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A (auto) cobrança sobre nossos corpos

Ao tratar do Movimento Negro é nítida as especificidades que cercam o grupo e de como o sentimento de coletivo é muito forte: “Eu sou, porque nós somos” e nesse viés é difícil reconhecer o quanto é adoecedor carregar responsabilidades que não respeitam as nossas limitações.

Por Victória Emanuele Oliveira Ribeiro para o Portal Geledés 

É relevante ponderar, e é o que espero abordar, como essa luta coletiva de ocupar espaços e adentrar os mesmos de forma influenciadora é desumanizadora, e que a humanização de nossos corpos é uma luta contínua para ser reconhecida, principalmente, pelo Estado, visto que o ideal de indivíduo negro e negra é fruto de uma construção de civilidade a partir advinda do processo escravização desses corpos. Corpos esses que foram abandonados a partir de uma libertação fajuta que não pensou em políticas de inclusão, possuindo interesses meramente econômicos devido ao boom da Revolução Industrial na Europa.

Os espaços que irei me referir com mais ênfase nesse texto são os educacionais, e elucido que a construção dessa escrita parte de uma vivência pessoal e coletiva, no sentido de conversar com pessoas do meu círculo de amigos, não sendo então tão representativa em termos de pesquisa, mas que ainda assim continua sendo válida para reflexão.

É nítida a resistência, persistência e luta contínua para se opor a estrutura racista vigente, onde os espaços de permanência e inserção de pessoas negras ainda é de subalternidade e servidão. Inserir-se em outros espaços como a universidade, onde menos de 10% dos estudantes são negros, segundo a Isto é (2016) – visto que a população negra compõe 54% da população brasileira, segundo o site de Economia da UOL (2015) -, é abrir caminhos para as próximas gerações.

Conversando com amigos negros pude perceber a semelhança das nossas criações partindo de uma única fala: “Você só vai ser alguém, se estudar” e a cobrança excessiva por parte de nossos pais, camuflada em sua maioria com preocupação, para a obtenção de boas notas, bom comportamento e a manutenção da aparência que não fira os padrões impostos pelas sociedade, expondo que a única solução para adquirir a humanidade é a partir da intelectualidade. Seguindo essa perspectiva, foi notório identificar como isso foi internalizado por nós, cujo comportamento durante nossa trajetória acadêmica era/é justamente para atingir os objetivos de sermos melhores, de sermos destaques e agarrar as oportunidades como se não houvesse uma segunda chance, nos submetendo muitas vezes a processos não agregadores para a vida pessoal, acadêmica e profissional.

Os meios educacionais que sofrem forte influência de uma cultura eurocêntrica e opressora, devido a uma baixa diversidade agregadora das várias inteligências defendidas pela Psicologia Cognitiva, anula a pluralidade dos diversos corpos e que estão naquele espaço. A cobrança, ainda forte por parte dos pais, nos influenciou, e ainda nos persegue, de forma excepcional que mesmo ao chegar a vida adulta nos vemos reproduzindo o discurso, embora tenhamos a consciência do quanto isso é prejudicial para a nossa saúde mental. Certa vez em uma discussão, ouvi de um amigo negro a seguinte fala: “10 para nós é o mínimo” e concordei, e depois nos vimos debatendo o quanto que esse comportamento é agressivo e nos priva do significado de humanidade que acarreta em não sermos perfeitos.

A desumanização que cerca nossos corpos cotidianamente segue diversas óticas, como não corresponder aos estereótipos ditados sobre a mulher negra quente e o homem negro do pau grande, o aspecto de ser forte em qualquer circunstância com a não demonstração dos sentimentos, pois expor as emoções ainda é visto como sinal de vulnerabilidade. Esses estigmas, principalmente o de “todo negro é ladrão”, contribuem para que os nossos corpos tornem-se alvos fáceis da sociedade e do Estado, que aos nos tratar olham somente para nossa cor de pele e não considera nenhum aspecto frente ao grau de escolaridade, renda e afins, mesmo alcançando a visibilidade continuamos a ser perseguidos pelos estereótipos. Nossos corpos tornam-se então viris e imunes a dor, enrijecendo a ponto de não desfrutar dos mínimos prazeres da vida, anulando o sentir, trazendo a tona as inseguranças e medo.

Corroborando com o argumento anterior, estamos fadados a não reconhecer nossas limitações e dificuldades, a não nos permitir errar. A cobrança contínua de ser perfeito, sendo que essa condição não existe ao pensar no que consiste em ser humano, perpetuando implicitamente a desumanização de nos obrigar a ser melhores sem pensar nas consequências nocivas sobre o nosso corpo. Estamos acostumados a nos obrigar, inúmeras vezes, a atingir esse potencial inalcançável.

A cobrança, nas diversas instâncias que compõem a sociedade e a sua interdisciplinaridade, regozija sobre o corpo preto, a ponto de auto desumanizar, de não reconhecer as limitações, as dificuldades, não permitindo que se identifique a hora de parar para respirar, não permitindo a identificação gente de carne e osso e que por isso, eu, tenho tempos, jeitos únicos de lidar com o mundo.

Entendo que nossos corpos, independente das nossas condições sociais, são mutilados, açoitados constantemente e que, possivelmente, naturalizamos a dor, acumulando muitas vezes o que deve ser posto pra fora. Devemos lembrar que a dor do outro não deve e nem pode anular a sua, a minha e a nossa.

Referências:
Revista Isto É. ESTUDANTES NEGROS SÃO MENOS DE 10% NAS UNIVERSIDADES FEDERAIS. Disponível em <https://istoe.com.br/149761_ESTUDANTES+NEGROS+SAO+MENOS+DE+10+NAS+UNIVERSIDADES+FEDERAIS/> Acesso em 20 jan. 2019.
Economia UOL. NEGROS REPRESENTAM 54% DA POPULAÇÃO DO PAÍS, MAS SÃO SÓ 17% DOS MAIS RICOS. Disponível em <https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2015/12/04/negros-representam-54-da-populacao-do-pais-mas-sao-so-17-dos-mais-ricos.htm> Acesso em 20 jan. 2019.


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