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Uma nova ordem econômica mundial, sem colonialismos, guerras. O que importa para os negros e negras brasileiros?

por Sérgio Martins

Em 2009, o presidente dos Estados Unidos Barack Obama conclamava sua nação para construção de uma nova ordem econômica a partir de cinco pilares: reforma da regulação do sistema financeiro; investimento em educação para preparar a força de trabalho para o século 21, investimento em energia e tecnologia renovável; investimento no sistema de saúde para reduzir os gastos de famílias e empresas, e restauração da disciplina fiscal quando a economia se recuperar. Obama alertava a sociedade americana e global sobre a necessidade de mudanças nas bases da sua economia doméstica e nas entrelinhas afirmava que entraríamos em um período de grande turbulência. Agora assistimos uma crise mais profunda da economia americana, com lastro na dívida pública e um abalo na credibilidade dos investidores quanto á capacidade da maior potência do mundo continuar puxando a locomotiva do capitalismo. A maior nação bélica do planeta amarga com a falta de credibilidade política e econômica na sólida democracia governada por republicanos e democratas. Por tratar-se de uma crise profunda, nos parece que alguns americanos ricos resolveram pular do barco, aproveitando os mecanismos do capitalismo globalizado. Arrisco em afirmar que a faceta racista da sociedade americana tem pesado na mobilização de recursos e arranjos para superação da crise, porém temos um fenômeno muito mais complexo pela frente.

Entre os países que compõem o chamado G8, Estados Unidos, Grã-Betanha, Alemanha, Itália, Canadá e França, desempenharam um papel de dominação de diversas regiões planetárias através da colonização, puderam com os recursos apropriados impulsionarem seus mercados com a revolução industrial e a reorganização da área rural, inclusive com a imigração do contigente excedente para outros países colonizados. Aqueles que não usufruíram desta fase histórica, como Estados Unidos e Canadá se beneficiaram com o boom na produção industrial no pós segunda guerra mundial. Assim, podemos afirmar, que entre outro fatores a economia mundial moderna teve seus pilares no colonialismo, nas guerras, e na exploração dos recursos naturais como o petróleo monopolizado pelos países árabes. Estes, hoje abalados pela exigência de novas regras no jogo político, movidos pelos ventos da democracia.

Uma nova ordem mundial se desenha no planeta, onde países como Brasil, Índia e China figuram como países emergentes com bases produtivas, recursos naturais e reservas internas para superarem a atual crise mundial. O interessante é que estes países apresentam uma diversidade na sua população com vários debates sobre o problema de racismo e exclusão social de etnias. Entre nós, os dados oficiais dão conta do grau de exclusão da população negra dos resultados dos projetos de desenvolvimento sócio-econômico. Indago qual será a importância deste momento para o futuro dos jovens afrodescendentes?

A agenda da nova economia mundial foi levantada nos cincos pontos proposto por Barack Obama, entre eles destaco a questão educacional, o investimento nas tecnologias de energias renováveis e acrescentaria dois outros pontos, o fortalecimento da democracia e a garantias das liberdades públicas e a produção de alimentos para subsistência.

Em matéria de educação formal assistimos a crise que passa o sistema educacional público, onde os afrodescendentes ingressam no ensino básico, com péssimas condições estruturais, professores com baixas remunerações, falta de incentivos para qualificação e uma grade curricular defasada. Nossas crianças para o futuro precisam de uma base sólida em matemática, português e literatura para incentivar o imaginário. Os jovens necessitam de um ensino crítico e amplo, porém com possibilidade de optarem por um currículo especifico dirigido para formação acadêmica ou técnica. Neste cenário, as cotas se constituem um instrumento importante para o acesso ao ensino superior de qualidade. Mas o maior desafio será dos jovens afrodescendentes em encararem as cursos de ponta para nova era econômica, tais como: da biotecnologia, da nanotecnologia, da robótica, da física astronômica, da química molecular, da matemática pura etc…..

No que diz respeito, aos investimentos em tecnologia em energia renovável, este é um desafio para o país, que ingressa no ciclo de exploração de produção e petróleo, através das recentes áreas de pré-sal no final de um ciclo da velha economia. Pois a nova agenda econômica deverá justar-se a necessidade de preservação da vida sustentável no planeta. Assim, os investimentos em produção de energia hidráulica, eólica e solar devem aumentar em escalas bem superiores a que assistimos hoje. Os modelos de casas inteligentes como o aproveitamento de água de chuvas, luz solar e carros de baixa poluição movidos por combustíveis naturais, energia elétrica e criogênica, devem tomar as agendas de investimentos e exigir novos profissionais qualificados e empreendedores arrojados.

A produção de alimentos, um ponto não suscitado por Barack Obama, também merece nossa atenção, pois trata-se de um ponto crucial para uma nova agenda mundial. Um novo modelo de produção de alimentos em larga escala, mais em pequenas propriedades urbanas e rurais ganham importância estratégica, que podem ser bastante exploradas pelas comunidades quilombolas. Seria interessante uma linha de análise sobre a importância do papel econômico desenvolvido pelo Quilombo dos Palmares em relação ao seu tempo de duração histórica, inclusive seu grau de independência com o poder central.

Porém, ainda enfrentaremos o desafio, o modelo do individuo egoísta moderno, interessado, apenas no seu desenvolvimento pessoal, sem uma cosmovisão de preservação planetária. De nada adianta o enfrentamento de todos os pontos suscitados, se não mudarmos nossa visão de ocupação do planeta, de exploração dos recursos naturais e da forma consumista que temos vivido até o presente. Um novo modelo de “bem viver” em sintonia com a natureza, com o planeta, respeitando as individualidades e diversidade humana, onde o excedente da riqueza coletivamente produzida seja dirigida para o beneficio da coletividade. Somos herdeiros dos dias sofridos do povo africano escravizado em solo brasileiro, que construiu esta nação através do trabalho escravo e posteriormente livre, teremos a oportunidade de sermos diferentes, coletivamente.

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