Amílcar Cabral o poeta africano

Por que alguém se preocuparia em calar a voz de um poeta? Que horrores, que perigos poderiam conter suas rimas a ponto de levar alguém a um ato tão extremo? Por que será que as palavras, em sotaque lusitano, do cabo-verdiano Amílcar Cabral despertaram tão profundo e intenso ódio em seus algozes? Será que a palavra é uma das armas mais temidas por aqueles só são capazes de se valer da violência?

A quem vive em tempos de paz é quase impossível se conceber o veneno que impregna das entranhas e as mentes, em períodos de guerras, quando os que realmente ganham, e muito, são apenas os fabricantes de material bélico. Nos anos 70, grande parte do que foi produzido pela indústria das armas e munições foi despejado no continente africano.

Amilcar era guineense de Bafatá. Tinha oito anos quando a família se mudou para a ilha de Cabo Verde e ele se transformou em cabo-verdiano de alma. Dez anos depois, atuou na imprensa, antes de seguir para Portugal para estudar agronomia. Longe de casa, escrever poemas é a melhor maneira do desterrado se sentir deitado ao colo da mãe.

Uma mãe que é a própria África: “Mamãe Velha, venha ouvir comigo/O bater da chuva lá no seu portão/É um bater de amigo /Que vibra dentro do meu coração…”Ao retornar, em 1952, traz no peito não só os versos, mas o anseio de libertação que o tornará “o pai grande” da nacionalidade de sua pátria e lidera, quatro anos depois, a criação do Partido Africano para a Independência da Guiné e de Cabo Verde (PAIGC).

Cantar sua terra e o seu povo, para esse que foi um dos mais carismáticos líderes africanos de seu tempo, era tão ou mais intenso que disparar mísseis contra o colonizador: “Tu vives – mãe adormecida- / nua e esquecida,/ seca, / fustigada pelos ventos, / ao som das músicas sem música / das águas que nos prendem…” Versos que atravessaram o Atlântico e inspiraram do lado de cá alguns dos grandes poetas negros brasileiros, entre outros, o Cuti, o Arnaldo Xavier, o Paulo Colina, o Hamilton Cardoso, cujo filho se chama Amilcar, em homenagem ao poeta-herói-mártir.

Nos saraus que os militantes do Movimento Negro realizavam nas décadas de 1970 e de 1980, impossível não declamar seus versos: “Quem é que não se lembra / Daquele grito que parecia trovão?! / – É que ontem / Soltei meu grito de revolta. /Meu grito de revolta ecoou pelos vales mais longínquos da Terra, / Atravessou os mares e os oceanos, / Transpôs os Himalaias de todo o Mundo,/ Não respeitou fronteiras / E fez vibrar meu peito…” Um peito revolucionário que jamais se furtou a homenagear às mulheres negras, tão pouco exaltadas e valorizadas por nós, homens negros: “Rosa, / Chamam-te Rosa, minha preta formosa / E na tua negrura / Teus dentes se mostram sorrindo. / Teu corpo baloiça, caminhas dançando, / Minha preta formosa, lasciva e ridente / Vais cheia de vida, vais cheia de esperanças / Em teu corpo correndo a seiva da vida…

”Em 2001, a cineasta Ana Ramos Lisboa produziu um documentário com depoimentos de várias pessoas que conviveram com Cabral, entre elas, sua esposa Ana Maria, única testemunha de sua execução, em que o apresenta não só como político, mas um humanista que desempenhou um papel fundamental à cultura tanto de Cabo Verde quanto da Guiné-Bissau. Ao rever esse filme, tornou-se impossível não escrever sobre os versos desse imortal poeta.

Texto: Oswaldo Faustino | Adaptação Web Sara Loup

Foto em destaque: Imagem retirada do site Revista Raça

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