecânica”. Ensinaram como “batizar” um creme de farmácia baratinho, que produtos da cozinha você poderia usar no cabelo… Método LOC, LOMC, técnica da reza. O vocabulário é longo e eu não vou explicar tudo isso. Aqui o foco é outro.

No grupo amigas cacheadas, tinha um documento que se não me engano foi feito pela Eliane Serafim e Daniela Lisboa. Eu faço questão de dar os créditos porque na minha área você não escreve nada sem referência rs. Era a lista de todos os produtos liberados e em que etapa do famoso “cronograma capilar” eles se encaixavam, quais dias da semana você deveria usá-los.

Mano, isso é muito incrível. Olha o tamanho do conhecimento que essas mulheres desenvolveram, testaram, compartilharam.

Lembro a primeira vez que fiquei feliz por elas, foi quando a Gil Viana apareceu numa revista. Na Gloss, talvez? Com aquele cabelo muso, figurino impecável. Fique feliz mesmo sem a conhecer. Na realidade, não conheço nenhuma delas mas é como se conhecesse, a gente compartilha tanta coisa. Algumas eu já acompanho há anos.

Lembro também da campanha mais recente de Seda que ficou demais, acho que foi a primeira vez que elas trabalharam juntas. Sabemos que muitas dessas blogueiras tem limitações, elas não são modelos. Não são pessoas do ramo de entretenimento como a gente tá acostumado. Chega a ser engraçado porque essa galera da Internet não tem experiência em trocar de câmera e nem em usar um ponto eletrônico rs. É uma pegada bem diferente mesmo. Sobre isso, a Nina Gabriela, Nathalie Barros e Maju Silva fizeram um vídeo bem legal expondo verdades sobre muitas dessas campanhas. Desglamurizando um pouco esse universo.

Outro momento marcante dessa trajetória foi quando elas viraram embaixadoras Salon Line e ganharam o iPhone mais atual da época. Cara, as garotas estavam chorando! Fiquei feliz por elas porque sei que muitas são de origem humilde, trabalham na base da permuta, então precisam de grana cara, pra pagar aluguel, sabe? Essas coisas comuns da vida. É um perfil bem diferente das blogueiras de moda, por exemplo.

Daí que desde o início do ano e comecei a perceber que meu cabelo tem um ressecamento crônico.

Tipo, ele já nasce ressecado da raiz. Vi um vídeo por acaso e descobri que meu cabelo tem todos os requisitos de um cabelo com “porosidade alta”. Nesse tipo, o fio vem com cutículas muito abertas então a hidratação não fica. É assim que me senti a vida toda. Passo o produto e no dia seguinte não tem mais nada. Comecei a ver vídeos no intervalo da escrita da tese e, cara, ver essas mulheres falando sobre a tal porosidade me fez enxergar que elas sabem muito. Em uma semana, eu já descobri MUITA coisa sobre porosidade. Tratamentos caseiros, produtos mais indicados, etc. 

Comecei a pensar “meu Deus, eu aprendi tanto com essas mulheres só nessa semana, queria ter a oportunidade de agradecer por isso”. 

Em 2016 conversava com uma amiga sobre uma série de oficinas que iria acontecer no coletivo feminista que faço parte. A ideia era que cada mulher chegasse lá e compartilhasse algum conhecimento, dando uma aula sobre algo que se sente à vontade. Confesso que eu continuo achando essa proposta muito maravilhosa.

Acabou que as oficinas não aconteceram e eu comentava isso com uma amiga. Ela me disse que eu devia ter sido a primeira e eu respondi que não me sentia à vontade pra dar uma aula sobre nada.

Nesse mesmo dia e passado um tempo, essa minha amiga me disse que queria comprar uma máscara de hidratação que custava 200 reais.

Eu disse pra ela que não valia a pena. Uma máscara é algo que você só usa às vezes. Eu falei assim: se você quer investir no seu cabelo, é melhor investir em produtos que usa com mais frequência, tipo shampoo, condicionador e creme pra pentear, principalmente o shampoo. De nada adianta gastar 200 reais num creme que hidrata teu cabelo de 15 em 15 dias, se três vezes na semana você usa um shampoo que faz teu cabelo virar um bagaço. Isso eu aprendi com a Mari Morena.

Ela me respondeu: e você acabou de me dizer que não tem nada pra compartilhar.

Na boa, não podemos ignorar nem menosprezar todo o conhecimento adquirido e compartilhado por essas mulheres. É conhecimento que não tem em livro. Conheço pouquíssimos sobre transição capilar e cuidados com cabelos crespos. Eram mais estrangeiros e mesmo assim são bem recentes. Essa tradição de conhecimento europeu parece que desvalida todos os outros tipos de saber. Claro que existe diferença entre um profissional de salão ou um químico mas nós não podemos menosprezar o saber dessas mulheres só porque não está nos livros.

Elas aprenderam fazendo, testando, gastando seu dinheiro pra comprar produto. Lendo muito, assistindo vários vídeos no YouTube. Vendo vídeos em inglês sem falar inglês, apenas para prestar atenção nas técnicas das americanas, copiando seus gestos. Apesar de achar que isso foi um problema entendo que o modelo tenha sido esse, elas foram as pioneiras. Cara, na boa. Máximo respeito a essas mulheres.

Me incomoda muito que elas sejam inferiorizadas, que o termo blogueira de cabelo tenha uma conotação negativa. Como se o conhecimento que elas produzem e compartilham fosse menor.

Hoje eu não me sinto na menor obrigação de ter um cabelo perfeito e percebo que muitas delas também não.

Claro que o mundo da Internet tem picareta. Aliás, em qualquer área. Mas não podemos deixar que um ou outro apague o que essas mulheres já fizeram. Não só no sentido da aceitação mas no sentido de produção e circulação do conhecimento. Só quem cresceu nos anos 90 e teve muito couro cabeludo queimado por química sabe do que eu tô falando. Querendo ou não, elas fizeram muito pela comunidade negra.

Então hoje eu gostaria de agradecer a essas mulheres da transição. Pode chamar de blogueira!! Mas admita que essas mulheres são muito mais do que cabelo, são poder.<

Obrigada, rainhas.

** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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