quinta-feira, outubro 15, 2020

    A incrível história de Geni Guimarães, escritora homenageada na Balada Literária

    Autora de 'A cor da ternura' ficou duas décadas sem publicar e anuncia novos livros de poemas e contos


    Fonte: O Globo, por Ruan de Sousa Gabriel

    “Eu não me lembrava mais de que era escritora. Você acredita num negócio desses?”, conta, por telefone, Geni Guimarães, que, no final dos anos 1980, conquistou os leitores e a crítica com os contos autobiográficos de “Leite do peito” e “A cor da ternura”, livro premiado com o Jabuti. Na década seguinte, publicou a antologia poética “Balé das emoções” e três livros infanto-juvenis, mas uma grave depressão que a afastou da literatura. Geni só se lembrou de que era escritora quando, revirando as próprias estantes, encontrou uma cópia de “O terceiro filho”, seu livro de estreia, publicado em 1979.

    – Na capa estava escrito “Geni Guimarães”. Lembrei que tinha escrito aquele livro e tentei recomeçar. Recomecei e, graças a Deus, estou de pé – afirma Geni, que completa 73 anos na próxima terça-feira (8) e, no ano passsado, publicou o infantojuvenil “O pênalti” (Malê), depois de 20 anos em silêncio.

    Geni é a autora homenageada da 15ª edição da Balada Literária, que começa nesta quinta (3) e se estende até a segunda (7). Este ano, a festa será totalmente on-line e transmitida pelo site da Balada Literária. Na abertura, será exibido o documentário “Geni Guimarães”, dirigido por Day Rodrigues, que passou dois dias na casa da escritora, em Barra Bonita, no interior de São Paulo. Depois, Day e a bibliotecária Bel Santos conversam com a homenageada e com a escritora Conceição Evaristo, admiradora confessa de Geni. Também participam desta edição da Balada Literária a atriz Zezé Motta, o poeta Ricardo Aleixo, os escritores indígenas Eliane Potiguara e Daniel Munduruku, a filósofa Marcia Tiburi e outros.

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    – Ser homenageada e ver meu trabalho ser valorizado é muito bom, porque, no Brasil, é raro negro receber homenagem. O racismo quer nos derrubar, mas “eu já estou armada” – diz Geni, citando o verso de um poema seu ainda inédito.

    Em novembro, a Malê publica “Poemas do regresso”, reunião dos versos que Geni compôs desde que se lembrou de que era escritora. Para o ano que vem, a editora promete novas edições de “O terceiro filho” e “Balé das emoções”.

    – É emocionante ver o retorno da Geni à cena literária em momento em que há maior interesse pela literatura de escritoras negras – diz Vagner Amaro, editor da Malê. – Geni produziu livros potentes, como “Leite do peito”, quando nossa literatura ainda carecia de representações da subjetividade da mulher negra, como escritora e personagem.

    Nascida em São Manoel, no interior paulista, Geni já fazia versos antes mesmo de aprender a escrever. Nas noites frias, sua mãe, que era analfabeta, acendia uma fogueira no sítio e começava a cantar: “Olha o bambo do bambu do bambuê / Olha o bambo do bambu do bambuá / Olha o bambo do bambu do bambuê/ Bambuê, bambuê, bambuê bambuá”. Cada um dos filhos continuava a cantiga com versos inventados na hora. Ainda hoje, a brincadeira se repete quando a família toda se junta em Barra Bonita.

    Geni decidiu que ia publicar seus versos quando cursava o magistério e tentou mostrar um de seus poemas a uma professora, que a ignorou.

    – Eu coloquei um poema em uma mesa de uma professora esperando que ela lesse – recorda Geni. – Ela não leu e quando se levantou, o papel caiu no chão. Ela não viu e saiu arrastando meu poema com o salto. Fiquei com tanta raiva que prometi para mim mesma que ia escrever um livro.

    Cumpriu a promessa em 1979, quando lançou “O terceiro filho”. Para pagar custos da publicação, ela e o marido venderam o fusca da família. Geni continuou bancando os próprios livros até o sucesso de “A cor da ternura”, no qual recorda episódios de sua infância, como as aulas em que a professora branca contava uma história da escravidão diferente da que ela ouvia dos parentes mais velhos. E a vez em que ela esfregou a pele da perna com um tijolo para tentar ficar branca.

    A vida como matéria-prima literária

    Geni terminou há pouco de revisar seus “Poemas do regresso” e já está trabalhando em um novo livro: “Contos do lugar comum”. O principal conto do livro se chama “Família Zelão” e acompanha as dores e as alegras de um pai, uma mãe e seus dois filhos, todos negros. “Contos do lugar comum” tem descrições de sexo “bem fortes” e Geni brinca que talvez enviará os originais ao editor antes que seus os leiam. Pouco afeita à tecnologia, ela costuma escrever a mão e, depois, digita tudo com a ajuda de um neto.

    – Quando a gente escreve a mão, com letra cursiva, parece que alma da gente pinga e verso fica melhor – ri.
    Ao transformar as próprias vivências em matéria prima-literária e denunciar o racismo em prosa e versos, Geni inspirou inúmeras outras escritoras negras.

    – Com suas publicações independentes, Geni incentivou uma geração inteira de mulheres negras a publicar a e pensar a escrita como um direito – diz Conceição Evaristo. – Como muitos outros escritores e escritoras negros, Geni também foi invisibilizada, mas produziu uma obra poética que discute questões muito sérias, como o racismo e a situação da mulher, e que aponta para a diversidade que existe na literatura brasileira.

    Geni não permite que os elogios lhe subam à cabeça e, citando versos próprios, se diz “inacabada”.

    – Não fico fissurada nessas coisas, vendo tudo o que acontece em volta da minha literatura. Acho que o fiz vai dar frutos e pronto – diz Geni, que confessa ainda ter grandes planos. – Estou querendo ser o novo Zumbi, o novo Nelson Mandela ou Martin Luther King. Eu tenho um sonho também.

     

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