Literatura africana em sala de aula: uma proposta didática

A relação entre história e literatura vem de longa data. A narrativa literária é considerada uma das fontes de produção do conhecimento histórico sobre a experiência humana em vários tempos, espaços e contextos – socioculturais e políticos. Esse tipo de narrativa traduz, a seu modo, aspectos da realidade vivida e representa importante meio de reflexão histórica. E quando se trata da história de África, campo afetado pela permanência do legado colonial, a literatura se apresenta como uma possibilidade de analisar processos históricos sob a perspectiva africana.

Diante da implementação da Lei n. 11.645/2008, que estabeleceu a obrigatoriedade do ensino da história e cultura africana, afro-brasileira e indígena, o desafio hoje no Brasil é o de ir além da mera inserção de conteúdos. Mas oportunizar uma reflexão e letramento críticos sobre dinâmicas históricas e contemporâneas que envolvem as populações negras (africanas e afrodiaspóricas) e indígenas. Neste sentido, avalio que a literatura africana pode ser um excelente instrumento para proporcionar uma visão acerca de África que rompa os diversos estereótipos e generalizações negativas e reducionistas sobre o continente, seus povos e suas histórias.

Tomando essa direção como eixo de discussão do texto, gostaria de trazer aspectos sobre a história da África e suas abordagens no ensino de História através de uma importante escritora nigeriana: Flora Nwapa. Essa autora africana e suas obras literárias fornecem alguns caminhos, como enfatizo no texto, para uma aprendizagem histórica plural e antirracista. Para tanto, apresento aqui algumas reflexões a partir de minha dissertação de mestrado e do produto didático desenvolvido no âmbito do Mestrado Profissional em Ensino de História, o PROFHistória, na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), por meio de um diálogo com a literatura de Flora Nwapa.

A nigeriana Flora Nwapa (1931-1993) é considerada a primeira mulher africana a ganhar reconhecimento internacional como escritora, em fins dos anos 1960. Também foi a primeira mulher a fundar e comandar uma editora no continente africano, a Tana Press, em 1974. Flora escreveu vários romances, contos, poemas e obras para o público infantil. Sua primeira e mais conhecida obra é Efuru (1966), que foi traduzida para o português somente em 2023. Efuru é um romance considerado marco na literatura contemporânea produzida em África, por ser pioneiro em conferir centralidade à experiência e perspectiva de mulheres na escrita literária.

Como uma mulher igbo, um dos mais numerosos grupos étnico-linguísticos que vivem no território da Nigéria, Flora destacou em Efuru aspectos específicos da vida em uma comunidade igbo na primeira metade do século XX, durante o período colonial nigeriano. Tanto que Efuru é o nome da personagem principal do romance, filha de um líder da comunidade. E os dilemas que ela enfrenta diante do papel social da mulher numa sociedade em transição são o fio condutor de toda a história de Efuru.

Conforme defende Claudia Mortari, a narrativa literária como fonte histórica permite ao leitor/a perceber as formas de ser, estar e viver no mundo na perspectiva de seu autor/a e das personagens criadas por ele/a em suas obras. Neste caso, os escritos de Flora Nwapa refletem as condições de existência dessa autora, seu lugar social, as histórias e modus vivendi de seu povo (igbo) etc. E eles nos fazem enxergar os mundos africanos a partir da visão dessa escritora igbo. Assim, considerando a literatura enquanto fonte de evidência histórica, propus a sua utilização como estratégia didática para o ensino de História sobre África na sala de aula da Educação Básica.

A escolha e uso desse recurso se dá a partir de duas importantes dimensões. A primeira: ao apresentar as características de uma comunidade igbo da Nigéria, a literatura permite romper com uma noção generalista de “sociedades africanas” que reduz as características históricas, linguísticas, sociais e políticas de centenas de povos e culturas em uma só. A segunda: ao colocar uma personagem feminina como centro de sua narrativa literária, a autora buscou evidenciar o protagonismo das mulheres e o seu papel nos diferentes setores da sociedade igbo.

Trazer esse enfoque sobre a ativa dinâmica social envolvendo as mulheres africanas e seu protagonismo, tomando o espaço de enunciação da personagem Efuru, tem uma relevante marcação na obra de Flora Nwapa. Em uma das entrevistas que concedeu à pesquisadora Marie Umeh, Flora considerava que seus colegas africanos, escritores homens, negligenciaram em suas obras o papel das mulheres. Isso, segundo ela, auxiliou na construção de uma visão que inferiorizava (e ainda inferioriza) as mulheres africanas em sua totalidade.

