A bala perdida do pastor

A junção bala-bíblia-bonachão é o que define a receita distópica para 2022

Não há metáfora mais verossímil para o que está em jogo nas eleições de 2022 do que a da arma disparada, por pura imperícia e desrespeito às regras federais, pelo ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, pastor na religião bolsonarista, no aeroporto de Brasília na última segunda-feira (25). A junção bala-bíblia-bonachão é o que define a receita distópica para 2022.

Está tudo ali na cena do aeroporto: a bala, escondida pelo ex-ministro em sua pasta de documentos como quem esconde a pornografia fálica da nossa falência moral; a Bíblia, que na versão de Milton aprova a violência e mistura religião com o balcão de negócios de que é acusado instituir no MEC; o bonachão, que, por negligência, incompetência ou uma combinação de ambos, poderia ter lesionado o atendente da companhia aérea.

Engana-se quem pensa que se trata de um episódio isolado. A religião bonachona da bala se traduz, com Bolsonaro, em política pública. É o uso da Lei Rouanet, aprovado em abril deste ano, para que um livro sobre armas capte R$ 336 mil da indústria armamentista. É a política pró-violência bem-sucedida de Bolsonaro que conjuga, desde em 2019, duas frentes: de um lado, coloca mais armas na mão da população (dobrou a venda de munições em 2021 para os ditos caçadores, colecionadores e caçadores) e, de outro, flexibiliza o controle sobre armas e munições.

A arma do bandido que te mata na esquina mesmo depois de você se ajoelhar pedindo para não ser morto, como ocorreu no Jabaquara na última segunda-feira (25), é mesma a arma do policial que executa o morador pai de um bebê de quatro meses mesmo sem ele apresentar qualquer risco, como ocorreu em Jacarezinho no Rio de Janeiro no mesmo dia. Mais armas em circulação e menos controle sobre o uso das armas, por civis e por policiais, geram mais violência e insegurança.

A bala perdida do pastor não saiu pela culatra: na religião armamentista, a bala perdida tem destino certo e este destino somos nós.

+ sobre o tema

Selo Sesc lança Relicário: Dona Ivone Lara (ao vivo no Sesc 1999)

No quinto lançamento de Relicário, projeto que resgata áudios...

Em autobiografia, Martinho da Vila relata histórias de vida e de música

"Martinho da Vila" é o título do livro autobiográfico...

MG lidera novamente a ‘lista suja’ do trabalho análogo à escravidão

Minas Gerais lidera o ranking de empregadores inseridos na...

para lembrar

A “coveira” que existe em mim saúda a “coveira” que existe em ti

Eu, assim como Bolsonaro, também não sou coveira. Ao...

Utopia para meninos negros

São Gonçalo (RJ), João Pedro Matos Pinto, 14. João...
spot_imgspot_img

Fim da saída temporária apenas favorece facções

Relatado por Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o Senado Federal aprovou projeto de lei que põe fim à saída temporária de presos em datas comemorativas. O líder do governo na Casa, Jaques Wagner (PT-BA),...

Um samba de cor e de protesto

"Eu aprendi o português, a língua do opressor / Pra te provar que meu penar também é sua dor." Com versos tão cortantes quanto...

Pornografia infantil não é ficção

Hélio Schwartsman ("Ficção ou realidade?", 7/2) defendeu neste espaço a seguinte "solução" para "transformar a pornografia infantil em crime sem vítima": inteligência artificial (IA). A coluna reage a um...
-+=