Além dos aspectos apontados acima, a história de Efuru possibilita aos estudantes analisar os impactos da presença colonial em África, uma vez que a trama do romance se passa durante o período do colonialismo europeu (britânico) na Nigéria – contexto histórico do avanço de nações imperialistas da Europa sob outros continentes, sobretudo África e Ásia, entre os séculos XIX e XX. Ou seja, essa obra literária em si possibilita uma reflexão histórica sobre a forma como essa dinâmica colonial afetou a rotina das pessoas nesse território hoje conhecido como Nigéria e as formas de reação das comunidades locais a essas mudanças impostas pelo colonizador europeu.

Assim, o ensino e aprendizagem da história na Educação Básica ganha novos sentidos ao permitir o entrelaçamento desses acontecimentos, personagens e a percepção da história de sua autora. Aspectos que corroboram um letramento histórico através da literatura. Para isso, com apoio financeiro da Capes e ilustrações de Tarik Assis, produzi um material didático intitulado Efuru: a história das mulheres Igbo na literatura de Flora Nwapa, o qual é voltado para estudantes do Ensino Fundamental (anos finais) e do Ensino Médio e que pode ser adquirido gratuitamente no portal do AYA – Laboratório de Estudos Pós-Colonial e Decolonial.

O processo detalhado de construção desse material, desde a questão da tradução (já que o produto foi desenvolvido a partir da versão original da obra, em inglês) até as escolhas teóricas e metodológicas que fundamentaram o seu desenvolvimento, está bem apresentado na dissertação de mestrado, também disponível no portal do laboratório AYA.

Capa do produto didático “Efuru: a história das mulheres Igbo na literatura de Flora Nwapa”. Autoria de Tathiana Cristina Cassiano. AYA – Laboratório de Estudos Pós-Colonial e Decolonial, Universidade do Estado de Santa Catarina, 2020. Fonte: site do laboratório AYA.

O material didático está dividido em quatro partes: “Apresentando Flora Nwapa”, “As personagens”, “Textos didáticos” e “Fontes de pesquisa”. Essas partes são independentes entre si. Ele foi estruturado dessa forma para que o/a professor/a possa utilizá-lo como material de consulta ou de leitura. Com isso, tal produto pode se adaptar à metodologia e proposta de ensino na qual essas partes estarão inseridas dentro de sala de aula.

Ele começa com uma apresentação geral sobre a autora, Flora Nwapa, e o povo igbo – do qual ela e suas personagens fazem parte –, de modo que os alunos e alunas compreendam a riqueza social, cultural e histórica desse grupo a partir daqui. Em seguida, foram escolhidas seis personagens da obra Efuru (Efuru, Ajanupu, Ossai, Nwabata, Ogea e Uhamiri – a deusa do lago azul), sendo apresentadas em pequenos textos narrativos que enfatizam importantes elementos do protagonismo dessas mulheres igbo a partir das complexas relações sociais e experiências de vida na Nigéria colonial.

Seção “As personagens”, em que se conta a história de Efuru. Autoria de Tathiana Cristina Cassiano. AYA – Laboratório de Estudos Pós-Colonial e Decolonial, Universidade do Estado de Santa Catarina, 2020. Fonte: site do laboratório AYA.

Os textos narrativos sobre cada uma das personagens são acompanhados de trechos da obra literária e de imagens, que aqui são entendidas como textos em si articulados com a história e com o objetivo proposto no material; não apenas como meras ilustrações dentro do texto. Cada personagem possui cores associadas a elas, desenvolvidas a partir de um banco de imagens composto por fotografias de comunidades igbos do início do século XX.

Na terceira parte, são apresentados textos didáticos a serem trabalhados em sala de aula, de acordo com as propostas do/a professor/a, com algumas categorias de análise e letramento histórico retiradas da própria narrativa literária de Efuru. Esses textos estão organizados nos seguintes temas: “Cosmogonia e ancestralidade”, “Laços de linhagem”, “Colonialismo”, “Trabalho” e “Educação e relações sociais”. Cada um deles possui sugestões de atividade ao final do texto, com questões de interpretação do conteúdo apresentado. Vale destacar que esses textos foram construídos em diálogo com intelectuais de diferentes campos do conhecimento, que debatem sobre os temas centrais destacados acima, cujas referências estão apresentadas ao final do material.

Seção “Textos didáticos”, com categorias de análise e atividades que podem ser utilizadas pelo/a professor/a. Autoria de Tathiana Cristina Cassiano. AYA – Laboratório de Estudos Pós-Colonial e Decolonial, Universidade do Estado de Santa Catarina, 2020. Fonte: site do laboratório AYA.

Na quarta e última parte desse produto didático, são apresentados trechos da literatura que servem como fontes de pesquisa. Eles estão organizados a partir dos temas utilizados nos textos da seção anterior. Essas duas partes, “Textos didáticos” e “Fontes de pesquisa”, possibilitam aos alunos e alunas compreender sobre os conceitos-chave apresentados pelo/a professora/a em sala de aula e como eles podem ser localizados no texto literário, ainda que de forma diluída. Isso reforça entre os/as estudantes o papel da literatura como fonte na produção de conhecimentos sobre uma dada realidade, histórica e/ou contemporânea.

Assim, quando falamos em uma educação com compromisso antirracista, reivindicamos também um necessário movimento de ruptura com uma tradição historiográfica que insiste em colocar os sujeitos da história – sobretudo mulheres, indígenas e negros – numa condição de espectadores passivos dos acontecimentos e processos que os afetam. Por décadas, a construção do conhecimento histórico pautou-se no olhar do colonizador, tendo em vista à prioridade dada às fontes obtidas a partir das bibliotecas coloniais, como denominado por Elikia M’Bokolo, cujas narrativas estavam marcadas pelo discurso colonial imperialista, racista e sexista, mesmo que ocultado sob uma suposta objetividade descritiva.

E para compreender essas histórias profundas ocultadas pela tal “objetividade oficial”, é necessário buscar outras fontes de informação e reflexão sobre o passado – e o presente – de tais sociedades. Aqui, a produção literária africana contemporânea, que ganhou corpo a partir da década de 1940, se une a outras fontes materiais e orais para compor um rol de instrumentos que ampliam as possibilidades de entendimento da experiência de sujeitos em África. Isso porque essa literatura é tecida através de uma apropriação e ressignificação feita pelos povos africanos da linguagem colonial e da escrita, para fins de consolidação de uma identidade local (étnica) em contraponto àquelas forjadas pelo colonizador de forma impositiva.

Levar essas dimensões socioculturais e políticas, ligadas ao gênero literário, para a sala de aula significa reconhecer e valorizar a diversidade africana, de seus povos, histórias e modos de ver e agir sobre o mundo e suas realidades. Também é reconhecer a complexidade das relações humanas que foram (e são) estabelecidas em África, no passado e no presente. E como isso está conectado às nossas histórias, em face da diáspora. Desse modo, colaboramos com uma prática educadora que emancipa os sujeitos e acolhe as diferenças, além de ampliar perspectivas sobre o exercício da cidadania, segundo dispõem as diretrizes da Lei n. 11.645/2008.

Assista ao vídeo da historiadora Tathiana Cassiano no Acervo Cultne sobre este artigo:

Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC): 

Ensino Fundamental: EF07HI03 (7º ano: Identificar aspectos e processos específicos das sociedades africanas e americanas antes da chegada dos europeus, com destaque para as formas de organização social e o desenvolvimento de saberes e técnicas); EF08HI23 (8º ano: Estabelecer relações causais entre as ideologias raciais e o determinismo no contexto do imperialismo europeu e seus impactos na África e na Ásia); EF08HI24 (8º ano: Reconhecer os principais produtos, utilizados pelos europeus, procedentes do continente africano durante o imperialismo e analisar os impactos sobre as comunidades locais na forma de organização e exploração econômica); EF08HI26 (8º ano: Identificar e contextualizar o protagonismo das populações locais na resistência ao imperialismo na África e Ásia); EF09HI14 (9º ano: Caracterizar e discutir as dinâmicas do colonialismo no continente africano e asiático e as lógicas de resistência das populações locais diante das questões internacionais).

Ensino Médio: EM13CHS101 (Identificar, analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em diversas linguagens, com vistas à compreensão de ideias filosóficas e de processos e eventos históricos, geográficos, políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais); EM13CHS102 (Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, cooperativismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos); EM13CHS504 (Analisar e avaliar os impasses ético-políticos decorrentes das transformações culturais, sociais, históricas, científicas e tecnológicas no mundo contemporâneo e seus desdobramentos nas atitudes e nos valores de indivíduos, grupos sociais, sociedades e culturas).


Tathiana Cassiano

Telefone: (47) 98867-7439 

Doutoranda em História, Universidade do Estado de Santa Catarina/ 

AYA Laboratório de Estudos Pós-Colonial e Decolonial; 

E-mail: [email protected]

Instagram @tathianacassiano


** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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